BERESHIT

Posted on outubro 27, 2016

BERESHIT

A Fé de D-s

Uma parceria da Sinagoga Edmond J. Safra – Ipanema com o escritório do Rabino Jonathan Sacks (The Office of Rabbi Sacks)

Há uma questão profunda no coração da fé judaica, e é muito raramente questionada. No início da Torá vemos D-s criando o universo dia a dia, trazendo ordem a partir do caos, a vida da matéria inanimada, flora e fauna em toda a sua diversidade admirável. Em cada etapa D-s vê o que Ele fez e declara que é bom.

Então, o que então deu errado? Como é que o mal entra em cena, colocando em movimento o drama em que a Torá – em certo sentido, toda a história – é um relato? A resposta curta é o homem, o Homo sapiens, nós. Apenas nós, das formas de vida até agora conhecidas, temos o livre arbítrio, a escolha e a responsabilidade moral. Os gatos não debatem a ética de matar ratos. Os morcegos vampiros não se tornam vegetarianos. As vacas não se preocupam com o aquecimento global.

É esta capacidade complexa de falar, pensar e escolher entre cursos alternativos de ação, que são ao mesmo tempo a nossa glória, o nosso fardo e nossa vergonha. Quando fazemos o bem somos pouco menores que anjos. Quando fazemos mal caímos mais baixo do que as bestas. Por que então D-s correu o risco de criar uma forma de vida capaz de destruir a própria ordem que Ele havia feito e declarou ser bom? Por que D-s nos criou?

Essa é a pergunta colocada pela Guemará em Sanhedrin:

Quando o Santo, bendito seja Ele, veio a criar o homem, Ele criou um grupo de anjos ministros e perguntou-lhes: “Vocês concordam que devemos fazer o homem à nossa imagem?”
Eles responderam: “Soberano do Universo, quais serão suas obras?”
D-s mostrou-lhes a história da humanidade.
Os anjos responderam: “O que é o homem para que te lembres dele?” [Que o homem não seja criado].
D-s destruiu os anjos.
Ele criou um segundo grupo, e fez-lhes a mesma pergunta, e eles deram a mesma resposta.
D-s os destruiu.
Ele criou um terceiro grupo de anjos, e eles responderam: “Soberano do Universo, o primeiro e o segundo grupo de anjos Lhe disseram para não criar o homem, e não serviu para eles. Você não os ouviu. O que podemos dizer, senão isto: O universo é seu. Faça com ele o que quiser”.
E D-s criou o homem.
Mas quando foi o tempo da geração do dilúvio e, em seguida, da geração daqueles que construíram a Torre de Babel, os anjos disseram a D-s, “os primeiros anjos não estavam certos? Veja quão grande é a corrupção da humanidade”.
E D-s respondeu (Isaías 46:4), “Mesmo chegando a velhice Eu não vou mudar, e até mesmo com os cabelos grisalhos, ainda Vou ser paciente” [Talmud Babilônico, Sanhedrin 38b].

Tecnicamente, a Guemará está trazendo um desafio de estilo no texto. Para todos os outros atos da criação em Gênesis 1 a Torá nos diz: “D-s disse, ‘Faça-se a’ … E foi feito…”. Somente no caso da criação da humanidade há um prefácio, um prelúdio. Então D-s disse: “Façamos o homem à nossa imagem, à nossa semelhança…” Quem é o “nós”? E por que o preâmbulo?

Em sua maneira aparentemente inocente e infantil, na verdade sutil e profunda – os sábios responderam ambas as perguntas dizendo que (para citar Hamlet), para um empreendimento dessa dimensão, D-s consultou os anjos. Eles eram o “nós”.

Mas agora a questão torna-se realmente muito profunda. Pois, na criação dos seres humanos, D-s trouxe à existência uma forma única de vida, com exceção Dele próprio, com capacidade para a liberdade e a escolha. Isso é o que a frase significa quando diz: “Façamos o homem à nossa imagem, à nossa semelhança”. O fato relevante é que D-s não tem nenhuma imagem. Fazer uma imagem de D-s é o arquetípico de idolatria.

Isso significa não apenas o fato óbvio de que D-s é invisível. Ele não pode ser visto. Ele não poderia ser identificado com qualquer coisa na natureza: não o sol, a lua, o trovão, o relâmpago, o oceano ou qualquer um dos outros objetos ou forças que as pessoas adoravam naqueles dias. Nesse sentido superficial, D-s não tem nenhuma imagem. Isso, escreveu Sigmund Freud em seu último livro, Moisés e o monoteísmo, foram a maior contribuição do judaísmo. Ao adorar um D-s invisível, os judeus inclinaram a balança da civilização do físico para o espiritual.

Mas a ideia de que D-s não tem nenhuma imagem é muito mais profunda do que isso. Isso significa que não podemos conceituar D-s, entendê-Lo ou prevê-Lo. D-s não é uma essência abstrata; Ele é uma presença viva. Esse é o significado da própria auto definição de D-s a Moisés na sarça ardente: “Eu serei o que Eu serei” – ou seja, “Eu vou ser o que eu escolher para ser”. Eu sou o D-s da liberdade, que dotou a humanidade com liberdade, e eu estou a ponto de levar os filhos de Israel da escravidão para a liberdade.

Quando D-s fez a humanidade à Sua imagem, isso significa que Ele deu aos seres humanos a liberdade de escolher, de modo que você nunca pode prever totalmente o que eles vão fazer. Eles também – dentro dos limites da nossa finitude e mortalidade – serão o que eles escolhem ser. O que significa que quando D-s deu ao homem a liberdade de agir para o bem, deu-lhes a liberdade de agir mal. Não há nenhuma maneira de evitar esse dilema mesmo para o próprio D-s. E assim foi. Adão e Eva pecaram. A primeira criança humana, Caim, assassinou a segunda, Abel, e dentro de um curto espaço de tempo o mundo estava cheio de violência.

Em uma das passagens mais ardentes em todo o Tanach, lemos no final do parashá desta semana:

D-s viu que a maldade do homem na terra foi aumentando. Cada impulso de seu pensamento mais íntimo era apenas para o mal, o dia todo. D-s se arrependeu de ter feito o homem na terra, e Ele sofreu até a Sua essência (Gênesis 6:5-6).

Daí a pergunta dos anjos, a questão fundamental no cerne da fé. Por que D-s, conhecendo os riscos e perigos, fez uma espécie que podia se rebelar contra Ele, devastar tanto o meio ambiente natural quanto as espécies de caça em extinção, e oprimir e matar seu semelhante?

O Talmud, imaginando uma conversa entre D-s e os anjos, está sugerindo uma tensão dentro da mente do próprio D-s. A resposta que D-s dá aos anjos é extraordinária: “Mesmo até a velhice não Vou mudar, e até mesmo com cabelos grisalhos Eu ainda vou ser paciente”. Significando: Eu, D-s, estou preparado para esperar. Se demorar dez gerações para emergir um Noé e outras dez para um Abraão, vou ser paciente. Embora muitas vezes os seres humanos me decepcionem, eu não vou mudar. Por mais mal que façam no mundo Eu não Vou desesperar. Eu desesperei uma vez, e trouxe uma inundação. Mas depois que vi que os seres humanos são meramente humanos, eu não trarei um dilúvio novamente.

D-s criou a humanidade porque D-s tem fé na humanidade. Muito mais do que a fé que nós temos em D-s, D-s tem fé em nós. Podemos falhar muitas vezes, mas cada vez que falhamos, D-s diz: “Mesmo até a velhice não Vou mudar, e até mesmo com cabelos grisalhos Eu ainda Vou ser paciente”. Eu nunca Vou desistir da humanidade. Eu nunca Vou perder a fé. Vou esperar por tanto tempo quanto for preciso para o ser humano aprender a não oprimir, escravizar ou usar a violência contra outros seres humanos. Isso, diz o Talmud, é a única explicação concebível para um D-s bom, sábio, todo poderoso e que tudo vê, criar tais criaturas falíveis e destrutivas como nós. D-s tem paciência. D-s tem perdão. D-s tem compaixão. D-s tem amor.

Durante séculos, os teólogos e filósofos têm observado a religião de cima para baixo. O verdadeiro fenômeno em seu cerne – o mistério e milagre – não é a nossa fé em D-s. É a fé de D-s em nós.

 

Texto original: “THE FAITH OF GOD” por Rabino Jonathan Sacks.
Tradução Rachel Klinger Azulay

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