REÊ

Posted on agosto 16, 2017

REÊ

Os Limites Da Tristeza

“Vocês são filhos do Senhor, seu D-s. Não cortem ou raspem a frente das suas cabeças pelos mortos, pois vocês são um povo sagrado para o Senhor, seu D-s. De todos os povos na face da terra, o Senhor escolheu vocês para ser Sua possessão preciosa” (Deuteronômio 14:1-2).

Essas palavras tiveram uma história considerável no judaísmo. O primeiro inspirou a famosa declaração de Rabi Akivá: “Amado é o homem porque ele foi criado à imagem [de D-s]. Amados são Israel porque são chamados filhos do Onipotente” (Avot 3:14). A frase “não cortem”, foi aplicada de forma imaginativa pelos sábios às divisões dentro da comunidade (Yevamot 14a). Uma única cidade não deveria ter dois ou mais tribunais religiosos que dêem decisões diferentes.

O sentido simples desses dois versículos, porém, é sobre o comportamento em um momento de luto. Nós somos ordenados a não nos envolver em rituais excessivos de tristeza. Perder um membro próximo de sua família é uma experiência desestruturante. É como se algo de nós mesmos tivesse morrido também. Não se afligir é errado, desumano: o judaísmo não exige indiferença impassível diante da morte. Mas dar lugar a expressões selvagens de tristeza – cortando a própria carne, arrancando o cabelo – também está errado. A Torá sugere que isso não se adequa a um povo sagrado; é o tipo de comportamento associado aos cultos idólatras. Como isso e por que?

Em outros lugares no Tanach, temos um vislumbre do tipo de comportamento que a Torá tem em mente. Ocorre no decorrer do encontro entre Eliahu e os profetas de Baal no Monte Carmel. Eliahu os desafiou a uma prova: façamos um sacrifício e vejamos qual de nós pode trazer fogo do céu. Os profetas de Baal aceitam o desafio:

Então eles invocaram o nome de Baal desde a manhã até o meio dia. “Oh Baal, responda-nos!”, eles gritaram. Mas não houve resposta; ninguém respondeu. E eles dançaram ao redor do altar que tinham feito. Ao meio dia, Eliahu começou a provocá-los. “Grite mais alto!”, ele disse. “Certamente ele é um deus! Talvez ele esteja mergulhado em pensamentos, ou ocupado ou viajando. Talvez ele esteja dormindo e deva ser despertado”. Então eles gritaram mais alto e se cortaram com espadas e lanças, como era seu costume, até seu sangue fluir (I Reis 18:26-28).

Esse não era, naturalmente, um ritual de luto, mas nos dá uma sensação gráfica do rito de auto dilaceração. Emil Durkheim nos fornece uma descrição dos costumes de luto entre os aborígenes da Austrália. Quando uma morte é anunciada, homens e mulheres começam a correr de forma selvagem, uivando e chorando, cortando-se com facas e bastões pontiagudos.

Apesar da loucura aparente, há um conjunto preciso de regras que regem esse comportamento, dependendo se o enlutado é homem ou mulher e qual sua relação de parentesco com o falecido. “Entre os Warramunga, aqueles que cortavam suas coxas eram o avô materno, o tio materno e o irmão da esposa do falecido. Outros são obrigados a cortar seus bigodes e cabelos e, em seguida, cobrir suas cabeças com argila”. As mulheres cortam suas cabeças e depois aplicam pedaços de madeira em brasa nas feridas para agravá-las (Emil Durkheim, Formas elementares da vida religiosa, traduzido Por Karen Fields, Free Press, 1995, pp. 392-406).

(Um ritual semelhante é realizado por alguns muçulmanos xiitas em Ashura, o aniversário do martírio de Imã Hussein, o neto do profeta, em Karbala. As pessoas se flagelam com correntes ou se cortam com facas até o sangue escorrer. Algumas autoridades xiitas se opõem fortemente a essa prática).

A Torá enxerga esse comportamento como incompatível com a kedushá, santidade. O que é particularmente interessante é notar o processo em duas fases em que a lei é estabelecida. Aparece primeiro no capítulo 21 de Vayikrá/Levítico.

O Senhor disse a Moisés: “Fale aos sacerdotes, filhos de Aarão, e dize-lhes: Um sacerdote não pode se contaminar por ninguém de seu povo que morra, exceto por um parente próximo… Eles não podem raspar suas cabeças ou raspar as bordas de suas barbas ou cortar seus corpos. Eles devem ser santos para seu D-s e não devem profanar o nome de seu D-s” (Levítico 21:1-6).

Isso se aplica especificamente aos cohanim, sacerdotes, por causa de sua santidade. Em Deuteronômio, a lei é estendida a todo Israel (a diferença entre os dois livros reside no seu público original: Levítico é principalmente um conjunto de instruções para os sacerdotes; Deuteronômio é Moisés se dirigindo a todo o povo). A aplicação aos israelitas comuns de leis de santidade que se aplicam aos sacerdotes é parte da democratização da santidade que é central para a ideia da Torá de “um reino de sacerdotes”. Contudo, a questão permanece: o que tem a ver restrições no luto com “filhos do Senhor seu D-s”, um povo santo e escolhido?

[1] Ibn Ezra diz que, assim como um pai pode causar uma dor a seu filho por seu bem a longo prazo, D-s também às vezes nos traz dor – aqui, luto – que devemos aceitar com confiança sem uma demonstração excessiva de tristeza.
[2] Ramban sugere que é por nossa crença na imortalidade da alma que não devemos nos afligir demais. Mesmo assim, ele acrescenta, estamos certos em nos enlutar dentro dos parâmetros estabelecidos pela lei judaica, uma vez que, mesmo sendo a morte apenas uma despedida, toda despedida é dolorosa.
[3] R. Ovadiá Sforno e Chizkuni dizem que, porque somos “filhos de D-s”, nunca estamos completamente órfãos. Podemos perder nossos pais terrenos, mas nunca nosso Pai supremo; portanto, há um limite para o sofrimento.
[4] Rabenu Meyuchas sugere que a realeza não se profana ao se auto infligir lesões que desfiguram (nivul). Assim, Israel – filhos do Rei supremo – também não pode fazê-lo.

Qualquer que seja a explicação dessas que nos fale mais fortemente, o princípio é claro. Assim é como Maimônides estabelece a lei: “Quem não chora os mortos da maneira prescrita pelos rabinos é cruel [achzari – talvez a melhor tradução seja ‘falta de sensibilidade’) (Hilchot Avel 13:12). Ao mesmo tempo, no entanto, “não se deve entregar-se a uma dor excessiva sobre os mortos, pois é dito: ‘Não chore pelo morto, nem lamente’ [Jer. 22:10], isto é, não chore demais, pois esse é o caminho do mundo, e aquele que se aflige com o caminho do mundo é um tolo” (ibid. 13:11).

A Halachá, a lei judaica, esforça-se para criar um equilíbrio entre tristeza exagerada e quase nada de tristeza. Daí os vários estágios de luto: aninut (o período entre a morte e o enterro), shivá (a semana de luto), sheloshim (trinta dias no caso de outros parentes) e Shaná (um ano, no caso dos pais). O judaísmo ordena uma sequência de lamentos precisamente calibrada, desde o momento inicial e anestesiante da própria perda, até o funeral e retorno para casa, até o período de consolação de amigos e membros da comunidade, e até um período mais prolongado durante o qual o enlutado não se envolve em atividades associadas à alegria. Quanto mais aprendemos sobre a psicologia do luto e os estágios através dos quais devemos passar antes que a perda seja curada, cada vez mais clara torna-se a sabedoria das antigas leis e costumes do Judaísmo. Como é com os indivíduos, também o é com o povo como um todo. Os judeus sofreram mais do que ninguém com perseguições e tragédias. Nunca esquecemos esses momentos. Lembramos deles em nossos dias de jejum – especialmente em Tishá Be Av com sua literatura de lamento, o kinot. Ainda assim, com um poder de recuperação que às vezes tem sido quase milagroso, nunca nos permitimos ser derrotados pelo sofrimento. Uma passagem rabínica (Tosefta Sotá 15:10-15, ver também Baba Batrá 60b) simboliza a voz dominante dentro do judaísmo:

Depois que o Segundo Templo foi destruído, os ascéticos se multiplicaram em Israel. Eles não comiam carne ou bebiam vinho… Rabi Joshua disse-lhes: “Não lamentar nada é impossível, pois foi decretado. Mas lamentar muito também é impossível”.

Nesta época anti-tradicional, com sua hostilidade ao ritual e sua preferência pela exibição pública das emoções privadas (o que Philip Rieff, na década de 1960, chamou de “triunfo do terapêutico”), a ideia de que a tristeza tem suas leis e limites soa estranho. No entanto, quase qualquer um que tenha tido o infortúnio de estar enlutado pode testemunhar a profunda cura provocada pela observância das leis de avelut (luto).

A Torá e a tradição souberam como honrar tanto os mortos quanto os vivos, sustentando o delicado equilíbrio entre tristeza e consolo, a perda da vida que nos dá dor e a reafirmação da vida que nos dá esperança.

 

Texto original: “THE LIMITS OF GRIEF” por Rabino Jonathan Sacks
Tradução Rachel Klinger Azulay para a Sinagoga Edmond J. Safra – Ipanema

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