VAYECHI

Posted on janeiro 10, 2017

VAYECHI

Tempo Judaico

Uma parceria da Sinagoga Edmond J. Safra – Ipanema com o escritório do Rabino Jonathan Sacks (The Office of Rabbi Sacks)

Diferentes culturas contam histórias diferentes. Os grandes romancistas do século XIX escreveram ficção essencialmente sobre ética. Jane Austen e George Eliot exploraram a conexão entre caráter e felicidade. Há uma continuidade palpável entre o seu trabalho e o livro de Ruth. Dickens, mais na tradição dos profetas, escreveu sobre a sociedade e suas instituições, e a maneira em que elas podem deixar de honrar a dignidade humana e a justiça.

Em contraste, o fascínio com histórias como Star Wars ou Senhor dos Anéis é visivelmente dualista. O cosmos é um campo de batalha entre as forças do bem e do mal. Isso está muito mais próximo da literatura apocalíptica da seita de Qumran e dos pergaminhos do Mar Morto do que qualquer coisa do Tanach, a Bíblia hebraica. Nessas narrativas de conflitos antigos e modernos, a luta está “lá fora” ao invés de “aqui”: no cosmos, e não dentro da alma humana. Isso está mais próximo do mito do que do monoteísmo.

Há, no entanto, uma forma de história que é muito rara, da qual o Tanach é o exemplo supremo. É a história sem um fim; que olha para a frente para um futuro em aberto ao invés de chegar a um final. Isso desafia a narrativa convencional. Normalmente esperamos que uma história crie uma tensão que é resolvida na página final. Isso é o que dá para a arte um sentido de conclusão. Não esperamos que uma escultura seja incompleta, que um poema pare antes do final, que um romance seja interrompido terminando no meio. A Sinfonia Inacabada de Schubert é a exceção que prova a regra.

No entanto, isso é o que a Bíblia faz repetidamente. Considere o Chumash – os cinco livros de Moises. A história judaica começa com uma repetida promessa a Abraão de que herdará a terra de Canaã. No entanto, quando chegamos ao final de Deuteronômio, os israelitas ainda não atravessaram o Jordão. O Chumash termina com a cena pungente de Moisés no Monte Nebô (na atual Jordânia) vendo a terra – pela qual ele viajou por quarenta anos, mas está destinado a não entrar – de longe.

Neviím, a segunda parte do Tanach, termina com Malaquias prevendo o futuro distante, entendido pela tradição como sendo a era messiânica:

“Veja, Eu vos enviarei o profeta Elias antes da vinda do grande e impressionante dia do Senhor. Ele converterá o coração dos pais aos seus filhos, e os corações dos filhos aos seus pais…”

Neviím, que inclui tanto os grandes livros históricos como os proféticos, não conclui no presente nem no passado, mas olhando para frente; para um tempo ainda não alcançado. Ketuvim, a terceira e última seção, termina com o rei Ciro da Pérsia dando permissão aos exilados judeus na Babilônia para retornar à sua terra e reconstruir o Templo.

Nenhum desses é um final no sentido convencional. Cada um nos deixa com um sentimento de uma promessa ainda não cumprida, uma tarefa ainda não concluída, um futuro visto de longe, mas ainda não alcançado. E o caso paradigmático – o modelo em que todos os outros se baseiam – é o final de Bereshit na parashá desta semana.

Lembre-se que a história do povo da aliança começa com o chamado de D-s a Abraão para deixar sua terra, seu lugar de nascimento e a casa de seu pai e viajar “para uma terra que eu vou lhe mostrar”. No entanto, logo que ele chega é forçado a ir para o Egito, por causa da escassez de alimentos. Esse é o destino repetido por Jacob e seus filhos. Gênesis termina não com a vida em Israel, mas com uma morte no Egito:

Então disse José a seus irmãos: “Estou prestes a morrer. Mas D-s certamente virá em seu auxílio e os levará desta terra para a terra que Ele prometeu por juramento a Abraão, Isaac e Jacob”. Então José fez os filhos de Israel jurarem e dizerem: “D-s certamente virá para seu auxílio, e então vocês deve levar meus ossos para fora deste lugar”. Assim José morreu na idade de cento e dez anos. E depois que o embalsamaram ele foi colocado num caixão no Egito.

Mais uma vez, uma esperança ainda não realizada, uma viagem ainda não terminada, um destino além do horizonte.

Existe alguma conexão entre essa forma de narrativa e o tema com o qual a história de José termina, qual seja, o perdão?

Devemos à Hannah Arendt em seu trabalho “A condição humana” uma profunda visão sobre a conexão entre o perdão e o tempo. A ação humana, ela argumenta, é potencialmente trágica. Nós nunca podemos prever as consequências de nossos atos, mas uma vez realizados, eles não podem ser desfeitos. Sabemos que aquele que age nunca sabe muito bem o que está fazendo, que se torna sempre “culpado” de consequências que ele nunca quis ou mesmo previu, que não importa quão desastrosas sejam as consequências de sua ação, nunca poderá desfazê-la… Tudo isso é razão suficiente para virar-se para o desespero do reino dos assuntos humanos e segurar-se no desprezo da capacidade humana para a liberdade.

O que transforma a situação humana de tragédia em esperança, ela argumenta, é a possibilidade do perdão:

Sem sermos perdoados, liberados das consequências do que fizemos, nossa capacidade de agir seria, por assim dizer, confinada a um único ato do qual nunca poderíamos nos recuperar… Perdoar, em outras palavras, é a única reação que não se restringe a re-agir, mas agir de novo e inesperadamente, incondicionada pelo ato que a provocou e, portanto, liberando de suas consequências tanto quem perdoa quanto quem é perdoado.

A expiação e o perdão são as expressões supremas da liberdade humana – a liberdade de agir de maneira diferente no futuro do que se fez no passado e a liberdade de não ser aprisionado num ciclo de vingança e retaliação. Somente aqueles que podem perdoar podem ser livres. Somente uma civilização baseada no perdão pode construir um futuro que não seja uma repetição interminável do passado. É certamente por isso que o judaísmo é a única civilização cuja época de ouro está no futuro.

Foi com esse conceito revolucionário do tempo – baseado na liberdade humana – que o judaísmo contribuiu para o mundo. Muitas culturas antigas acreditavam no tempo cíclico, no qual todas as coisas retornam ao seu início. Os gregos desenvolveram um sentido de tempo trágico, no qual o navio dos sonhos está destinado a naufragar quando bate de encontro às duras rochas da realidade. A Europa do Iluminismo introduziu a ideia do tempo linear, com seu primo próximo, o progresso. O judaísmo acredita no tempo da aliança, bem descrito por Harold Fisch: “A aliança é uma condição da nossa existência no tempo… Cooperamos com os seus propósitos, nunca sabendo muito bem para onde nos levará, pois ‘a prontidão é tudo’”. Numa frase encantadora, ele fala da imaginação judaica conforme moldada pela “memória inabalável de um futuro ainda a ser cumprido”.

A tragédia dá origem ao pessimismo. O tempo cíclico leva à aceitação. O tempo linear gera otimismo. O tempo da aliança dá origem à esperança. Essas não são apenas emoções diferentes. São modos radicalmente diferentes de se relacionar com a vida e o universo. Eles estão expressos nos diferentes tipos de histórias que as pessoas contam. O tempo judaico sempre enfrenta um futuro aberto. O último capítulo ainda não está escrito. O Messias ainda não chegou. Até então, a história continua – e nós, juntamente com D-s, somos seus coautores.

 

Texto original: “JEWISH TIME” por Rabino Jonathan Sacks.
Tradução Rachel Klinger Azulay para a Sinagoga Edmond J. Safra – Ipanema

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