ACHAREI MOT – KEDOSHIM

Posted on maio 3, 2017

ACHAREI MOT – KEDOSHIM

AS TRÊS VOZES DO JUDAÍSMO

O décimo nono capítulo do livro de Vaykrá, com o qual nossa parashá começa, é uma das afirmações supremas da ética da Torá. É sobre o certo, o bom e o sagrado, e contém alguns dos maiores mandamentos morais do Judaísmo: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”, e “Que o estrangeiro que vive entre vós seja semelhante ao seu nativo. Ama-o como a ti mesmo, pois fostes estrangeiros no Egito”.

Mas o capítulo também é surpreendentemente estranho. Contém o que parece uma mistura aleatória de mandamentos, muitos dos quais nada têm a ver com a ética e apenas uma ligação tênue com a santidade:

Não misture diferentes tipos de animais.
Não plante no seu campo dois tipos de sementes.
Não use roupas tecidas de dois tipos de material (19).
Não coma nenhuma carne ainda com o sangue.
Não pratique adivinhação ou feitiçaria.
Não corte o cabelo nos lados de sua cabeça ou raspe as bordas de sua barba (26-28).

E assim por diante. O que têm a ver com o certo, o bom e o santo?

Para entender isso, temos que nos engajar em um enorme salto de percepção sobre a visão moral / social / espiritual única da Torá, tão diferente de tudo o que encontramos em outros lugares.

O Ocidente tem feito muitas tentativas de definir um sistema moral. Alguns focados na racionalidade, outros em emoções como simpatia e empatia. Para alguns, o princípio central era o serviço ao Estado, para outros o dever moral, para outros a maior felicidade do maior número de pessoas. Essas são todas formas de simplicidade moral.

O judaísmo insiste no oposto: complexidade moral. A vida moral não é fácil. Às vezes, deveres ou lealdade entram em choque. Às vezes a razão diz uma coisa, a emoção outra. Mais fundamentalmente, o judaísmo identificou três sensibilidades morais distintas, cada uma das quais tem sua própria voz e vocabulário. Elas são [1] a ética do rei, [2] a ética do sacerdote e [3] a ética do profeta.

Jeremias e Ezequiel falam sobre suas sensibilidades distintas:

Porque o ensino da lei [Torá] pelo sacerdote não cessará,
Nem o conselho [etzah] do sábio [chacham],
Nem a palavra [davar] dos profetas (Jeremias 18:18).
Eles irão procurar uma visão [chazon] do profeta,
A instrução sacerdotal na lei [Torá] cessará,
O conselho [etzah] dos anciãos chegará ao fim (Ez. 7:26).

Os sacerdotes pensam em termos de Torá. Profetas têm “a palavra” ou “uma visão”. Os anciãos e os sábios haveetzá. O que isso significa?

Reis e seus tribunais estão associados no Judaísmo com a sabedoria – chochmá, etzah e seus sinônimos. Vários livros do Tanach, os mais notáveis ​​Provérbios e Eclesiastes (Kohelet), são livros de “sabedoria”, dos quais o exemplo supremo era o Rei Salomão. A sabedoria no judaísmo é a forma mais universal de conhecimento, e a literatura da Sabedoria é o mais próximo que a Bíblia hebraica chega à outra literatura do antigo Oriente Próximo, assim como aos sábios helenísticos. É prática, pragmática, baseada na experiência e na observação; é prudente. É uma receita para uma vida que é segura e saudável, sem excesso ou extremos, mas dificilmente dramática ou transformadora. Essa é a voz da sabedoria, a virtude dos reis.

A voz profética é bem diferente, apaixonada, vívida, radical na sua crítica ao uso indevido do poder e à busca exploratória da riqueza. O profeta fala em nome do povo, dos pobres, dos oprimidos, daqueles que sofrem abusos. Ele (ou ela) pensa na vida moral em termos de relações: entre D-s e a humanidade e entre os próprios seres humanos. Os termos-chave para o profeta são tzedek (justiça distributiva), mishpat (justiça retributiva), chessed (bondade) e rachamim (misericórdia, compaixão). O profeta tem inteligência emocional, simpatia e empatia, e sente a situação dos solitários e oprimidos. A profecia nunca é abstrata. Não pensa em termos universais. Ela responde ao aqui e agora de tempo e lugar. O sacerdote ouve a palavra de D-s para todos os tempos. O profeta ouve a palavra de D-s para este tempo.

A ética do sacerdote, e da santidade em geral, é mais uma vez diferente. As principais atividades do sacerdote são lehavdil – discriminar, distinguir e dividir – e lehorot – para instruir as pessoas na lei, tanto em geral como professores e em casos específicos como juízes. As palavras-chave do sacerdote são kodesh e chol (santo e secular), tamê e tahor (impuros e puros).

A passagem mais importante na Torá que fala na voz sacerdotal é o capítulo 1 de Bereshit, a narrativa da criação. Aqui também um verbo-chave é lehavdil, dividir, que aparece cinco vezes. D-s divide entre luz e escuridão, águas superiores e inferiores, dia e noite. Outras palavras-chave são “abençoar” – D-s abençoa os animais, a humanidade e o sétimo dia; e “santificar” (kadesh) – no final da criação D-s santifica o Shabat. De forma esmagadora, em outros lugares da Torá, o verbo lehavdil e a raiz kadosh ocorrem em um contexto sacerdotal; e são os sacerdotes que abençoam o povo.

A tarefa do sacerdote, assim como D-s na criação, é trazer ordem ao caos. O sacerdote estabelece fronteiras no tempo e no espaço. Há tempos santos e lugares santos, e cada tempo e lugar tem sua própria integridade, seu próprio lugar no esquema total das coisas. O protesto do kohen é contra a confusão de fronteiras tão comuns nas religiões pagãs – entre deuses e humanos, entre a vida e a morte, entre os sexos e assim por diante. Um pecado, para o kohen, é um ato no lugar errado, e seu castigo é exílio, ser lançado fora de seu lugar de direito. Uma boa sociedade, para o kohen, é aquela em que tudo está em seu devido lugar, e o kohen tem especial sensibilidade para com o estrangeiro, a pessoa que não tem lugar próprio.

A estranha coleção de mandamentos em Kedoshim, portanto, não é estranha. O código de santidade vê o amor e a justiça como parte de uma visão total de um universo ordenado no qual cada coisa, pessoa e ato tem o seu devido lugar, e é esta ordem que é ameaçada quando a fronteira entre diferentes tipos de animais, grãos, tecidos é violada; quando o corpo humano é dilacerado; ou quando as pessoas comem sangue, o sinal da morte, a fim de alimentar a vida.

No Ocidente secular, estamos familiarizados com a voz da sabedoria. Há áreas comuns entre os livros de Provérbios e Eclesiastes e os grandes sábios desde Aristóteles até Marco Aurélio e Montaigne. Conhecemos também a voz profética e o que Einstein chamou de seu “amor quase fanático de justiça”. Estamos muito menos familiarizados com a ideia sacerdotal de que, assim como há uma ordem científica para a natureza, existe uma ordem moral que consiste em manter separadas as coisas que estão separadas e manter os limites que respeitam a integridade do mundo criado por D-s, que sete vezes pronunciou que era bom.

A voz sacerdotal não é marginal ao judaísmo. É central, essencial. É a voz do primeiro capítulo da Torá. É a voz que definiu a vocação judaica como “um reino de sacerdotes e uma nação santa”. Ela domina Vaykrá, o livro central da Torá. E enquanto o espírito profético vive na agadá, a voz sacerdotal prevalece na halachá. E o próprio nome Torá – do verbo lehorot – é uma palavra sacerdotal.

Talvez a ideia de ecologia, uma das principais descobertas dos tempos modernos, nos permita compreender melhor a visão sacerdotal e seu código de santidade, que consideram a ética não apenas como sabedoria prática ou justiça profética, mas também como honrar a estrutura profunda – a ontologia sagrada – do ser. Um universo ordenado é um universo moral, um mundo em paz com seu Criador e consigo mesmo.

 

Texto original: “JUDAISM’S THREE VOICES” por Rabino Jonathan Sacks.
Tradução Rachel Klinger Azulay para a Sinagoga Edmond J. Safra – Ipanema

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