BALAK

Posted on junho 26, 2018

BALAK

Um Povo Que Habita Sozinho

Este é um momento extraordinário na história judaica, por boas e não tão boas razões. Pela primeira vez em quase 4.000 anos temos simultaneamente soberania e independência na terra e no Estado de Israel, e liberdade e igualdade na Diáspora. Houve tempos – todos muito breves – quando os judeus tinham um ou outro, mas nunca antes, ambos ao mesmo tempo. Essa é a boa notícia. A notícia menos boa, porém, é que o antissemitismo retornou à memória viva do Holocausto. O Estado de Israel permanece isolado na arena política internacional. Ainda está cercado por inimigos. E é a única nação entre as 193 que compõem as Nações Unidas cujo direito de existir é constantemente desafiado e sempre sob ameaça.

Dado tudo isso, parece ser o momento certo para reexaminar as palavras que aparecem na parashá desta semana, proferidas pelo profeta pagão Bilam, que chegam a parecer para muitos, o mais poderoso resumo da história e do destino judaicos:

Dos picos das rochas eu os vejo
das alturas eu olho para eles.
Este é um povo que mora sozinho
não se consideram uma das nações.” (Num 23: 9)

Para dois importantes diplomatas israelenses no século XX – Yaacov Herzog e Naftali Lau-Lavie – este versículo resumia seu senso de povo judeu após o Holocausto e o estabelecimento do Estado de Israel. Herzog, filho de um Rabino Chefe de Israel e irmão de Chaim que se tornou presidente de Israel, foi Diretor-Geral do Gabinete do Primeiro Ministro de 1965 até sua morte em 1972. Naphtali Lavie, um sobrevivente de Auschwitz que se tornou Cônsul Geral de Israel em Nova York, viveu para ver seu irmão, o rabino Yisrael Meir Lau, tornar-se rabino-chefe de Israel. Os ensaios coletados de Herzog foram publicados sob o título, retirados das palavras de Bilam, A People that Dwells Alone. Os de Lavie eram intitulados Profecia de Bilam – novamente uma referência a este verso.(1)

Para ambos, o versículo expressa a singularidade do povo judeu – seu isolamento, por um lado, seu desafio e resiliência, por outro. Embora tenha enfrentado oposição e perseguição de algumas das maiores superpotências que o mundo já conheceu, sobreviveu a todas elas.

Dado, porém, o retorno do antissemitismo, vale a pena refletir sobre uma interpretação particular do verso, dada pelo decano de Volozhyn Yeshiva, R. Naftali Zvi Yehudah Berlim (Netziv, Rússia, 1816-1893). Netziv interpretou o verso da seguinte forma: para todas as outras nações, quando seu povo foi para o exílio e assimilou-se à cultura dominante, eles encontraram aceitação e respeito. Com os judeus, o caso foi o oposto. No exílio, quando permaneceram fiéis à sua fé e modo de vida, encontraram-se capazes de viver em paz com seus vizinhos gentios. Quando tentaram assimilar-se, viram-se desprezados e insultados.

A frase, diz Netziv, deve, portanto, ser lida da seguinte forma: “Se um povo está contente por estar só, fiel à sua identidade distinta, então poderá habitar em paz. Mas se os judeus procuram ser como as nações, as nações não os considerarão dignos de respeito.” (2)

Esta é uma afirmação altamente significativa, dado o tempo e o lugar em que foi feita, nomeadamente a Rússia no último quarto do século XIX. Naquela época, muitos judeus russos haviam se assimilado, alguns se convertendo ao cristianismo. Mas o antissemitismo não diminuiu. Cresceu, explodindo em violência nos pogroms que aconteceram em mais de cem cidades em 1881. Estes foram seguidos pelas notórias Leis Anti-Semíticas de Maio de 1882. Percebendo que estavam em perigo se ficassem, entre 3 e 5 milhões de judeus fugiram para o oeste.

Foi nessa época que Leon Pinsker, um médico judeu que acreditava que a disseminação do humanismo e da iluminação poria fim ao antissemitismo, experimentou uma grande mudança de opinião e escreveu um dos primeiros textos do sionismo secular, Auto-Emancipação (1882). Em palavras surpreendentemente semelhantes às de Netziv, ele disse: “Ao procurar se fundir com outros povos [os judeus] deliberadamente renunciaram em certa medida à sua própria nacionalidade. No entanto, em nenhum lugar eles conseguiram obter do reconhecimento de seus compatriotas como nativos de status igual”. Eles tentaram ser como todos os demais.  Algo semelhante aconteceu na Europa Ocidental também. Longe de acabar com a hostilidade aos judeus, o Iluminismo e a Emancipação simplesmente fizeram com que ele sofresse mutação, da judeofobia religiosa ao antissemitismo racial. Ninguém falou disso com mais pungência do que Theodore Herzl em The Jewish State (1896).

Temos honestamente nos esforçado em todos os lugares para nos fundirmos na vida social das comunidades vizinhas e para preservar a fé de nossos pais. Nós não estamos autorizados a fazê-lo. Em vão somos patriotas leais, nossa lealdade em alguns lugares correndo aos extremos; em vão fazemos os mesmos sacrifícios de vida e propriedade que nossos concidadãos; em vão nos esforçamos para aumentar a fama de nossa terra natal na ciência e arte, ou sua riqueza pelo comércio e vendas. Nos países em que vivemos há séculos, ainda somos considerados como estranhos… Se pudéssemos ficar em paz… Mas acho que não seremos deixados em paz.

Quanto mais conseguíamos ser como todos os outros, dava a entender Herzl, éramos menos apreciados por todos os outros. Conscientemente ou não, essas vozes do século XIX estavam ecoando um sentimento articulado pela primeira vez há 26 séculos pelo profeta Ezequiel, falando em de nome D-s aos pretensos assimilacionistas entre os exilados judeus na Babilônia.

Você diz: “Queremos ser como as nações, como os povos do mundo, que servem madeira e pedra”. Mas o que você tem em mente nunca acontecerá. (Ez 20:32)

O antissemitismo é um dos fenômenos mais complexos da história do ódio, e não é minha intenção simplificá-lo aqui. Mas há algo de significância duradoura nessa convergência de pontos de vista entre Netziv, um dos maiores eruditos rabínicos de sua época, e os dois grandes sionistas seculares, Pinsker e Herzl, embora divergissem em muitas outras coisas. A assimilação não é cura para o antissemitismo. Se as pessoas não gostarem de você pelo que você é, elas não vão gostar mais de você por fingir ser o que você não é.

Os judeus não podem curar o antissemitismo. Somente os antissemitas podem fazer isso, junto com a sociedade a que pertencem. A razão é que os judeus não são a causa do antissemitismo. Eles são os objetos disso, mas isso é algo diferente. A causa do antissemitismo é um profundo mal-estar nas culturas em que aparece. Acontece sempre que uma sociedade sente que algo está mal, quando existe uma profunda dissonância cognitiva entre o modo como as coisas são e o modo como as pessoas pensam que deveriam ser. As pessoas são então confrontadas com duas possibilidades. Eles podem perguntar: “O que fizemos de errado?” e começar a corrigir, ou podem perguntar “Quem fez isso conosco?” e procurar um bode expiatório.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                         Século após século, os judeus se tornaram o bode expiatório de eventos que não tinham nada a ver com eles, desde pragas medievais a poços envenenados até tensões internas no cristianismo, até a derrota da Alemanha na Primeira Guerra Mundial e a queda de muitos Estados muçulmanos hoje. O antissemitismo é uma doença e não pode ser curado pelos judeus. Também é mal, e aqueles que o toleram quando poderiam protestar são cúmplices do mal.

Não temos nada para nos desculpar por insistirmos em ser diferentes. O judaísmo começou como um protesto contra os impérios, simbolizado por Babel em Gênesis e pelo antigo Egito em Êxodo. Estes foram os primeiros grandes impérios, e eles alcançaram a liberdade dos poucos ao custo da escravização de muitos.

Os judeus sempre foram a irritação dos impérios por causa de nossa insistência na dignidade do indivíduo e em sua liberdade. O antissemitismo é o último suspiro de uma cultura em declínio ou o primeiro sinal de alerta de um novo totalitarismo. D-s ordenou que nossos antepassados fossem diferentes, não porque fossem melhores do que outros – “Não é por causa de sua justiça que o Senhor seu D-s está dando a você esta boa terra” (Deuteronômio 9: 6) – mas porque sendo diferente nós ensinamos ao mundo a dignidade da diferença. Impérios procuram impor a unidade em um mundo plural. Os judeus sabem que a unidade existe no céu; D-s cria diversidade na terra.

Existe uma diferença fundamental entre o antissemitismo atual e seus precursores no passado. Hoje nós temos um Estado de Israel. Nós não precisamos temer que judeus descobertos após a Conferência de Evian, em 1938, quando as nações do mundo fecharam suas portas e os judeus sabiam que não tinham sequer uma polegada quadrada na terra, que eles poderiam chamar de casa no sentido de Robert Frost, o lugar onde “quando você for, eles têm que deixá-lo entrar.” Hoje temos uma casa – e cada ataque à judeus e Israel hoje serve para fazer os judeus e Israel mais forte. É por isso que o antissemitismo não é apenas mal, mas também autodestrutivo. Ódio destrói o inimigo. Nada nunca foi conseguido tornando os judeus, ou qualquer outra pessoa, o bode expiatório por seus pecados.

Nada disso é para diminuir a seriedade com que devemos nos unir aos outros para combater o antissemitismo e todos os outros ódios religiosos ou raciais. Mas deixe as palavras do Netziv ficarem conosco. Nós nunca devemos abandonar nossa distinção. É o que nos faz quem somos. Tampouco há contradição entre isso e o universalismo dos profetas. Ao contrário – e esta é a ideia da mudança de vida: em nossa singularidade reside nossa universalidade. Por sermos o que somente nós somos, contribuímos para a humanidade com somente nós podemos dar.

Shabat shalom

 

NOTAS
(1) Yaacov Herzog, A People that Dwells Alone, Weidenfeld and Nicolson, 1975. Naphtali Lau-Lavie, Balaam’s Prophecy, Cornwall Books, 1998. Na introdução, Amichai Yehuda Lau-Lavie cita esse versiculo. Em hebraico, contudo, o trabalho se entitula  Am ke-Lavie, em referencia às ultimas palavras de Balaam, “O povo se ergue como um leãoeles se erguem como um jovem leão”(Num. 23:24) – uma peça sobre o nome hebraico Lavie, que significa “leão”.
(2) Ha-amek Davar to Num. 23:9.
(3) Robert Frost Robert ‘The Death of the Hired Man.’ www.poetryfoundation.org/poems/44261/the-death-of-the-hired-man

 

Texto original “A People that Dwells Alone” por Rabbi Jonathan Sacks
Tradução Rachel Klinger Azulay

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