VAERÁ

Posted on janeiro 7, 2018

VAERÁ

Livre Arbítrio: Use-o ou Perca-o

Na parashá Vaerá, lemos pela primeira vez, não o Faraó endurecendo seu coração, mas D-s o fazendo: “Eu endurecerei o coração do Faraó”, disse D-s a Moisés, “e multiplicarei meus sinais e maravilhas na terra do Egito” (Ex. 7:3). E, de fato, encontramos isso na sexta praga, furúnculos (Ex. 9:12), na oitava, gafanhotos (Ex. 10:1, 20) e na décima, primogênitos (Ex. 11:10). Em cada caso, o endurecimento é atribuído a D-s.

Daí o problema que perturbou os sábios e os comentaristas posteriores: se D-s foi a causa e o faraó apenas o Seu veículo passivo, qual foi o pecado dele? Ele não teve escolha, portanto nenhuma responsabilidade e, portanto, nenhuma culpa. Os comentaristas dão uma ampla gama de respostas. Primeira: a perda do livre arbítrio do faraó durante as últimas cinco pragas foi uma punição por sua obstinação nas cinco primeiras, onde ele agiu livremente (1). Segunda: o verbo utilizado, ch-z-k, não significa “endurecer”, mas “fortalecer”. D-s não tirou o livre arbítrio do Faraó, mas, pelo contrário, preservou-o diante dos desastres esmagadores que atingiam o Egito (2). Terceira: D-s é um parceiro em toda a ação humana, mas somente atribuímos um ato a D-s se parecer inexplicável em termos humanos comuns. O faraó atuou livremente todo o tempo, mas foi somente durante as últimas cinco pragas que seu comportamento foi tão estranho que foi atribuído a D-s (3).

Observe quão relutantes foram os comentaristas em considerar o texto em seu sentido literal – com razão, porque o livre arbítrio é uma das crenças fundamentais do judaísmo. Maimônides explica o porquê: se não tivéssemos livre arbítrio, não haveria, diz ele, nenhuma razão para os mandamentos e as proibições, já que nos comportaríamos como se tudo estivesse predestinado, independentemente de qual é a lei. Também não haveria justiça na recompensa ou na punição, já que nem o justo nem o malfeitor estariam livres para ser diferentes do que são (4).

Esse é um problema antigo (5). Mas tornou-se muito mais evidente nos tempos modernos por causa do crescente acúmulo de desafios para a crença na liberdade humana. Marx disse que a história é formada pelo movimento das forças econômicas. Freud argumentou que somos o que somos por causa de motivações inconscientes. Neodarwinianos dizem que, ainda que racionalizemos nosso comportamento, fazemos o que fazemos porque as pessoas que se comportaram dessa maneira no passado sobreviveram para entregar seus genes às futuras gerações. Mais recentemente, neurocientistas demonstraram, usando imagens por ressonâncias magnéticas funcionais, que em alguns casos nosso cérebro registra uma decisão até sete segundos antes que fiquemos conscientes dela (6).

Tudo isso é interessante e importante, mas os secularistas contemporâneos geralmente não conseguem ver o que os sábios antigos sabiam: se genuinamente não tivermos livre arbítrio, nosso inteiro senso do que é ser humano se desintegrará em poeira. Há uma contradição flagrante no coração de nossa cultura. Por um lado, os secularistas acreditam que nada deve restringir nossa liberdade de escolher fazer o que quisermos fazer, ou estarmos onde quisermos estar, desde que não prejudiquemos os outros. Seu valor supremo é a autonomia da escolha. Por outro lado, os secularistas nos dizem que a liberdade humana não existe. Por que, então, devemos invocar a liberdade de escolher como um valor se, de acordo com a ciência, trata-se de uma ilusão?

Se o determinismo rígido é verdadeiro, não há razão para honrar a liberdade ou criar uma sociedade livre. Pelo contrário: devemos abraçar o Brave New World de Aldous Huxley, onde as crianças são concebidas e incubadas em laboratórios, e os adultos programados para ficar felizes em um regime de drogas e prazer. Devemos implementar o cenário de The Clockwork Orange de Anthony Burgess, no qual os criminosos são reformados por cirurgia ou condicionamento cerebral. Se a liberdade não existe, por que nos incomodarmos com a natureza viciante dos jogos de computador e das mídias sociais? Por que preferir realidade genuína à realidade virtual? Foi Nietzsche que observou corretamente que, quanto maior as nossas realizações científicas, menor a nossa visão da pessoa humana. Não mais a imagem de D-s, nos tornamos simples algoritmos encarnados.

A verdade é que quanto mais entendemos sobre o cérebro humano, melhor podemos descrever o que é realmente liberdade de ação. Atualmente, os cientistas distinguem entre a amígdala, a parte mais primitiva do cérebro, condicionada para nos sensibilizar para o perigo potencial; o sistema límbico, às vezes chamado de “cérebro social”, que é responsável por grande parte de nossa vida emocional; e o córtex pré-frontal, que é analítico e capaz de pesar desapaixonadamente as consequências de escolhas alternativas. As tensões entre estes três formam a arena dentro da qual a liberdade pessoal é conquistada ou perdida.

Os padrões de comportamento são moldados por caminhos neurais ligando diferentes partes do cérebro, mas nem todos são bons para nós. Então, por exemplo, podemos recorrer a drogas, ter compulsão por comer ou buscar aventuras perigosas para nos distrair de alguns dos elementos infelizes – medos e ansiedades, por exemplo – que também fazem parte da arquitetura do cérebro. Quanto mais frequentemente fazemos isso, mais a mielina fica enclausurada no caminho, e mais rápido e instintivo fica o comportamento. Assim, quando mais frequentemente nos comportamos de certas maneiras, mais difícil é quebrar o hábito e criar um caminho novo e diferente. Fazer isso requer a aquisição de novos hábitos, atuando de forma consistente por um longo período de tempo. O pensamento científico atual sugere que seja necessário um mínimo de 66 dias para formar um novo hábito (8).

Então agora temos uma maneira científica de explicar o endurecimento que ocorre no coração do faraó. Tendo estabelecido um padrão de resposta às cinco primeiras pragas, ele teria progressivamente cada vez mais dificuldade de mudar, seja nos níveis neuro-científico, psicológico ou político. O mesmo se aplica a todos os maus hábitos e decisões políticas. Quase todas as nossas estruturas, mentais e sociais, tendem a reforçar os padrões de comportamento anteriores. Então nossa liberdade diminui sempre que não conseguimos exercitá-la.

Sendo assim, a parashá de hoje e a ciência contemporânea contam a mesma história: essa liberdade não é garantida, nem é absoluta. Temos que trabalhar para tê-la. Nós a adquirimos lentamente em etapas, e podemos perdê-la, como o faraó a perdeu, e como os viciados em drogas, viciados em trabalho e pessoas viciadas em jogos de computador perdem as deles. Em uma das linhas de abertura mais famosas de toda a literatura, Jean-Jacques Rousseau escreveu, no início de Contrato Social, que “o homem nasce livre e em todos os lugares está encarcerado”. Na verdade, o contrário é verdadeiro. Nosso caráter inicial é determinado em parte pelo DNA – a herança genética de nossos pais e dos deles – em parte por nossa casa e criação, em parte por nossos amigos (9), e em parte pela cultura que nos circunda. Não nascemos livres. Temos que trabalhar duro para alcançar a liberdade.

Isso requer rituais, cujo desempenho repetido cria novos caminhos neurais e novos comportamentos de resposta rápida. Isso requer uma certa distância calibrada da cultura à nossa volta, se não quisermos ser absortos por modismos sociais e modas que parecem libertadoras agora, mas destrutivas em retrospectiva. É necessário uma mentalidade que faz uma pausa antes de qualquer ação significativa e pergunta: “Devo fazer isso? Posso fazer isso? Quais as regras de conduta que devo manter?” Envolve uma narrativa internalizada de identidade, para que possamos perguntar em qualquer linha de ação: “É isso que eu sou e o que eu defendo?”

Não é por acaso que os elementos listados no parágrafo anterior são todas características proeminentes do judaísmo, que acaba por ser um seminário contínuo de força de vontade e controle de impulsos. Agora que estamos começando a entender a plasticidade do cérebro, sabemos pelo menos um pouco da neurociência que está por trás da capacidade de superar maus hábitos e vícios. Manter o Shabat, por exemplo, tem o poder de libertar-nos e a nossos filhos do vício dos smartphones e tudo mais que os acompanham. A religião cuja primeira festividade, Pessach, celebra a liberdade coletiva, nos dá, em seus rituais, as habilidades que precisamos para a liberdade pessoal.

A liberdade é mais uma conquista do que um presente. Mesmo um faraó, o homem mais poderoso do mundo antigo, poderia perdê-la. Mesmo uma nação de escravos poderia, com a ajuda de D-s, adquiri-la. Nunca considere a liberdade como garantida. Ela requer uma centena de pequenos atos de autocontrole diariamente, que é o que é a halachá, a lei judaica.

A liberdade é um músculo que precisa ser exercitado: use-o ou perca-o. Essa é uma ideia que transforma a vida.

 

NOTAS:
1) Essa é aproximadamente a posição de Maimônides, que argumenta que depois das cinco primeiras recusas, D-s “fechou a porta do arrependimento” ao Faraó. Veja Hilchot Teshuvá 5:2-3, 6:1-3.
2)Essa é a visão de Sforno para Ex. 7:3.
3) Essa é a visão de Samuel David Luzzatto para Ex. 7:3.
4) Maimônides, Hilchot Teshuvá, 5:4.
5) Isso também foi levantado por Aristóteles.
6) Veja https://www.nature.com/news/2008/080411/full/news.2008.751.html.
7) A amígdala e o sistema límbico são o que o Zohar e outros textos místicos judaicos chamam de nefesh ha-behamit, a “alma animal” dentro de nós.
8) Um livro recente facilmente acessível sobre o assunto é Loretta Graziano Breunin, Habits of a Happy Brain: Retrain Your Brain to Boost Your Serotonin, Dopamine, Oxytocin, & Endorphin Levels, Adams Media, 2016.
9) Veja Judith Harris, The Nurture Assumption, Free Press, 2009.

 

Texto original: “FREEWILL: USE IT OR LOSE IT” por Rabino Jonathan Sacks
Tradução Rachel Klinger Azulay para a Sinagoga Edmond J. Safra – Ipanema

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