SHELACH

Posted on junho 15, 2017

SHELACH

A Liberdade Precisa de Paciência

De quem foi a ideia de enviar os espiões? De acordo com a parashá desta semana, foi D-s.
O Senhor disse a Moisés: “Mande alguns homens para explorar a terra de Canaã, que eu estou dando aos israelitas. De cada tribo ancestral envie um de seus líderes”. Então, ao comando do Senhor, Moisés os enviou do deserto de Paran (Números 13:1-3).

De acordo com Moisés em Deuteronômio, foi o povo:
Então, todos vocês vieram até mim e disseram: “Vamos enviar homens à frente para espionar a terra para nós e trazer de volta um relatório sobre a rota que devemos tomar e as cidades para as quais iremos”. A ideia me pareceu boa; Então selecionei doze de vocês, um homem de cada tribo (Deuteronômio 1:22-23).

Rashi concilia a contradição aparente. O povo veio a Moisés com seu pedido. Moisés perguntou a D-s o que deveria fazer. D-s deu-lhe permissão para enviar os espiões. Ele não o ordenou; Ele simplesmente não se opôs a isso. “Onde uma pessoa quer ir, é para lá que ela é conduzida” (Makot 10b) – assim disseram os sábios. Significado: D-s não impede as pessoas de tomar um curso de ação que elas queiram, mesmo que Ele saiba que pode acabar em tragédia. Essa é a natureza da liberdade que D-s nos deu. Inclui a liberdade de cometer erros.

No entanto, Maimônides (Guia dos Perplexos III:32) oferece uma interpretação que dá uma perspectiva diferente para todo o episódio. Ele começa com o verso (Êxodo 13:17) com o qual o livro de Êxodo começa:

Quando o Faraó deixou o povo ir, D-s não os conduziu na estrada que passava pela filisteia, ainda que fosse o caminho mais curto. Pois D-s disse: “Se eles enfrentarem uma guerra, poderão mudar suas mentes e voltar para o Egito”. Então, D-s os conduziu através da estrada do deserto em direção ao Mar Vermelho.

Maimônides comenta: “Aqui D-s conduziu o povo, fora da rota direta que ele originalmente pretendia, porque Ele temeu que eles pudessem encontrar dificuldades grandes demais para sua força naquele momento. Então, ele os conduziu por uma rota diferente para alcançar Seu objetivo original”. Ele então adiciona o seguinte:

É um fato bem conhecido que viajar pelo deserto sem confortos físicos, como o banho, produz coragem, enquanto o oposto produz fraqueza. Além disso, outra geração surgiu durante as andanças, que não foi acostumada a degradação e escravidão.

De acordo com Maimônides, então, foi irrelevante quem enviou os espiões. Nem foi relevante o veredicto após o episódio – que o povo seria condenado a passar 40 anos no deserto e que somente seus filhos entrariam na terra – um castigo e tanto. Era uma consequência inevitável da natureza humana.

Leva mais do que alguns dias ou semanas para transformar uma população de escravos em uma nação capaz de lidar com as responsabilidades da liberdade. No caso dos israelitas, foi preciso uma geração nascida em liberdade, endurecida pela experiência do deserto e não habituada à servidão. A liberdade requer tempo, e não há atalhos. Muitas vezes leva muito tempo.

Essa dimensão do tempo é fundamental para a visão judaica da política e do progresso humano. É por isso que na Torá, Moisés repetidamente diz aos adultos para educar seus filhos, para contar a eles a história do passado, para “lembrar”. É por isso que a própria aliança é estendida através do tempo – de uma geração para outra. É por isso que a história dos israelitas é contada de forma tão extensa no Tanach: o período abrangido pela Bíblia hebraica é de mil anos desde os dias de Moisés até o último dos profetas. É por isso que D-s atua na história e através da história.

Diferentemente do cristianismo ou do Islã, no judaísmo não há uma transformação súbita da condição humana, nenhum momento ou geração única em que tudo de significativo é totalmente revelado. Por que, pergunta Maimônides (Guia, III:32), D-s simplesmente não deu aos israelitas no deserto a força ou autoconfiança que precisavam para atravessar o Jordão e entrar na terra? Sua resposta: porque significaria dizer adeus à liberdade, escolha e responsabilidade humana. Mesmo o Próprio D-s, indica Maimônides, tem que trabalhar com o grão da natureza humana e seu lento ritmo de mudança. Não porque D-s não pode mudar as pessoas: claro que Ele pode. Ele os criou; Ele poderia recriá-los. A razão é que D-s escolhe não fazê-lo. Ele pratica o que os Cabalistas de Safed chamam de tzimtzum, autolimitação. Ele quer que os seres humanos construam uma sociedade de liberdade – e como Ele poderia fazer isso se, para que isso aconteça, Ele tivesse que privá-los da própria liberdade que Ele queria que eles criassem.

Há algumas coisas que os pais não podem fazer para uma criança se eles querem que a criança se torne adulta. Há algumas coisas que mesmo D-s precise optar não fazer pelo Seu povo se Ele quiser que eles cresçam até a maturidade moral e política. Em um de meus livros, chamei isso de imaginação cronológica, em oposição à imaginação lógica grega. A lógica não tem a dimensão do tempo. É por isso que os filósofos tendem a ser rigidamente conservadores (Platão não queria poetas em sua República, eles ameaçavam perturbar a ordem social) ou profundamente revolucionários (Rousseau, Marx). A ordem social atual está certa ou errada. Se estiver certa, não devemos mudá-la. Se estiver errada, devemos derrubá-la. O fato de que a mudança leva tempo, mesmo muitas gerações, não é uma idéia fácil de se enquadrar com a filosofia (mesmo aqueles filósofos, como Hegel e Marx, que consignaram no tempo, fizeram isso mecanicamente, falando sobre “inevitabilidade histórica” ao invés ​​do exercício imprevisível da liberdade).

Um dos fatos estranhos sobre a civilização ocidental nos últimos séculos é que as pessoas que têm sido mais eloquentes acerca de tradição – Edmund Burke, Michael Oakeshott, T.S. Eliot – foram profundamente conservadores, defensores do status quo. No entanto, não há razão para que uma tradição seja conservadora. Podemos passar para nossos filhos não apenas o nosso passado, mas também os nossos ideais não realizados. Podemos querer que eles nos superem; para viajarem mais à frente na estrada para a liberdade do que pudemos fazer. Isso, por exemplo, é como o Seder de Pessach começa: “Este ano, escravos, ano que vem, livres; Este ano aqui, no próximo ano em Israel”. Uma tradição pode ser evolutiva sem ser revolucionária.

Essa é a lição dos espiões. Apesar da raiva Divina, o povo não foi condenado ao exílio permanente. Eles simplesmente tiveram que enfrentar o fato que seus filhos conseguiriam o que eles próprios não estavam preparados para conseguir.

As pessoas ainda esquecem isso. As guerras no Afeganistão e no Iraque foram realizadas, pelo menos em parte, em nome da democracia e da liberdade. No entanto, esse não é o trabalho de uma guerra, mas de educação, construção de sociedade e a lenta aceitação de responsabilidade. Isso leva gerações. Às vezes, nunca acontece. As pessoas – como os israelitas, desmoralizadas pelo relatório dos espiões – perdem a coragem e querem voltar para o passado previsível (“Vamos escolher um líder e voltar para o Egito”), e não para o futuro incerto, arriscado e exigente. É por isso que, historicamente, houve mais tiranias do que democracias.

A política da liberdade exige paciência. Requer anos de esforço sem desistir da esperança. O falecido Emmanuel Levinas falou sobre “liberdade difícil” – e a liberdade sempre é difícil. A história dos espiões nos diz que a geração que deixou o Egito ainda não estava pronta para ela. Essa foi a sua tragédia. Mas seus filhos estariam. Esse foi o seu consolo.

 

Texto original “Freedom Needs Patience” por Rabino Jonathan Sacks
Tradução Rachel Klinger Azulay

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