BALAK

Posted on julho 5, 2017

BALAK

Um Povo Que Habita Sozinho

Um dos comentários mais profundos e cruciais feitos sobre o destino do judaísmo foi feito pelo profeta pagão Bilaam na parashá desta semana:

Como os vejo do alto das montanhas,
Olho para eles das alturas,
Eis que é um povo que habita sozinho,
Não considerado entre as nações (Números 23:9).

Para muitos – judeus e não judeus, admiradores e críticos – isso pareceu simbolizar a situação judaica: um povo que fica fora da história e das leis normais que governam o destino das nações. Para os judeus foi uma fonte de orgulho. Para os não-judeus, muitas vezes foi uma fonte de ressentimento e ódio. Durante séculos, os judeus na Europa cristã foram tratados, na frase de Max Weber, como um “povo pária”. No entanto, todos concordavam que os judeus eram diferentes. A questão é: como e por quê? A resposta bíblica é surpreendente e profunda.

Não é porque somente os judeus que conheceram D-s. Isso claramente não é o caso. Bilaam – o próprio profeta que pronunciou essas palavras – não era um israelita. Nem Abimelech ou Laban, para quem D-s aparece no livro de Gênesis. O contemporâneo de Abraão, Malkitzedek, rei de Shalem (a cidade que mais tarde se tornou Jerusalém) é descrito como um sacerdote do D-s mais alto. Ytrô, o sogro de Moisés, era um sumo sacerdote midianita e, ainda assim, a parashá que contém o momento supremo da história judaica – a revelação no Monte Sinai – leva seu nome. Mesmo o faraó que governou o Egito nos dias de José disse sobre ele: “Podemos encontrar alguém assim, aquele em quem está o espírito de D-s?”

D-s não aparece apenas aos judeus, membros da nação da aliança. Nem Ele responde apenas orações judaicas. Na consagração do Templo, o Rei Salomão fez o seguinte pedido:

Quanto ao estrangeiro que não pertence ao Seu povo Israel, mas veio de uma terra distante por causa do Seu nome – pois os homens ouvirão o Seu grande nome e a Sua mão poderosa e o Seu braço estendido – quando ele vier e rezar em direção a este templo, então ouça do céu, a Sua morada, e faça qualquer coisa que o estrangeiro lhe pedir, para que todos os povos da terra possam conhecer o Seu nome e Lhe temam, como o seu próprio povo Israel, e que saibam que esta casa que eu construí carrega Seu nome.

Os sábios continuaram essa grande tradição quando disseram que “os justos das nações do mundo têm uma participação no mundo vindouro”. Yad Vashem, o museu do Holocausto em Jerusalém, contém os nomes de mais de 20 mil gentios justos que salvaram vidas durante os anos do Holocausto.

A aliança de D-s com os filhos de Israel não significa que eles são mais justos do que outros. Malachi, último dos profetas, tem palavras impressionantes para falar sobre o assunto:

De onde nasce o sol até onde se põe, Meu nome é honrado entre as nações, e em todos os lugares incenso e oferta pura são oferecidos ao Meu nome, pois Meu nome é honrado entre as nações, diz o Senhor dos exércitos. Mas você profana isso… (Malaquias 1:11-12).

Além disso, nenhuma das principais linhas do pensamento judaico jamais viu a escolha do judeu como privilégio. Era, e é, uma responsabilidade. O verso-chave aqui é a famosa profecia de Amós:

Somente você eu escolhi e apontei
Eu escolhi somente você
De todas as famílias da terra –
É por isso que Vou chama-lo para a responsabilidade
Por todas as suas iniquidades (Amos 3:2).

Onde reside a singularidade judaica? A pista está nas palavras precisas da bênção de Bilaam: “Eis que é um povo que habita sozinho”. Porque foi como um povo que D-s escolheu os descendentes de Abraão; como um povo que Ele fez uma aliança no Monte Sinai; como um povo que Ele os resgatou do Egito, deu-lhes leis e entrou em sua história. “Você será para Mim”, disse Ele no Sinai, “um reino de sacerdotes e uma nação santa”. O judaísmo é a única religião a colocar D-s no centro de sua autodeterminação como nação. Os judeus são a única nação cuja própria identidade é definida em termos religiosos.

Havia muitas nações no mundo antigo que tinham deuses nacionais. Havia outras religiões – as duas fés filhas do judaísmo, o cristianismo e o islamismo – que acreditavam em um D-s universal e uma religião universal. Somente o judaísmo acreditava, e ainda acredita, em um D-s universal acessível a todos, ainda que revelado peculiarmente no modo de vida, destino de um povo único e singular:

Vocês são minhas testemunhas, declara o Senhor, e meus servos, a quem escolhi…
Vocês são minhas testemunhas, declara o Senhor, que Eu sou D-s (Isaías 43:10-12).

Israel, em sua história e leis, seria a testemunha de D-s. Atestaria algo maior do que si mesmo. Então provou ser. A historiadora Barbara Tuchman escreveu:

A história dos judeus é… intensamente peculiar pelo fato de ter dado ao mundo ocidental seu conceito de origens e monoteísmo, suas tradições éticas, e o fundador da sua religião atual; ainda que sofrendo dispersão, falta de pátria e perseguição incessante e, finalmente, nos nossos tempos, quase genocídio bem-sucedido, seguiu dramaticamente para cumprir o sonho nunca renunciado de retornar à sua terra natal. Ao ver essa história estranha e singular, não se pode escapar à impressão de que deve conter algum significado especial para a história da humanidade, que, de alguma forma, acreditando em propósito divino ou circunstância inescrutável, os judeus foram escolhidos para carregar a história do destino humano.

Por que, se D-s é o D-s do universo, acessível a todo ser humano, deveria Ele escolher uma nação para testemunhar a presença Dele na arena humana? Essa é uma pergunta profunda. Não há resposta curta. Mas, pelo menos parte da resposta, eu acredito, é essa. D-s é inteiramente Outro. Portanto, ele escolheu um povo que seria o “outro” da humanidade. Isso é o que os judeus eram – estrangeiros, diferentes, distintivos, um povo que nadou contra a maré e desafiou os ídolos da época. O judaísmo é a contra-voz na conversa da humanidade.

Durante dois mil anos de dispersão, os judeus foram o único povo que, como grupo, recusaram-se a se assimilar à cultura dominante ou se converter à fé dominante. Como resultado, eles sofreram – mas o que eles ensinaram não foi somente para eles. Eles mostraram que uma nação não precisa ser poderosa ou grande para ganhar o favor de D-s. Eles mostraram que uma nação pode perder tudo – terra, poder, direitos, uma casa – e ainda assim não perder a esperança. Eles mostraram que D-s não está necessariamente do lado de grandes impérios ou grandes batalhões. Eles mostraram que uma nação pode ser odiada, perseguida, insultada, e ainda assim ser amada por D-s. Eles mostraram que para toda lei da história existe uma exceção e o que a maioria acredita em algum momento específico não é necessariamente verdade. O judaísmo é o ponto de interrogação de D-s contra a sabedoria convencional da época.

Não é um destino fácil nem confortável ser “um povo que habita sozinho”, mas é um destino desafiador e inspirador.

 

Texto original: “A PEOPLE THAT DWELLS ALONE” por Rabino Jonathan Sacks
Tradução Rachel Klinger Azulay para a Sinagoga Edmond J. Safra – Ipanema

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