LECH LECHÁ

Posted on outubro 25, 2017

LECH LECHÁ

Orientação Interna

Seria o caráter estritamente pessoal – você é ou não é calmo, corajoso, carismático – ou a cultura desempenha alguma influência? O lugar e a época que você vive faz alguma diferença para o tipo de pessoa que você se torna?

Essa foi a pergunta colocada por três grandes sociólogos americanos-judeus, David Riesman, Nathan Glazer e Reuel Denney, em seu clássico de 1950, The Lonely Crowd. O argumento deles era que tipos particulares de circunstâncias históricas dão origem a tipos particulares de pessoas. Faz diferença, eles disseram, se você viveu em uma sociedade com alta taxa de nascimento – e falecimento – onde as famílias tinham muitas crianças, mas a expectativa de vida era curta – ou em uma começando a crescer, ou em uma nos estágios iniciais de declínio. Cada uma deu origem a seu próprio tipo de personagem: não que todos fossem iguais, mas você poderia discernir certos traços na população e na cultura como um todo.

As sociedades de alto índice de natalidade e morte, como as sociedades não industrializadas ou a Europa na Idade Média, tendem a dar origem a pessoas orientadas pela tradição: as pessoas que fazem o que fazem porque é assim que as coisas sempre foram feitas. Nessas sociedades – muitas vezes altamente hierárquicas – a principal luta é permanecer vivo. A ordem é preservada ao se assegurar que as pessoas sigam rigidamente regras e papéis. Fracassar nisso gera vergonha.

As sociedades começando seu crescimento – aquelas em transição, como a Europa durante o Renascimento e a Reforma – produzem tipos orientados pelo interior. A cultura está em estado de mudança. Há grande mobilidade pessoal. Existe um clima de invenção e exploração. Isso significa que as pessoas devem se adaptar constantemente a novos desafios sem perder o senso de para onde estão indo e por quê, o que significa enfrentar o futuro, mantendo a fé com o passado. Tais sociedades prestam grande atenção à educação. Os jovens internalizam os valores do grupo, que permanecem com eles ao longo da vida como forma de direcionar as mudanças sem desorientação ou deslocamento. Eles carregam seu mundo interior com eles no que quer que façam e para onde quer que eles estejam indo. O fracasso em tais sociedades é definido não pela vergonha, mas pela culpa.

Finalmente vêm as sociedades que já alcançaram o crescimento máximo e estão à beira do declínio. A expectativa de vida aumentou. A taxa de natalidade é reduzida. Há prosperidade. Grande parte do peso assistencial foi assumido por agências centralizadas. Há menos necessidade para os tipos focados, com resiliência, orientados pelo seu interior, das sociedades em início de crescimento. O clima não é mais de escassez, mas de abundância. O principal problema não é lidar com o ambiente material; é interagir e ganhar a aprovação de outros. E é quando o terceiro tipo de personagem emerge: o indivíduo orientado por outros. Tais pessoas são mais influenciadas por outros em sua faixa etária, e pela mídia, do que por seus pais. Sua fonte de direção na vida não é nem a tradição nem a consciência interiorizada, mas sim a cultura contemporânea. As pessoas orientadas pelos outros não procuram tanto ser respeitadas, mas ser amadas. Quando fracassam, elas não sentem vergonha ou culpa, mas ansiedade.

Já em 1950, Riesman e seus colegas acreditavam que esse novo e terceiro tipo de personagem estava surgindo na América daquela época. Atualmente, graças à disseminação das mídias sociais e ao colapso das estruturas de autoridade, o processo foi muito mais longe e agora se espalhou por todo o Ocidente. Estamos na idade do perfil do Facebook, o símbolo vívido da orientação pelos outros.

Se isso vai ser ou não sustentável é uma questão aberta. Mas esse estudo perspicaz nos ajuda a entender o que está em jogo na abertura de nossa parashá, as palavras que trouxeram o povo judeu à existência:

O Senhor disse a Abrão: “Saia da sua terra, do seu lugar de nascimento e da casa do seu pai, para a terra que eu lhe mostrarei” (Gen. 12:1).

Abraão foi comandado a deixar para trás as origens tanto da orientação pela tradição (“casa do seu pai”) quanto da orientação pelos outros (“sua terra, seu local de nascimento”). Ele estava prestes a se tornar o pai das pessoas orientadas pelo seu interior.

Sua vida inteira foi governada por uma voz interior, a voz de D-s. Ele não se comportava do seu jeito porque era assim que as pessoas sempre faziam, nem se adaptou aos costumes de sua época. Ele teve a coragem de “estar de um lado, enquanto todo o resto do mundo estava do outro” (1). Sua missão, como lemos na parashá da próxima semana, era “instruir seus filhos e seus descendentes a manter o caminho do Senhor, fazendo o que é certo e justo” (Gen. 18:19), para que eles também carregassem com eles a voz interior para onde quer que fossem. Sua moralidade era baseada em retidão-e-culpa, não honra-e-vergonha ou conformismo-e-ansiedade. Daí a centralidade da educação no judaísmo, uma vez que os judeus teriam que se manter firmes aos seus valores, mesmo quando eram uma minoria em uma cultura cujos valores eram diametralmente opostos aos seus.

Daí a surpreendente resiliência dos judeus ao longo dos tempos, e sua capacidade de sobreviver a mudanças, insegurança, até catástrofe. Pessoas cujos valores são indelevelmente gravados em suas mentes e almas podem permanecer firmes contra a maioria e persistirem em sua identidade, mesmo quando outros estão perdendo a deles. Foi essa voz interna que guiou os patriarcas e as matriarcas ao longo do livro de Gênesis – muito antes de se tornarem uma nação por direito próprio, e antes dos milagres mais públicos do livro de Êxodo.

A identidade judaica é essa voz interior, aprendida na infância, reforçada pelo estudo ao longo da vida, ensaiada diariamente no ritual e na oração. É isso que nos dá uma direção na vida. Nos dá a confiança de saber que o judaísmo, praticamente sozinho entre as culturas e as civilizações de seu tempo, sobreviveu enquanto o resto foi consignado à história. É o que nos permite evitar as falsas reviravoltas e as tentações do presente, enquanto nos permite aproveitar das bênçãos e dos benefícios genuínos.

As pessoas orientadas pelo seu interior tendem a ser pioneiras, explorando o novo e o desconhecido, ainda que enquanto mantendo a fé no antigo. Considere, por exemplo, o fato que, em 2015, o Time Magazine identificou Jerusalém, um dos centros religiosos mais antigos do mundo, como um dos cinco centros mundiais de crescimento mais rápido para startups de alta tecnologia. As pessoas orientadas pela tradição vivem no passado. As pessoas orientadas pelos outros vivem no presente. Mas pessoas orientadas pelo seu interior carregam o passado para o presente, que é como elas têm a confiança para construir o futuro.

Essa ideia, que muda a vida, de orientação interna – a coragem de ser diferente – começou com as palavras Lech Lechá, que poderiam ser traduzidas como “Vá para si mesmo”. Isso significa: siga a voz interior, como fizeram aqueles que vieram antes de você, continuando a jornada deles ao trazer valores atemporais para um mundo em rápida mudança.

 

NOTA:
Bereishit Rabbah 42:8.

 

Texto original: Inner-Directedness” por Rabino Jonathan Sacks
Tradução Rachel Klinger Azulay

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