TERUMÁ

Posted on fevereiro 15, 2018

TERUMÁ

Por Que Valorizamos o Que Fazemos

O economista comportamental Dan Ariely fez uma série de experimentos sobre o que é conhecido como efeito IKEA, ou “por que superestimamos o que fazemos”. O nome vem, claro, da loja que vende móveis de automontagem. Para pessoas com dificuldades manuais como eu, montar um item de mobiliário é geralmente como montar um quebra-cabeça gigante em que várias peças estão faltando, e outras estão no lugar errado. Mas no final, mesmo que o item seja de um nível amador, tendemos a sentir um certo orgulho nisso.

Podemos dizer: “Eu fiz isso”, mesmo que foi outra pessoa que o criou, produziu as peças e escreveu as instruções. Há, naquilo em que investimos nosso trabalho, um sentimento como aquele expresso no Salmo 128: “Quando você comer o fruto do trabalho das suas mãos, você será feliz e tudo estará bem com você” (1).

Ariely queria testar a realidade e a extensão desse valor agregado. Então ele obteve voluntários para fazer modelos de origami ao manipular e dobrar papeis de forma elaborada. Ele então perguntou-lhes quanto eles estavam dispostos a pagar para ficar com seu próprio modelo. A resposta média foi de 25 centavos. Ele perguntou a outras pessoas na vizinhança o que elas estariam preparadas para pagar. A resposta média foi de cinco centavos. Em outras palavras, as pessoas estavam preparadas para pagar cinco vezes mais por algo que elas tinham feito. Suas conclusões foram: o esforço que colocamos em algo não muda apenas o objeto. Esse esforço muda a nós e a maneira como avaliamos esse objeto. E quanto maior o trabalho, maior o amor pelo que fizemos (2).

Isso faz parte do que está acontecendo na longa sequência sobre a construção do Santuário que começa em nossa parashá e continua, com poucas interrupções, até o final do livro. Não há comparação alguma entre o Mishkan – o santo e o Santo dos Santos – e algo tão secular quanto os móveis de automontagem. Mas no nível humano, existem paralelos psicológicos.

O Mishkan foi a primeira coisa que os israelitas fizeram no deserto, e marca um ponto de mutação na narrativa do Êxodo. Até agora, D-s havia feito todo o trabalho. Ele havia atingido o Egito com pragas. Ele havia levado o povo à liberdade. Ele havia dividido o mar e os fez atravessá-lo em terra seca. Ele lhes dava comida do céu e água de uma rocha. E, com exceção da Canção no Mar, o povo não reconheceu tudo isso. Eles eram ingratos. Eles reclamavam.

Agora D-s instruiu Moisés a levar o povo através de uma inversão de papéis. Ao invés Dele fazer coisas para eles, Ele ordenou que eles fizessem algo para Ele. Isso não era para D-s. D-s não precisa de um Santuário, um lar na terra, pois D-s está em casa em todos os lugares. Como Isaías disse em Seu nome: “O céu é o Meu trono e a terra é escabelo para Meus pés. Que casa você pode construir para Mim?” (Is. 66:1). Isso era para os humanos e sua dignidade, seu auto respeito.

Em um extraordinário ato de tzimtzum, autolimitação, D-s deu aos israelitas uma chance de fazer algo com suas próprias mãos, algo que eles valorizariam porque, coletivamente, eles o fizeram. Todos os que estivessem dispostos, poderiam contribuir com qualquer coisa que tivessem: “ouro, prata ou bronze, fios azuis, roxos ou carmesins, linho fino, pele de cabra, peles de carneiro vermelho, couro fino, madeira de acácia, óleo para lâmpada, óleos de bálsamo, óleo de unção e para o incenso perfumado, joias para o peitoral e assim por diante”. Alguns deram seu trabalho e habilidades. Todos tiveram a oportunidade de participar: mulheres e homens, o povo como um todo, não apenas uma elite.

Pela primeira vez D-s pediu-lhes não somente para seguir Seu pilar de nuvens e Sua coluna de fogo através do deserto, ou obedecer Suas leis, mas que fossem ativos: tornarem-se construtores e criadores. E porque envolvia seu trabalho, energia e tempo, eles investiram algo de si mesmos, individual e coletivamente, naquilo. Para repetir o ponto de Ariely: valorizamos o que criamos. O esforço que colocamos em algo não apenas muda o objeto. Muda a nós.

Poucos lugares na Torá simbolizam mais poderosamente o dito de Rabino Yohanan: “Onde quer que você encontre a grandeza de D-s, lá você encontrará Sua humildade” (3). D-s estava dando aos israelitas a dignidade de poder dizer: “Eu ajudei a construir uma casa para D-s”. O Criador do universo estava dando a Seu povo a chance de se tornarem criadores também – não apenas de algo físico e secular, mas de algo profundamente espiritual e sagrado.

Daí a incomum palavra hebraica para contribuição, Terumá, que significa não apenas algo que damos, mas algo que elevamos. Os construtores do santuário elevaram seu presente a D-s e, no processo de elevação, descobriram que eles mesmos foram elevados. D-s estava lhes dando a chance de se tornarem “Seus parceiros no trabalho da criação” (4), a mais alta descrição já dada para a condição humana.

Essa é uma ideia que muda a vida. O maior presente que podemos dar às pessoas é dar-lhes a chance de criar. Esse é o único presente que transforma o destinatário em um doador. Dá-lhes dignidade. Demonstra que confiamos neles, temos fé neles e acreditamos que eles são capazes de grandes feitos.

Nós já não temos um Santuário em um espaço, mas nós temos o Shabat, o “santuário no tempo” (5). Recentemente, um representante do alto escalão da Igreja da Inglaterra passou o Shabat conosco na Sinagoga do Marble Arch. Ele ficou conosco durante todas as 25 horas, desde cabalat Shabat até a Havdalá. Ele rezou, aprendeu, comeu e cantou conosco (6). “Por que você está fazendo isso?”, Perguntei-lhe. Ele respondeu: “Um dos maiores presentes que vocês judeus nos deram aos cristãos foi o Shabat. Nós o estamos perdendo. Vocês o estão mantendo. Eu quero aprender com você como vocês fazem isso”.

A resposta é simples. De fato, foi D-s que, no alvorecer do tempo, tornou o sétimo dia santo (7). Mas foram os sábios que, fazendo “uma cerca em torno da lei”, acrescentaram muitas leis, costumes e regulamentos para proteger e preservar seu espírito (8). Quase todas as gerações contribuíram com alguma coisa para o legado do Shabat, sendo apenas uma nova música, ou mesmo uma nova melodia para palavras antigas. Não é por acaso que falamos sobre “fazer Shabat”. O povo judeu não criou a santidade do dia, mas co-criou seu hadrat kodesh, sua beleza sagrada. O ponto de Ariely também se aplica aqui: quanto maior o esforço que colocamos em algo, maior o amor que temos pelo que fizemos.

Daí a lição que muda a vida: se você quer que as pessoas valorizem algo, faça com que elas participem da sua criação. Dê a elas um desafio e responsabilidade. O esforço que colocamos em algo não muda apenas o objeto: muda a nós. Quanto maior o trabalho, maior o amor pelo que fizemos.

 

NOTAS:
1) Sobre os prazeres do trabalho físico em geral, especialmente o artesanato, veja Matthew Crawford, The Case for Working with your Hands, Viking, 2010; publicado na América como Shop Class as Soul Craft. Entre os primeiros sionistas, havia um forte sentimento, melhor expressado por A. D. Gordon, que trabalhar a terra era em si uma experiência espiritual. Gordon foi influenciado aqui não apenas pelo Tanach, mas também pelos escritos de Leo Tolstoy.
2) Dan Ariely, The Upside of Irrationality, Harper, 2011, 83-106. Sua palestra TED sobre esse assunto pode ser vista em: www.ted.com/talks/dan_ariely_what_makes_us_feel_good_about_our_work
3) Meguilá 31a.
4) Shabat 10a, 119b.
5) Abraham Joshua Heschel, The Sabbath: Its Meaning for Modern Man, Farrer, Straus and Giroux, 2005.
6) Ele não estava, naturalmente, cumprindo todas as leis do Shabat: tanto judeus quanto cristãos concordam que elas são imperativas apenas para os judeus.
7) Diferentemente dos festivais, cujas datas dependem do calendário, que era determinado pelo Sanhedrin. Essa diferença está refletida na liturgia.
8) Halachicamente (Em termos da lei judaica), esse é o conceito de Shevut, que o Ramban viu como essencialmente bíblico em sua origem.

 

Texto original: “WHY WE VALUE WHAT WE MAKE” por Rabino Jonathan Sacks.
Tradução Rachel Klinger Azulay para a Sinagoga Edmond J. Safra – Ipanema

 

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