SHEMINI

Posted on abril 10, 2018

SHEMINI

Quando a Fraqueza Pode se Transformar em Força

Você já se sentiu inadequado para uma tarefa que lhe foi designada ou para um trabalho que lhe foi dado? Você às vezes sente que outras pessoas têm uma avaliação muito alta de suas habilidades? Houve um momento em que você se sentiu como um falsário, uma fraude, e que em algum momento você seria descoberto como o ser humano fraco, falível e imperfeito que você sabe em seu coração que você é?

Em caso afirmativo, de acordo com o comentário de Rashi para a parashá desta semana, você está muito bem acompanhado. Aqui está o cenário: o Mishkan, o Santuário, estava finalmente completo. Durante sete dias Moisés consagrou Aarão e seus filhos para servirem como sacerdotes. Agora chegara a hora de começarem o serviço. Moisés lhes dá várias instruções. Então ele diz as seguintes palavras para Aarão:

Aproxime-se do altar e oferece a tua oferta pelo pecado e o teu holocausto, e faz expiação por ti e pelo povo; sacrifique a oferta que é pelo povo e faz expiação por eles, como o Senhor ordenou” (Lev. 9:7).

Os sábios ficaram intrigados com a instrução: “Aproxime-se”. Isso parece implicar que Aarão até então manteve-se afastado do altar. Por quê? Rashi dá a seguinte explicação:

Aarão estava envergonhado e com medo de se aproximar do altar. Moisés disse-lhe: “Por que você está envergonhado? Foi por isso que você foi escolhido”.

Há um nome para esta síndrome, cunhada em 1978 por duas clínicas psicologistas, Pauline Clance e Suzanne Imes. Elas a chamaram de síndrome do impostor (1). As pessoas que sofrem disso sentem que não merecem o sucesso que alcançaram. Elas atribuem isso não ao seu esforço e habilidade, mas à sorte, ou ao momento, ou ao fato delas terem enganado os outros e os levarem a pensar que elas são melhores do que realmente são. Isso acontece surpreendentemente com muitas pessoas, e particularmente entre as pessoas de muito sucesso. Pesquisas mostraram que cerca de 40% das pessoas bem-sucedidas não acreditam que merecem seu sucesso e que cerca de 70% se sentiram assim em algum momento.

No entanto, como se pode imaginar, Rashi está nos dizendo algo mais profundo. Aarão não era simplesmente alguém sem autoconfiança. Havia algo específico que ele deve ter tido em mente naquele dia em que foi indicado para o papel de Sumo Sacerdote. Pois Aarão ficara encarregado do povo enquanto Moisés estava na montanha recebendo a Torá. E foi quando o pecado do Bezerro de Ouro aconteceu.

Lendo essa narrativa, é difícil evitar a conclusão de que foi a fraqueza de Aarão que permitiu que isso acontecesse. Foi ele quem sugeriu que ao povo que lhe dessem seus ornamentos de ouro, ele quem os moldou em um bezerro e quem construiu um altar para dele (Êx. 32:1-6).

Quando Moisés viu o Bezerro de Ouro e desafiou Aarão – “O que esse povo fez a você, que você trouxe sobre eles esse grande pecado?” – ele respondeu, evasivamente: “Eles me deram o ouro, e eu o joguei no fogo, e saiu esse bezerro!”

Este era um homem profundamente (com razão) desconfortável com seu papel em um dos episódios mais desastrosos da Torá, e agora ele estava sendo chamado a expiar não só para si mesmo, mas para todo o povo. Isso não era hipocrisia? Ele não era ele mesmo um pecador? Como ele poderia ficar diante de D-s e do povo e assumir o papel de o mais sagrado dos homens? Não admira que ele se sentisse um impostor e estivesse envergonhado e com medo de se aproximar do altar.

Moisés, no entanto, não disse algo que simplesmente aumentaria sua autoconfiança. Ele disse algo muito mais radical e transformador: “Foi por isso que você foi escolhido”. A tarefa de um Sumo Sacerdote é expiar pelos pecados do povo. Era seu papel, em Yom Kipur, confessar seus erros e falhas, depois os da sua família, depois os do povo como um todo (Lev. 16:11-17). Era sua responsabilidade implorar perdão.

“Isso”, insinuou Moisés, “foi o motivo que o fez ser escolhido. Você sabe como é o pecado. Você sabe o que é sentir culpa. Você, mais do que ninguém, entende a necessidade de arrependimento e expiação. Você sentiu o grito de sua alma para ser limpa, purificada e libertada da mancha da transgressão. O que você considera como sua maior fraqueza se tornará, nesse papel que você está prestes a assumir, sua maior força”.

Como Moisés sabia disso? Porque ele mesmo tinha experimentado algo semelhante. Quando D-s lhe disse para confrontar o Faraó e levar os israelitas à liberdade, ele repetidamente insistiu que não poderia fazê-lo. Releia a resposta dele ao chamado de D-s para libertar os israelitas do Egito (Êx. 3-4), e veja como eles soam como alguém radicalmente convencido de suas inadequações. “Quem sou eu?” “Eles não vão acreditar em mim”. Acima de tudo, ele repetia que não poderia falar diante de uma multidão, algo absolutamente necessário em um líder. Ele não era um orador. Ele não tinha a voz de comando:

Então Moisés disse ao Senhor: “Por favor, meu Senhor, eu não sou um homem de palavras, nem ontem, nem no dia anterior, nem desde que Falaste ao Teu servo. Eu sou pesado de fala e de língua” (Êx. 4:10). Moisés disse ao Senhor: “Veja, os israelitas não me ouvem. Como então o Faraó me ouvirá? Além disso, tenho lábios incircuncisos” (Êx. 6:12).

Moisés tinha um defeito na fala. Para ele, essa era uma desqualificação suprema para ser um porta-voz da palavra Divina. O que ele ainda não tinha entendido é que essa foi uma das razões pelas quais D-s o escolheu. Quando Moisés falava as palavras de D-s, o povo sabia que ele não estava falando suas próprias palavras com sua própria voz. Alguém estava falando através dele. Esse parece ter sido o caso de Isaías e Jeremias, ambos os quais duvidavam de sua capacidade de falar e se tornaram dentre os mais eloquentes dos profetas (2).

As pessoas que podem influenciar multidões com sua oratória geralmente não são profetas. Muitas vezes eles são ou se tornam ditadores e tiranos. Eles usam seu poder da fala para adquirir formas de poder mais perigosas. D-s não escolhe pessoas que falam com sua própria voz, dizendo às multidões o que elas querem ouvir. Ele escolhe pessoas que estão plenamente conscientes de suas inadequações, que gaguejam literalmente ou metaforicamente, que falam não porque querem, mas porque precisam, e que não dizem às pessoas o que elas querem ouvir, mas o que elas devem ouvir para serem salvas da catástrofe. O que Moisés pensava ser sua maior fraqueza era, na verdade, uma de suas maiores forças.

O ponto aqui não é uma simples aceitação da fraqueza, “Eu concordo, você concorda”. Não é disso que se trata o judaísmo. O ponto é a luta. Moisés e Aarão, em seus diferentes modos, tiveram que lutar consigo mesmos. Moisés não era um líder natural. Aarão não era um sacerdote natural. Moisés teve que aceitar que uma de suas qualificações mais importantes era o que hoje chamamos de sua baixa autoimagem, mas o que, visualizando a partir de uma mentalidade completamente diferente, a Torá chama de humildade. Aarão teve que entender que sua própria experiência de pecado e fracasso fez dele o representante ideal de um povo consciente de seu próprio pecado e fracasso. Sentimentos de inadequação – a síndrome do impostor – pode ser uma boa ou uma má notícia dependendo do que você faz com eles. Eles levam você à depressão e ao desespero? Ou eles levam você a trabalhar suas fraquezas e transformá-las em pontos fortes.

A chave, de acordo com Rashi na parashá desta semana, é o papel que Moisés desempenhou nesse momento crítico da vida de Aarão. Ele teve fé em Aarão mesmo quando Aarão não teve fé em si mesmo. Esse é o papel que o próprio D-s desempenhou, mais de uma vez, na vida de Moisés. E esse é o papel que D-s desempenha em todas as nossas vidas se estivermos verdadeiramente abertos a Ele. Eu tenho dito muitas vezes que o mistério no coração do judaísmo não é a nossa fé em D-s. É a fé de D-s em nós.

Essa é, então, a ideia que transforma a vida: o que consideramos nossa maior fraqueza pode tornar-se, se lutarmos com ela, nossa maior força. Pense naqueles que sofreram alguma tragédia e depois dedicam suas vidas para aliviar o sofrimento de outros. Pense naqueles que, conscientes de suas falhas, usam essa consciência para ajudar os outros a superar seu próprio senso de fracasso.

O que torna o Tanach tão especial é a franqueza total sobre a humanidade. Seus heróis – Moisés, Aarão, Isaías, Jeremias – todos conheciam os momentos em que se sentiam fracassados, “impostores”. Eles tinham seus momentos de desespero sombrio. Mas eles continuaram. Eles se recusaram a ser derrotados. Eles sabiam que um sentimento de inadequação pode nos aproximar de D-s, como disse o Rei David: “Meu sacrifício [ou seja, o que eu trago como oferta a ti] oh D-s, é um espírito quebrado; um coração quebrado e contrito Tu, D-s, não desprezarás” (Salmo 51:19).

Muito melhor saber que você é imperfeito do que acreditar que você é perfeito. D-s nos ama e acredita em nós, apesar, e às vezes por causa, de nossas imperfeições. Nossas fraquezas nos tornam humanos; Lutar com elas nos faz fortes.

 

NOTAS
1] Pauline Clance and Suzanne Ament Imes, “The Imposter Phenomenon in High Achieving Women: Dynamics and Therapeutic Intervention”. Psychotherapy: Theory, Research & Practice, vol. 15, no. 3, 1978, pp. 241–247.
2] Há um notável exemplo secular: Winston Churchill tinha tanto uma dificuldade na pronúncia quanto um gaguejar e, apesar de ter lutado contra ambos, eles persistiram até a idade adulta. Por causa disso, ele tinha que pensar cuidadosamente com antecedência sobre seus principais discursos. Ele era meticuloso em escreve-los ou dita-los antecipadamente, reescrevendo frases-chave até o último momento. Ele usava palavras curtas sempre que possível, fazia uso dramático de pausas e silêncios, e desenvolveu um uso quase poético de ritmo. O resultado não foi apenas que ele se tornou um grande orador. Seus discursos, especialmente pelo rádio durante a Segunda Guerra Mundial, foram um fator crítico para despertar o espírito da nação. Nas palavras de Edward Murrow, ele “mobilizou a língua inglesa e a enviou para a batalha”.

 

Texto original “WHEN WEAKNESS CAN BECOME A STRENGTH” por Rabino Jonathan Sacks
Tradução Rachel Klinger Azulay para a Sinagoga Edmond J. Safra – Ipanema

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