MIKETZ

Posted on dezembro 12, 2017

MIKETZ

Judeus e a Economia

Sabemos que os judeus ganharam um número desproporcional de Prêmios Nobel. Foram mais de vinte por cento dos prêmios ganhos, por um grupo que representa 0,2% da população mundial, uma sobre-representação de 100 para um. Mas a desproporção mais marcante é no campo da economia. O primeiro Prêmio Nobel de economia foi concedido em 1969. O último foi em 2016. No total, houve 78 laureados, dos quais 28 judeus; ou seja, mais de 35 por cento.

Entre os famosos economistas judeus, um dos primeiros foi David Ricardo, inventor da teoria da vantagem comparativa, que Paul Samuelson chamou de única teoria verdadeira e não óbvia nas ciências sociais. Depois, houve John von Neumann, inventor da teoria dos jogos (criativamente ampliada pelo vencedor do Prêmio Nobel Robert Aumann). Milton Friedman desenvolveu a economia monetária, Kenneth Arrow, a economia do bem-estar, e Joe Stiglitz e Jeffrey Sachs, a economia do desenvolvimento. Daniel Kahneman e o falecido Amos Tversky criaram o campo da economia comportamental. Garry Becker aplicou as análises econômicas a outras áreas de tomada de decisão, assim como Richard Posner aplicou-as a interação da economia e do direito. A esses, devemos adicionar figuras destacadas na política econômica e financeira: Larry Summers, Alan Greenspan, Sir James Wolfensohn, Janet Yellen, Stanley Fischer e outros muito numerosos para mencionar.

Começou com José que, na parashá desta semana, se tornou o primeiro economista do mundo. Interpretando os sonhos do faraó, ele desenvolve uma teoria dos ciclos de comércio – sete anos gordos, seguidos por sete anos magros – um ciclo que ainda parece acontecer em certa medida. José também intuiu que quando um chefe de estado sonha com vacas e espigas, ele provavelmente está inconscientemente pensando em macroeconomia. A natureza perturbadora dos sonhos sugeriu que D-s estava enviando um aviso prévio de um “cisne negro” (1), um fenômeno raro para o qual a economia convencional não está preparada.

Então, depois de ter diagnosticado o problema, ele imediatamente procede para uma solução: use os bons anos para criar recursos para os tempos precários, uma instância sólida de planejamento econômico a longo prazo.

“Que o Faraó nomeie comissários sobre a terra para tirar um quinto da colheita do Egito durante os sete anos de abundância. Eles devem coletar todos os alimentos desses bons anos que estão chegando e armazenar o grão sob a autoridade do Faraó, para serem mantidos nas cidades para alimento. Esse alimento deve ser mantido em reserva para o país, para ser usado durante os sete anos de escassez que virão sobre o Egito, para que o país não seja arruinado pela fome” (Gen. 41:34-36).

Isso acabou por se tornar um conselho vital. Suas políticas econômicas posteriores, narradas em Vaygash (Gen. 47:11-26), são mais questionáveis. Quando o povo ficou sem dinheiro durante os anos “magros”, José disse para que comerciassem seus gados. Quando isso também acabou, ele ordenou que eles vendessem suas terras para o Faraó, com a única exceção da terra pertencente aos sacerdotes. Os egípcios eram agora, em essência, servos do faraó, pagando-lhe um imposto de 20 por cento de sua produção a cada ano.

Essa nacionalização de gado, trabalho e terra significava que o poder estava agora concentrado nas mãos do Faraó, e o próprio povo reduzido à servidão. Essas duas evoluções seriam finalmente usadas contra o próprio povo de José, quando um novo faraó surgiu e escravizou os israelitas. Não pode ser incidental que a Torá usa duas vezes sobre os egípcios a mesma frase que mais tarde usaria sobre os israelitas: avadim le-Pharô: eles se tornaram “escravos do faraó” (Gen. 47:19, 25). Já existe aqui uma dica de que muito poder econômico nas mãos do estado leva ao que Friedrich Hayek chamou de “caminho para a servidão” (2) e o eclipse da liberdade.

Portanto, seria razoável afirmar que José foi o primeiro economista. Mas por que a predominância dos judeus na economia da era moderna? Não quero argumentar que os judeus criaram o capitalismo. Eles não criaram. Max Weber argumentou que foi a ética protestante (principalmente calvinista) que moldou “o espírito do capitalismo” (3). Rodney Stark argumentou que foi a Igreja Católica que fez isso, antes da Reforma (4). O autor do primeiro grande texto de economia de mercado, The Wealth of Nations de Adam Smith (1776), foi um dos principais membros do Iluminismo escocês, cuja visão religiosa pairava entre o cristianismo convencional e o Deísmo. Aqueles que reivindicaram um parentesco especial entre judeus e capitalismo – mais notadamente Karl Marx e Werner Sombart – tendiam a não gostar nem de judeus nem de capitalismo.

Claramente, porém, há uma forte afinidade entre a economia de mercado e o que é amplamente conhecido como a ética judaico-cristã, porque foi somente em tais culturas que ela emergiu. A China, por exemplo, liderou o Ocidente em quase todos os aspectos da tecnologia até o século XVII, mas não conseguiu gerar ciência, economia livre ou uma revolução industrial, e ficou muito atrasada até recentemente. O que havia nos valores bíblicos que se provou tão frutífero para o pensamento econômico, as instituições e o crescimento?

O historiador e economista de Harvard, David Landes, ofereceu alguns insights em seu magistral trabalho The Wealth and Poverty of Nations (5). Primeiro é a insistência bíblica sobre os direitos de propriedade. Ele cita as palavras de Moisés durante a revolta de Korach: “Eu não tirei um burro deles, nem causei dano a nenhum deles” (Num. 16:15). Da mesma forma, o profeta Samuel pergunta retoricamente ao povo que veio para pedir um rei: “De quem tomei um boi, ou de quem tomei um jumento?” (1 Sam. 12:3). Landes diz que essas observações separam os israelitas de qualquer outra cultura da época. Em outros lugares, o direito do rei de se apropriar da propriedade de outras pessoas era considerado como algo normal. John Locke enxergou que os direitos de propriedade privados são um elemento essencial de uma sociedade livre.

Uma segunda característica foi o respeito do judaísmo pela dignidade do trabalho. D-s salvou Noé do dilúvio, mas Noé teve que construir a arca. Um terceiro ponto foi o sentido judaico do tempo linear: o tempo não como uma série de ciclos em que tudo finalmente retorna ao modo como era, mas sim como uma arena de mudança, desenvolvimento e progresso. Estamos tão familiarizados com essas ideias – elas formam a base da cultura ocidental – que nem sempre estamos conscientes de que não são universais para todos os humanos. Jonathan Haidt as chama de WEIRD (ESTRANHO): isto é, elas pertencem a sociedades que são ocidentais (Western), educadas (Educated), industrializadas (Industrialised), ricas (Rich) e democratas (Democratic) (6).

Na minha opinião, o fator único mais decisivo – a grande quebra do judaísmo do mundo antigo da magia, do mistério e do mito – foi a des-consagração da natureza que se seguiu ao fato de D-s ter criado a natureza por um ato de vontade e, ao nos fazer à Sua imagem, deu-nos também o poder criativo da vontade. Isso significou que, para os judeus, a santidade não está na forma como o mundo é, mas na maneira que deveria ser. A pobreza, a doença, a fome, a injustiça e a exploração dos impotentes pelos poderosos não são a vontade de D-s. Elas podem fazer parte da natureza humana, mas temos o poder de nos elevarmos acima da natureza. D-s não quer que aceitemos, mas sim que curemos, que previnamos. Assim, os judeus trataram de se tornar, desproporcionalmente ao seu número, advogados que lutam contra a injustiça, médicos que lutam contra a doença, professores que lutam contra a ignorância, economistas que lutam contra a pobreza e (especialmente na Israel moderna) tecnólogos agrícolas que descobrem novas maneiras de cultivar alimentos em ambientes onde nunca foi possível antes.

Tudo isso é brilhantemente retratado na parashá desta semana. Primeiro José diagnostica o problema. Haverá escassez de alimentos por sete anos. E é o que ele faz em seguida que é transformador. Ele não enxerga isso como um destino a ser suportado, mas como um problema a ser resolvido. Então, sem reclamação, ele o resolve, salvando toda a região da morte por fome.

O que pode ser alterado não precisa ser suportado. O sofrimento humano não é um destino a ser suportado, mas um desafio a ser superado. Essa é a ideia que muda a vida trazida por José. O que pode ser curado não é sagrado. D-s não quer que aceitemos a pobreza e a dor, mas sim que as curemos.

 

NOTAS:
1) Nassim Nicholas Taleb, The Black Swan: the impact of the highly improbable, London, Allen Lane, 2011.
2) Friedrich Hayek, The Road to Serfdom, Chicago, 1946.
3) Max Weber, The Protestant Ethic and the Spirit of Capitalism, London, 1930.
4) Rodney Stark, The Victory of Reason: how Christianity led to freedom, capitalism and Western success, Random House, 2007.
5) David Landes, The Wealth and Poverty, Little, Brown, 1998, 45-59.
6) Jonathan Haidt, The Righteous Mind: why good people are divided by politics and religion, London, Penguin, 2013.

 

Texto original: “JEWS AND ECONOMICS” por Rabino Jonathan Sacks
Tradução Rachel Klinger Azulay para a Sinagoga Edmond J. Safra – Ipanema

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