VAYECHI

Posted on dezembro 28, 2017

VAYECHI

O Que nos Leva ao Perdão

José perdoa. Isso, como já discuti antes, foi um momento decisivo na história. Pois esse foi o primeiro ato de perdão registrado na literatura.

É importante aqui fazer uma distinção fundamental entre o perdão, que é característico da tradição judaico-cristã, e o apaziguamento da ira, que é uma característica humana universal. As pessoas estão constantemente prejudicando os outros, que então ficam irritados, indignados e “desrespeitados”. Se o ofensor não faz nada para afastar sua ira, eles se vingarão.

A vingança é uma forma de restaurar a ordem social, mas é muito onerosa e perigosa porque pode levar a um círculo de retaliação que não tem ponto de parada natural (1). Uma pessoa da minha família ofende uma de sua família (pense em Montagues e Capuletos, ou Corleones e Tattaglias), então alguém de sua família se vinga, uma da minha família deve retaliar por causa da honra da família, e assim acontece, às vezes por gerações. O custo geralmente é tão grande que é do interesse de todos encontrar uma maneira de parar o ciclo. Isso é universal. Existe em todos os grupos humanos, e também em outros não humanos (2).

A maneira geral de trazer esse tipo de conflito a um fim é o que os gregos antigos chamavam de sungnome, muitas vezes traduzido como “perdão”, mas que, na verdade – como David Konstan mostra em seu estudo magistral, Before forgiveness (3) – significa algo como desculpa, apaziguamento, uma vontade de fazer concessões, ou aceitar uma desculpa, ou conceder uma indulgencia. O resultado final é que a vítima renuncia à vingança. O agressor não se corrige. Em vez disso, ele ou ela argumenta buscando mitigar o assunto: eu não pude ajudar; não era tão ruim assim; é a natureza humana; eu fui levado a isso. Além disso, o infrator deve mostrar, em palavras ou linguagem corporal, alguma forma de humildade ou submissão.

Um exemplo clássico na Torá é a conduta de Jacob em relação a Esaú quando eles se reencontram depois de mais de vinte anos, período durante o qual Jacob estava na casa de Labão. Ele sabia que Esaú sentia-se injustiçado por ele e declarou sua intenção de se vingar depois do pai, Isaac, ter morrido. É por isso que Jacob fugiu. Quando se encontram de novo, Jacob não menciona o incidente anterior. Mas ele tenta apaziguar Esaú, enviando-lhe um enorme presente de gado, rebaixando-se, inclinando-se para ele sete vezes e chamando Esaú de “meu senhor” e a si mesmo de “seu servo”. Por sua parte, Esaú não menciona o episódio anterior, seja porque ele o tenha esquecido ou não mais o afeta, ou porque ele foi acalmado pela auto humilhação de Jacob. Isso não foi remorso e perdão, mas submissão e apaziguamento.

O que José faz em relação a seus irmãos é diferente. Primeiramente, quando ele se revela a eles, ele diz: “E agora, não se aflijam e não se irritem com vocês mesmos por terem me vendido para esse lugar, porque foi para salvar vidas que D-s me enviou antes de vocês” (Gen. 45:5). Isso parece perdão, mas como a parashá desta semana deixa claro, não é necessariamente isso. A palavra “perdão” não é usada. E os irmãos podem ter assumido que, como no caso de Esaú, José pretendia vingar-se, mas não durante a vida de seu pai. Isso é o que provoca o drama no final da parashá desta semana:

“Quando os irmãos de José viram que o pai deles estava morto, eles disseram: ‘E se José estiver com rancor contra nós e nos faça pagar por todos os erros que cometemos com ele?’ Então eles enviaram uma mensagem a José, dizendo: ‘Seu pai deixou estas Instruções antes de morrer: ‘Isto é o que você vai dizer a José: Por favor, perdoe os erros e o pecado que seus irmãos cometeram ao tratar-lhe tão mal’. Agora, por favor perdoe os pecados dos servos do D-s de seu pai’” (Gen. 50:15-17).

Esta foi a resposta de José:

“E José disse a eles: ‘Não tenham medo. Estarei eu no lugar de D-s? Vocês pretenderam me prejudicar, mas D-s pretendeu que fosse para o bem, para atingirmos o que está sendo feito agora, a salvação de muitas vidas. Então, não tenham medo. Eu darei provisões para vocês e seus filhos’. E ele os tranquilizou e falou gentilmente com eles” (Gen. 50:19-21).

Isso é perdão. José não usa a palavra, mas ele deixa claro que renuncia a todo pensamento de vingança. O que está acontecendo aqui e por que isso não aconteceu em outras culturas? Essa é uma das características mais fascinantes do judaísmo, e a razão pela qual fez tamanha diferença para o mundo ao final.

Observe o que deve acontecer para o nascimento do perdão. Primeiro, José se engaja em um plano elaborado, escondendo sua identidade, para assegurar-se que os irmãos fossem capazes de remorso e expiação. Isso acontece em seu primeiro encontro no Egito, quando ele os acusa de serem espiões, e eles dizem em sua presença – sem saberem que ele podia entendê-los – “Certamente somos culpados por causa de nosso irmão. Nós vimos o quão angustiado ele estava quando ele pediu a nós por sua vida, mas não queríamos ouvir; É por isso que essa angústia veio sobre nós” (Gen. 42:21). Eles sabem que cometeram um erro. Eles reconhecem sua culpa.

Em segundo lugar, José providencia um julgamento que irá testar se Judá, o irmão que propôs vendê-lo para a escravidão, é de fato uma pessoa mudada. Ele trouxe Benjamim diante dele com uma acusação falsa, e está prestes a pegá-lo como seu escravo quando Judá intervém e se oferece para tornar-se escravo em lugar de Benjamin, para que este possa sair livre. Isso é o que os sábios e Maimônides definiram como arrependimento completo, ou seja, você mudou tanto que você agora é uma pessoa diferente. Esses dois elementos nos dizem o que mudou nos irmãos para que eles, os malfeitores, possam ser perdoados.

Há também uma mudança em José, como observamos no texto da semana passada. Ele reformulou sua vida, de modo que toda a história de seu relacionamento com seus irmãos agora se tornou completamente secundária ao drama da providência Divina que ainda está se desenrolando. Como ele explica: “Vocês pretenderam me prejudicar, mas D-s quis isso para o bem”. Isso é o que permite que a vítima, José, perdoe.

Esses, porém, são detalhes. O que é absolutamente fundamental é que o judaísmo representa, pela primeira vez na história, uma moral de culpa, ao invés de vergonha. No passado, exploramos alguns dos elementos que tornaram isso possível. No início deste ano, falamos da diferença entre as culturas dirigidas-pela-tradição e – o que o chamado para Abraão inicia – dirigidas-pelo-interior. Os indivíduos dirigidos-pela-tradição, quando quebram as regras, sentem vergonha. Personalidades dirigidas-pelo-interior sentem culpa.

Nós também falamos sobre a diferença entre culturas dos olhos e dos ouvidos. As culturas visuais são quase sempre culturas de vergonha. Vergonha é o que você sente quando imagina outras pessoas vendo o que você está fazendo. O primeiro instinto quando você sente vergonha é tentar se esconder ou desejar ser invisível (5). Nas culturas de audição, no entanto, a moral é representada por uma voz interior, a voz da culpa, da qual você não pode se esconder, mesmo que seja invisível para o mundo.

A principal diferença entre as duas é que, nas culturas de vergonha, as faltas são como uma mancha na pessoa. Daí o único meio de ser reabilitado é ter a mancha coberta de alguma forma (o significado, como observamos, do verbo k-p-r). Você faz isso apaziguando a vítima do seu erro, de modo que, na pratica, ele “finge que não viu” o que você fez. Seu ressentimento, indignação e desejo de vingança foram apaziguados.

No entanto, em culturas de culpa, existe uma distinção fundamental entre a pessoa e seus atos. O ato foi errado, não a pessoa. Isso é o que torna possível o perdão. Eu o perdoo porque, quando você admite que cometeu um erro, expressa remorso e faz tudo o que pode para acertar as coisas, especialmente quando eu vejo isso, quando dada a oportunidade (como foi para Judá) de repetir o crime, você não o faz, porque mudou, então eu vejo que você se distanciou de sua ação. O perdão significa que eu reafirmo fundamentalmente o seu valor como pessoa, apesar do fato de nós dois sabermos que seu ato foi errado (6).

O perdão existe em culturas de justiça-e-culpa. Não existe em culturas de honra-e-vergonha como as da Grécia antiga e da Roma pré-cristã.

A cultura contemporânea no Ocidente, muitas vezes pensada pelos secularistas como moralmente superior à ética da Bíblia hebraica, é de fato – para o bem ou para o mal – uma regressão à Grécia e Roma pré-cristãs. É por isso que, hoje em dia, as pessoas encontradas tendo feito algo errado, são publicamente envergonhadas. Exemplos não são necessários: eles abundam nas notícias diárias. Em uma cultura de vergonha, a principal coisa a fazer é não ser descoberto, porque, uma vez que você seja, não há caminho de volta. Não há lugar em tal cultura para o perdão. Na melhor das hipóteses você procura apaziguar. Como na Grécia antiga, o culpado argumenta: “Não pude evitar isso; não foi tão ruim assim; é a natureza humana; Eu fui levado a isso”. Eles passam por algum ritual de auto rebaixamento. Finalmente, eles esperam, não que as pessoas perdoem, mas que esqueçam. Esse é um tipo feio de cultura.

E é por isso que o judaísmo continua a ser a alternativa eterna. O que importa não é a aparência externa, mas a voz interior. E quando fazemos algo errado, como todos fazemos, há um caminho a seguir: confessar, expressar remorso, corrigir-se, acertar as coisas e, como Judá, mudar. A saber que, por mais erradas que sejam nossas ações, “a alma que Você me deu é pura”, e, se trabalharmos duro o bastante em nós mesmos, podemos ser perdoados. Isso é habitar uma cultura de graça e esperança. E essa é uma ideia que muda a vida.

 

NOTAS
1) Rene Girard, em Violence and the Sacred, argumenta que a religião nasceu na tentativa de encontrar uma maneira de parar ciclos de retaliação e vingança.
2) Ver Frans de Waal, Peacemaking among primates, Harvard University Press, 1989.
3) David Konstan, Antes do perdão: as origens de uma ideia moral, Cambridge University Press, 2010.
4) Observe que a palavra que Jacob usa para si mesmo (Gen. 32:21) vem do verbo k-p-r que mais tarde será usado em Levíticos para significar expiação, e é a fonte da frase Yom Kipur. Significa literalmente “cobrir sobre”. É o que Noé faz quando ele cobre a arca com piche (Gen. 6:14). Também significa um resgate (Num. 35:32), como algo que pode ser pago para compensar uma família pelo assassinato de um de seus membros, algo proibido na lei judaica.
5) Foi o que eu sugeri que estava em jogo no Jardim do Éden, totalmente relacionado com vergonha e esconder. Adão e Eva seguiram seus olhos em vez de seus ouvidos.
6) Note que, em certas culturas, o perdão não requer remorso, expiação e coisas do gênero. O próprio Maimônides diz (Hilchot Deot 6:9) que se você considerar a pessoa que o prejudicou como incapaz de lidar com a crítica, então você pode perdoá-la unilateralmente. Note, no entanto, que esse tipo de perdão não indica que você reafirma o valor moral da pessoa que você perdoa. Pelo contrário, você considera que ela está aquém do desprezo. O judaísmo parece ter sempre sabido disso. O teólogo cristão que entendeu melhor foi Dietrich Bonhoeffer, que o chamou de “graça ordinária”.

 

Texto original: “WHAT IT TAKES TO FORGIVE”- por Rabino Jonathan Sacks
Tradução Rachel Klinger Azulay para a Sinagoga Edmond J. Safra – Ipanema

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