VAYERÁ

Posted on outubro 31, 2017

VAYERÁ

O Espaço Entre Nós

As histórias contadas nos capítulos 21 e 22 de Bereshit – o envio de Ismael e o sacrifício de Isaac – estão entre as mais difíceis de entender em todo o Tanach. Ambas envolvem ações que nos parecem quase insuportavelmente duras. Mas as dificuldades que elas apresentam são ainda mais profundas do que isso.

Lembre-se que Abraão foi escolhido “para que instruísse seus filhos e sua descendência para manter o caminho do Senhor fazendo o que é certo e justo”. Ele foi escolhido para ser um pai. As duas primeiras letras de seu nome, Av, significam exatamente isso. Avram significa “um pai poderoso”. Avraham, diz a Torá, significa “um pai de muitas nações”.

Abraão foi escolhido para ser um modelo de pai. Mas como um homem que baniu seu filho Ismael, enviando-o com sua mãe Hagar para o deserto, onde eles quase morreram, pode ser pensado como um pai exemplar? E como um homem que estava disposto a sacrificar seu filho Isaac poderia ser um modelo para as gerações futuras?

Essas não são perguntas sobre Abraão. São perguntas sobre a vontade de D-s. Pois não era Abraão quem queria enviar Ismael para longe. Pelo contrário, “Abraão ficou muito aflito”, porque Ismael era seu filho (Gen. 21:11). Foi D-s quem lhe disse para ouvir Sarah e mandar a criança para longe.

Nem foi Abraão quem queria sacrificar Isaac. Foi D-s quem lhe disse para fazer isso, referindo-se a Isaac como “seu filho, seu único, aquele a quem você ama” (Gen. 22:2). Abraão estava agindo, em ambas as ocasiões, contra suas emoções e seus instintos paternos. O que a Torá está nos falando sobre a natureza da paternidade? De fato, parece muito difícil traçar uma mensagem positiva desses eventos (Há uma outra pergunta: por que D-s disse a Abraão que tratasse Ismael e Isaac de forma diferente? Eu lido com essa pergunta nas próximas semanas na Parashá Toledot).

Há um problema ainda mais profundo, e está insinuado nas palavras que D-s falou a Abraão ao convocá-lo para o sacrifício de seu filho: “Pegue seu filho, seu único filho, aquele a quem você ama – Isaac – e vá [lech lechá] para a região de Moriá. Ofereça-o lá como um holocausto em uma montanha que eu vou lhe mostrar”. Essas palavras inevitavelmente nos lembram da primeira convocação de D-s: “Sai [lech lechá] da sua terra, do seu lugar de nascimento e da casa do seu pai” (Gen. 12:1). Esses são os únicos dois lugares nos quais esta frase ocorre na Torá. O último teste de Abraão ecoou o primeiro.

Mas note que o primeiro teste significou que Abraão teve que abandonar seu pai, parecendo como se estivesse negligenciando seus deveres como filho (1). Então, seja como um pai para seus filhos ou como um filho para seu pai, Abraão foi ordenado a agir de maneiras que parecem exatamente o oposto do que esperaríamos e como deveríamos nos comportar.

Isso é muito estranho para ser acidental. Há um mistério aqui para ser descodificado.

A barreira à nossa compreensão desses eventos reside no abismo do tempo entre a época e agora. Abraão, como pioneiro de um novo tipo de fé e modo de vida, estava instituindo uma nova forma de relacionamento entre as gerações. Essencialmente, o que estamos vendo nesses eventos é o nascimento do indivíduo.

Nos tempos antigos, e na antiguidade da Grécia e de Roma, a unidade social básica não era o indivíduo, mas a família. Os rituais religiosos eram realizados ao redor do fogo no lar da família, com o pai servindo de sacerdote, oferecendo sacrifícios, libações e feitiços aos espíritos de antepassados ​​mortos. O poder do pai era absoluto. As esposas e as crianças não tinham direitos e nenhuma personalidade legal independente. Elas eram meras propriedades e podiam ser mortas pelo chefe da casa caso tivesse vontade. Cada família tinha seus próprios deuses, e o pai era o único intermediário com os espíritos ancestrais, a quem um dia se uniria. Não havia indivíduos no sentido moderno. Havia apenas famílias, sob a regra absoluta de sua cabeça masculina.

A Torá foi uma ruptura radical de toda essa mentalidade. A antropóloga Mary Douglas aponta que a Torá era singular no mundo antigo, sem providenciar sacrifícios aos antepassados ​​mortos e proibindo a tentativa de se comunicar com os espíritos dos mortos (2).

O monoteísmo era mais do que simplesmente a crença em um D-s. Pelo fato de cada ser humano ser à Sua imagem, e porque cada um poderia ter relação direta com Ele, o indivíduo de repente passou a ter importância – não apenas os pais, mas também as mães, e não apenas os progenitores, mas também os filhos. Já não estavam fundidos em uma única unidade, com uma única vontade controladora. Cada um deles se tornaria pessoa por direito próprio, com sua própria identidade e integridade (3).

Tais mudanças não acontecem da noite para o dia, e elas não ocorrem sem dolorosos deslocamentos. Isso é o que está acontecendo nos dois lados da história de Abraão. No início de sua missão, Abraão foi convidado a separar-se de seu pai e, chegando ao seu final, foi-lhe dito que se separasse, de maneiras diferentes, de cada um de seus dois filhos. Esses episódios dolorosos representam as agonizantes dores do parto de uma nova maneira de pensar sobre a humanidade.

Primeiro separe, depois conecte-se. Essa parece ser a maneira judaica. Foi assim que D-s criou o universo, primeiro separando os domínios – dia e noite, águas superiores e inferiores, mar e terra seca -, permitindo então que fossem preenchidos. E é assim que criamos relacionamentos com pessoais reais, ao separar e deixar espaço para o outro. Os pais não devem procurar controlar os filhos. Os cônjuges não devem procurar controlar uns aos outros. É a distância, cuidadosamente calibrada entre nós, onde o relacionamento permite que cada parte cresça.

Em seu recente livro sobre os heróis esportivos, The Greatest, Matthew Syed observa quão importante é o encorajamento dos pais para fazer campeões, mas ele acrescenta:

Soltando-os – esse é o paradoxo essencial da paternidade. Você se importa, você nutre, você se sacrifica, e então você vê como os pequenos voam para o grande desconhecido, muitas vezes gritando recriminações na partida. Você experimentará a dor apertada do estômago da separação, mas você faz isso com um sorriso e um abraço, consciente de que o desejo de proteger e amar nunca deve se transformar na tirania da superproteção (4).

É esse drama da separação que Abraão representa simbolicamente em seu relacionamento tanto com seu pai quanto com seus dois filhos. Nesse momento transformador do mundo do nascimento do indivíduo, D-s ensina-lhe a delicada arte de dar espaço, sem a qual nenhuma individualidade verdadeira pode crescer.

Nas adoráveis ​​palavras do poeta irlandês John O’Donohue, nosso desafio é: “Abençoar o espaço entre nós” (5).

 

NOTAS:
1) Veja Rashi para Gen. 11:32.
2) Mary Douglas, Leviticus as Literature, Oxford University Press, 1999.
3) Veja Peter Berger, The Sacred Canopy, Doubleday, 1967, 117, onde ele fala sobre “homens altamente individualizados” (e mulheres) que “povoam as páginas do Antigo Testamento até um grau único na literatura religiosa antiga”.
4) Matthew Syed, The Greatest: the quest for sporting perfection, London, John Murray, 2017, 9
5)John O’Donohue, To Bless the Space Between Us, Doubleday, 2008.

 

Texto original: “THE SPACE BETWEEN US” – por Rabino Jonathan Sacks
Tradução Rachel Klinger Azulay para a Sinagoga Edmond J. Safra – Ipanema

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