TETZAVÊ

Posted on março 6, 2017

TETZAVÊ

Quem é Honrado?

Tetzavê é a única parashá, desde o início de Êxodo até o fim de Deuteronômio, que não contém a palavra “Moisés”. Por uma vez Moisés, o herói, o líder, o libertador, o legislador, está fora da cena. Em vez disso, nosso foco está em seu irmão mais velho, Aarão que, em outros lugares, está frequentemente nos bastidores. Na verdade, praticamente toda a parashá é dedicada ao papel que Moisés não ocupou, exceto brevemente – o de sacerdote, em geral; de sumo sacerdote, em particular.

Por quê? Existe alguma importância maior para a ausência de Moisés nesta passagem? Os comentaristas ofereceram muitas sugestões. Uma delas oferecida por R. Jacob ben Asher (1270-1340, autor do código conhecido como Tur), relaciona a parashá desta semana com um evento no início da liderança de Moisés: seu encontro com D-s na sarça ardente (Ex. 3-4). Moisés repetidamente manifestou relutância em assumir a missão de levar o povo para fora do Egito. Finalmente lemos:

Mas Moisés disse: “Oh Senhor, por favor envia outro para essa missão”. Então a ira do Senhor queimou contra Moisés e Ele disse: “E o seu irmão Aarão, o levita? Eu sei que ele pode falar bem. Ele já está a caminho para te encontrar, e seu coração se alegrará quando o vir. Você deve falar com ele e colocar palavras na sua boca; Eu vou ajudar vocês dois a falarem e ensinarei o que fazer” (Ex. 4:13-15).

Os sábios dizem que foi essa hesitação por parte de Moisés que causou parte de seu papel – como potencial sumo sacerdote – a ser tirado dele e dado a seu irmão. R. Jacob ben Asher conclui que o nome de Moisés está faltando em Tetzavê “para poupá-lo da angústia” ao ver Aarão adquirir a insígnia do sacerdócio que poderia ter sido do próprio Moisés.

Sem negar essa ou outras explicações, pode haver uma mensagem mais fundamental. Como mencionei antes, um dos temas recorrentes de Gênesis é a rivalidade e hostilidade entre irmãos. Essa história é contada quatro vezes: entre Caim e Abel, Isaac e Ismael, Jacob e Esaú, e José e seus irmãos.

Há um padrão identificável para esse conjunto de narrativas, melhor visto na forma como cada uma termina. A história de Caim e Abel termina com assassinato, fratricídio. Isaac e Ismael – embora cresçam separados – são vistos juntos no funeral de Abraão. Evidentemente, houve uma reconciliação, embora isso seja dito nas entrelinhas (e enunciadas no midrash), não diretamente no texto. Jacob e Esaú se encontram, se abraçam e seguem caminhos separados. José e seus irmãos se reconciliam e vivem juntos em paz, José lhes proporcionando alimento, terra e proteção. Gênesis está nos contando uma história de grande consequência. Fraternidade – uma das palavras-chave da revolução francesa – não é simples ou direta. Muitas vezes está cheia de conflitos e contenções. Contudo, lentamente, os irmãos podem aprender que há uma outra maneira. Nessa nota termina Gênesis.

Mas não é o fim da história. Há um quinto capítulo: a relação entre Moisés e Aarão. Aqui, pela primeira vez, não há indícios de rivalidade entre irmãos (alguma desenvolvida mais tarde – Bamidbar capítulo 12 – mas foi resolvida pela humildade de Moisés). Os irmãos trabalham juntos desde o início da missão para levar os israelitas à liberdade. Eles se dirigem ao povo. Eles ficam juntos quando enfrentam o Faraó. Eles executam sinais e maravilhas juntos. Eles compartilham a liderança do povo no deserto juntos. Pela primeira vez, os irmãos funcionam como uma equipe, com diferentes dons, talentos e papéis, mas sem hostilidade, cada um complementando o outro.

Isso é transmitido pela Torá em duas frases marcantes. A primeira está na passagem já citada acima. D-s diz a Moisés: Aarão “já está a caminho de te encontrar, e seu coração se alegrará quando te ver”. Como isso é diferente dos encontros tensos entre os irmãos em Gênesis. Aarão, talvez tenhamos pensado, poderia ter muitas razões para não se alegrar ao ver Moisés retornar. Os irmãos não tinham crescido juntos. Moisés tinha sido adotado pela filha do Faraó e criado em um palácio egípcio. Nem tinham estado juntos durante os sofrimentos dos israelitas. Moisés, temendo por sua vida depois de seu ataque a um chefe egípcio, tinha fugido para Midian. Além disso, Moisés era irmão mais novo de Aarão, e era ele quem estava prestes a se tornar o líder do povo. Sempre, no passado, quando o mais novo tinha tomado algo que o mais velho poderia ter acreditado pertencer naturalmente a ele, havia ciúme, animosidade. Contudo, D-s assegura a Moisés: “Quando Aarão te vir, ele se alegrará”. E assim foi (Ex. 4:27).

A segunda advertência está contida em um texto estranho, traçando a descendência de Moisés e Aarão:

Amram casou-se com Jochebed, irmã de seu pai, que lhe deu a Aarão e Moisés. Amram viveu 137 anos… Foi este mesmo Aarão e Moisés a quem o Senhor disse: “Tirai os filhos de Israel do Egito, segundo as suas divisões”. Eles foram os que falaram ao Faraó, rei do Egito, sobre a retirada dos israelitas do Egito. Era o mesmo Moisés e Aarão (Ex. 6:20; 26-27).

A frase repetida, “Era o mesmo”, é enfática mesmo na tradução. E tanto mais quando observamos duas peculiaridades do texto. O primeiro é que as frases, embora inicialmente pareçam idênticas, colocam de fato os nomes dos irmãos em uma ordem diferente: a primeira frase diz “Aarão e Moisés”, a segunda, “Moisés e Arão”. Ainda mais impressionante é a estranheza gramatical da frase. Ambas as vezes, a terceira pessoa do singular é usada. Literalmente, eles leram: “Ele era Aarão e Moisés”, “Ele era Moisés e Aarão”. O texto deveria ter dito “Eles” – ainda mais que o pronome “eles” é usado no meio da passagem: “Eles foram os que falaram com o Faraó”.

A inconfundível dedução é que eles eram como um único indivíduo. Eles eram como um. Não havia hierarquia entre eles: por vezes o nome de Aarão aparece primeiro, por vezes Moisés. Sobre isso há um midrash maravilhoso, baseado no versículo dos Salmos (85:11): “A bondade amorosa e a verdade se encontram; A justiça e a paz se beijam”.

Amor-bondade – isso se refere a Aarão. Verdade – isso se refere a Moisés. Retidão – isso se refere a Moisés. Paz – isso se refere a Aarão (Shemot Rabá 5:10).

O midrash traz textos de evidência para cada uma dessas identificações, mas nós as entendemos imediatamente. Moisés e Aarão eram muito diferentes em temperamento e papel. Moisés era o homem da verdade; Aarão, da paz. Sem verdade, não pode haver visão para inspirar uma nação. Mas sem paz interna, não há nenhuma nação para inspirar. Aarão e Moisés eram ambos necessários. Seus papéis estavam em tensão criativa. No entanto, eles trabalhavam lado a lado, respeitando cada um o dom distinto do outro. Como o midrash continua a dizer:

“E ele o beijou” [os irmãos se beijaram quando se encontraram] – Isso significa: cada um se alegrou com a grandeza do outro (Shemot Rabá ad loc).

Um midrash final completa a imagem, referindo-se à parashá desta semana e as vestes do Sumo Sacerdote, especialmente o peitoral com seu Urim e Tumim:

“Seu coração se alegrará quando o vir” – Deixe o coração que se alegrou na grandeza de seu irmão ser investido com o Urim e Tumim (Shemot Rabá 3:17).

Era precisamente o fato de que Aarão não invejava seu irmão mais novo, mas em vez disso se alegrava com sua grandeza, que o tornava digno de ser Sumo Sacerdote. Assim aconteceu – medida por medida – assim como Aarão deu espaço para seu irmão mais novo para liderar, então a Torá dá espaço para Aarão liderar. É por isso que Aarão é o herói de Tetzavê: por uma vez, não ofuscado por Moisés.

“Quem é honrado?”, Perguntou Ben Zoma (Avot 4:1). “Aquele que honra os outros”. Aarão honrou seu irmão mais novo. É por isso que Moisés (não mencionado por nome mas por dedução) é solicitado na parashá desta semana: “Faça roupas sagradas para seu irmão Aarão, para lhe dar honra e esplendor” (Ex. 28:2). Até hoje um Cohen é honrado ao ser o primeiro a ser chamado para a Torá – a Torá que Moisés, irmão mais novo de Aarão, deu ao povo judeu.

A história de Aarão e Moisés, o quinto capítulo da história bíblica da fraternidade, é onde finalmente a fraternidade alcança as alturas. E isso certamente é o significado do Salmo 133, com sua referência explícita a Aarão e suas vestes sagradas: “Como é bom e agradável quando os irmãos vivem juntos em unidade! É como o óleo precioso derramado na cabeça, correndo para baixo, correndo para a barba de Aarão, correndo para cima da gola de suas vestes”. Foi graças a Aarão, e a honra que ele demonstrou a Moises, que irmãos aprenderam a viver juntos em unidade ao final.

 

Texto original: “WHO IS HONOURED?” por Rabino Jonathan Sacks.
Tradução Rachel Klinger Azulay para a Sinagoga Edmond J. Safra – Ipanema

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