CHOL HAMOED SUCOT

Posted on outubro 2, 2017

CHOL HAMOED SUCOT

Ideias Que Mudam a Vida

O que é judaísmo? Uma religião? Uma fé? Um modo de vida? Um conjunto de crenças? Uma coleção de mandamentos? Uma cultura? Uma civilização? É tudo isso, mas é enfaticamente algo mais. É uma forma de pensar, uma constelação de ideias: um jeito de entender o mundo e nosso lugar nele. O judaísmo contém ideias que mudam a vida. É sobre isso que eu quero tratar nos textos que virão em 5778.

Poucas pessoas pensam em fé nesses termos. Sabemos que a Torá contém mandamentos, 613 deles. Sabemos que o judaísmo tem crenças. Maimônides as organizou em 13 princípios da fé judaica. Mas isso não é tudo o que é o judaísmo, nem é o que mais o distingue.

O judaísmo foi e continua sendo um modo impressionantemente original de pensar sobre a vida. Pegue um de meus exemplos preferidos: a declaração Americana de independência (1776), e sua frase mais importante: “Nós sustentamos essas verdades como sendo auto evidentes, que todos os homens foram criados iguais, e que foram dotados pelo seu Criador com certos direitos inalienáveis, entre eles vida, liberdade e a busca pela felicidade”. Pode-se afirmar que esta é a frase mais importante na história da política moderna. Foi ao que Abraham Lincoln se referiu na abertura de seu discurso de Gettysburg quando disse: “Há 87 anos atrás nossos antepassados criaram neste continente uma nova nação, concebida na liberdade e dedicada no propósito de que todos os homens foram criados iguais”.

A ironia dessa frase, como tenho frequentemente destacado, é que “essas verdades” estão longe de ser “auto evidentes”. Elas teriam soado absurdas para Platão e Aristóteles, ambos os quais acreditavam que nem todos os homens são criados iguais e portanto não têm direitos iguais. Elas somente foram auto evidentes para alguém criado em uma cultura que tenha internalizado profundamente a bíblia hebraica e a ideia revolucionaria estabelecida em seu primeiro capitulo, que somos cada um de nós, independentemente da cor, cultura, classe ou credo, uma imagem e semelhança de D-s. Essa foi uma das ideias transformadoras do judaísmo em âmbito mundial.

Também vemos desse exemplo que você pode ter uma ideia, formula-la em palavras, e declara-la para o mundo, mas você ainda pode ter dificuldades em internalize-la e você pode ter que lutar para transforma-la em realidade. Thomas Jefferson, que desenhou a declaração de independência, era um dono de escravos. Evidentemente ele não incluiu negros ou escravos na sua frase “todos os homens”. 87 anos depois, quando Lincoln fez seu discurso de Gettysburg, a América estava lutando uma guerra civil justamente esse tema.

Não importa quanto tempo leve, ainda assim, ideias mudam o mundo. Alguns fazem isso trazendo invenções. Pense em algumas das grandes ideias dos últimos tempos: o computador, a internet, ferramentas de busca, softwares de redes sociais e smartphones. Todos eles tiveram que ser pensados antes que pudessem ser feitos. Como dizemos (quando falamos sobre Shabat e criação): sof maasê, bemachshavá techilá, que significa aproximadamente, primeiro você precisa ter o pensamento; apenas depois você pode fazer a ação que transforma a ideia em realidade. O próprio Shabat, incidentalmente, é outra ideia transformadora do judaísmo em âmbito mundial.

Mas as vezes as ideias mudam o mundo porque elas nos mudam. São essas ideias que eu quero explorar neste ano, através da parashá da semana.

Ideias que mudaram a minha vida

Minha própria vida tem mudado pelas ideias, nem sempre exclusivamente as judaicas, ideias em geral. Seguem três exemplos.

Há mais de vinte anos atrás eu comecei uma organização, Continuidade Judaica, cujo objetivo era transformar a comunidade Judaica ao intensificar a educação em todos os níveis e idades. Teve sucesso, mas provou-se ser intensamente controversa. O administrador da organização, Dr. Michael Sinclair, era um homem extraordinário que verteu seu dinheiro, energia e tempo para o projeto, e estava sempre pensando fora da caixa. No auge da controvérsia, eu o convidei para se encontrar com rabinos de nossa comunidade para que eles pudessem expressar suas preocupações. A reunião não foi boa. Os rabinos foram muito sinceros, mas durante toda a reunião, Dr. Sinclair permaneceu beatificamente calmo. Quando a sessão acabou eu andei com ele até seu carro, e me desculpei pelo modo como ele foi tratado. Ele sorriu para mim, me disse para não ficar preocupado, e disse, “essa foi uma experiência de formação de caráter”.

Para mim, naquele momento, o impacto da sua resposta foi eletrificante, e mudou a minha vida. Ali estava um homem que voluntariamente deu tanto para a nossa comunidade, e tudo que recebeu em retorno foram críticas. Lembrou-me da famosa observação, “nenhuma boa ação fica impune”. Ao longo de tudo isso, ainda assim, ele permaneceu sereno porque ele pôde dar um passo atrás do imediatismo do momento, reemoldurou-o como uma experiência difícil que ele deveria passar para alcançar seu objetivo, e que ao final o faria mais forte. Desde então, sempre que eu enfrentei uma controvérsia ou uma crise, eu disse para mim mesmo, “essa foi uma experiência formadora de caráter”. E porque eu pensei assim, assim foi.

O Segundo exemplo: como muitas pessoas hoje em dia, eu tenho problemas para dormir. Eu sofro de insônia. Uma vez eu mencionei isso para meu professor, Rabi Nachum Rabinovitch. Sua resposta imediata foi: você poderia me ensinar a ter insônia? Ele adoraria, disse-me ele, conseguir não dormir, e citou para mim o dito rabínico, “o luar foi feito somente para o estudo” (Eruvin 65a). O que eu vi foi uma aflição, ele viu uma oportunidade. Ao dormir menos, eu poderia estudar mais. Isso não me fez parar de sofrer da falta de sono (ainda que tenha me ajudado a conectar-me melhor com a frase dos salmos, “o guardião de Israel não descansa nem dorme”), mas me permitiu reemoldurá-lo. Eu consegui usar melhor as horas sem sono.

Para mim, a maior transformação pessoal de todas as crenças tem sido a ideia de hashgachá peratit, Divida providencia. Sempre que alguma coisa inesperada aconteceu na minha vida, eu sempre perguntei, “o que o céu está tentando me dizer? Como quer que eu responda? Considerando que isso aconteceu, como poderei transformar este momento em uma benção?” Eu aprendi isso dos meus antigos encontros com o Chabad e com o Lubavitcher Rebe. Eu aprendi isso uma segunda vez, de um ponto de partida diferente, através do meu estudo do trabalho de Viktor Frankl, o homem que sobreviveu Auschwitz e transformou suas experiências lá em uma nova forma de psicoterapia baseada no que ele chamou de “a busca do homem pelo significado”. Sua visão é que não devemos perguntar nunca, “o que eu quero da vida?”, mas sempre, “o que a vida quer de mim?” Foi com surpresa e deleite que descobri que o próprio Rebe era um admirador do trabalho de Viktor Frankl. O resultado dessa forte crença na providencia, ou como as vezes coloco, vivendo-como-escutando, tem sido transbordar minha vida como significado. Para mim, nada acontece por acaso. Sempre vem com um chamado a ser respondido de um jeito particular.

Ideias mudam vidas.

Ideias judaicas

Os judeus contribuíram para o mundo algumas das suas ideias mais transformadoras. Vale a pena escutar o testemunho de escritores não-judeus sobre esse assunto. Segue, por exemplo, o historiador católico Paul Johnson: “aos judeus devemos a ideia de equidade ante a lei, ambas divina e humana; da santidade da vida e a dignidade da pessoa humana; da consciência individual e também da redenção pessoal; da consciência coletiva e também da responsabilidade social; da paz como um ideal abstrato e do amor como a fonte da justiça, e muitos outros itens que constituem o mobiliário moral básico da mente humana”.

Um outro historiador católico, Thomas Cahill, escreveu isto: “os judeus nos deram o Externo e o Interno – nossa perspectiva e nossa vida interior. Nós dificilmente podemos levantar de manhã e atravessar a rua sem ser judeus. Nós sonhamos sonhos judaicos e temos esperanças nas esperanças judaicas. A maioria de nossas melhores palavras, na verdade – novo, Aventura, surpresa; único, individual, pessoa, vocação, tempo, história, futuro, liberdade, progresso, espirito; fé, esperança, justiça – são presentes dos judeus”.

O falecido William Rees-Mogg, também católico, escreveu uma vez que “um dos presentes da cultura Judaica para o cristianismo é que ensinou aos cristãos a pensarem como judeus”, adicionando, “qualquer homem moderno que não tenha aprendido a pensar como se fosse um judeu dificilmente pode dizer que ele aprendeu a pensar qualquer coisa”.

De longe o julgamento mais fascinante, no entanto, vem de um dos críticos mais afiados do judaísmo, Friedrich Nietzsche:

Considere os acadêmicos judeus nessa perspectiva: todos eles tem uma alta apreciação pela lógica, que é para persuadir acordo pela força das razões; eles sabem que com isso eles estão destinados a vencer, mesmo onde eles encontram preconceitos raciais e de classe… incidentalmente, a Europa deve grande gratidão aos judeus por fazer as pessoas pensar de forma mais logica e por estabelecer hábitos intelectuais mais limpos – ninguém mais dos que os alemães, que são lamentavelmente uma raça sem razão que até hoje ainda precisam ter primeiro suas “cabeças lavadas”. Onde quer que os judeus tenham ganho influencia, eles ensinaram os homens a fazer as finas distinções, inferências mais rigorosas, e a escrever de uma forma mais iluminada e limpa; o trabalho deles sempre foi o de trazer um povo “para escutar a razão” [1].

Esse é um tributo notável de quem na política britânica eles chamam de “líder da oposição”.

Alguém poderia pensar que as ideias introduzidas pelo judaísmo no mundo viraram parte da herança intelectual comum da humanidade, ao menos do ocidente, e que elas estão agora, como Jefferson disse, “auto evidente”. Porém, esse não é o caso. Algumas delas se perderam ao longo do tempo; outras o ocidente nunca entendeu em sua plenitude. Isso é o que eu espero explorar nos estudos deste ano, por duas razões.

A primeira foi sugerida pelo próprio Nietzsche. Ele quis que o ocidente abandonasse a ética judaico-cristã em favor do que ele chamou de “o desejo do poder”. Esse foi um erro desastroso. Não há nada de original no desejo de poder. Existiu desde os dias Caim, e seu preço é matança eterna. Mas Nietzsche está certo sobre uma coisa: a grande alternativa é o judaísmo. A escolha que a humanidade se depara em cada época é entre a ideia de poder e o poder das ideias. O judaísmo sempre acreditou no poder das ideias, e isso continua sendo a única forma não-violenta de mudar o mundo.

A segunda não é nem política nem filosófica, mas pessoal. Algumas ideias realmente mudam a vida. Toda semana eu vou tentar introduzir para você uma dessas ideias através da parashá. Se mudarmos a forma como pensamos, podemos mudar a forma como sentimos, que muda a forma como agimos, que muda a pessoa que nos tornamos. Ideias mudam vidas, e grandes ideias nos ajudam a ter coragem, a ter felicidade e a ter vidas cheias de bênçãos.

NOTA:
[1] Friedrich Nietzsche, A Ciência Brilhante, traduzida para o inglês com comentários por Walter Kaufmann, New York, Vintage, 1974, 291.

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