VAYESHEV

Posted on dezembro 21, 2016

VAYESHEV

Qual o Tema das Histórias do Gênesis?

Uma parceria da Sinagoga Edmond J. Safra – Ipanema com o escritório do Rabino Jonathan Sacks (The Office of Rabbi Sacks)

Uma das perguntas mais fundamentais sobre a Torá se revela como uma das mais difíceis de ser respondida. Qual é o princípio religioso básico que está sendo ensinado do chamado de D-s a Abraão em Gênesis 12 até a morte de José em Gênesis 50? O que todo o conjunto de histórias sobre Abraão, Isaac, Jacob e suas esposas, juntamente com os filhos e a filha de Jacob, realmente nos dizem? Abraão trouxe o monoteísmo a um mundo que o tinha esquecido, mas onde vemos isso no próprio texto da Torá?

Eis aqui o problema. Os primeiros onze capítulos de Gênesis nos ensinam muitos fundamentos da fé: que D-s criou o universo e o declarou bom; que D-s fez a pessoa humana à Sua imagem; que D-s nos deu liberdade e, portanto, a habilidade de fazer não só o bem, mas também o mal; que o bem é recompensado, o mal é punido e que somos moralmente responsáveis ​​por nossas ações. Os capítulos 8 e 9 também nos dizem que D-s fez uma aliança com Noé e através dele com toda a humanidade.

É igualmente fácil dizer o que o resto da Torá, de Êxodo a Deuteronômio, nos ensina: que D-s salvou os israelitas da escravidão, colocando-os no caminho da liberdade e da Terra Prometida; Que D-s fez uma aliança com o povo como um todo no Monte Sinai, com seus 613 mandamentos e seu propósito, para estabelecer Israel como um reino de sacerdotes e uma nação santa. Em suma, Gênesis 1-11 trata da criação. Êxodo a Deuteronômio trata da revelação e da redenção. Mas do que trata Gênesis 12-50?

Abraão, Isaac e Jacob todos reconhecem D-s. Mas também os não-judeus como Malkitzedek, o contemporâneo de Abraão, descrito como “sacerdote mais elevado de D-s” (14:18). Assim também o faraó dos dias de José, que diz a seu respeito: “Pode haver outra pessoa que tenha o espírito de D-s nele como este homem?” (41:38). D-s fala a Abraão, Isaac e Jacob, mas faz o mesmo com Avimelech, rei de Gerar (Gen. 20:3-7), e com Labão (31:24). Então o que há de especial nos patriarcas?

Eles parecem não ensinar nenhum novo princípio de fé. Além de nascimento de crianças e resgate de perigos, D-s não realiza milagres transformadores do mundo através deles. Eles não entregam nenhuma profecia ao povo de sua geração – além de uma dica ambígua quando a Torá diz que Abraão levou com ele em sua jornada “as almas que haviam reunido” (12:5), que pode se referir as conversões que ele tinha realizado, mas pode igualmente se referir apenas aos seus servos – eles não atraíram discípulos. Não há nada explícito no texto que diga que eles tentaram persuadir as pessoas da verdade do monoteísmo ou que lutaram contra a idolatria. No máximo, há uma história sobre como Rachel roubou os terafins de seu pai (31:19), que podem ou não ter sido ídolos.

Certamente um tema persistente das histórias patriarcais são as duas promessas que D-s fez a cada um deles: a) que eles teriam muitos descendentes e; b) eles herdariam a terra de Canaã. Mas D-s também fez promessas a Ismael e Esaú, e a Torá parece sair de seu caminho para nos dizer que essas promessas foram cumpridas para eles antes que fossem cumpridas para os filhos da aliança (ver Gen. 25:12-18. O relato dos filhos de Ismael, e Gen. 36 para os de Esaú). Sobre os filhos de Esaú, por exemplo, diz: “Estes são os reis que governaram na terra de Edom antes que qualquer rei reinasse sobre os israelitas” (36:31).

Então a pergunta é real e intrigante. O que havia de diferente a respeito dos patriarcas? Que novidade eles trouxeram para o mundo? Que diferença fez o monoteísmo naquela época?

Há uma resposta, mas é inesperada. Um tema aparece não menos de seis (possivelmente até sete) vezes. Sempre que um membro da família da aliança deixa seu próprio espaço e entra no mundo mais amplo de seus contemporâneos, eles encontram um mundo de liberdade sexual para todos.

Três vezes Abraão (Gen. 12 e 20) e Isaac (Gen. 26) são forçados a sair de casa por causa da época de escassez de alimentos. Duas vezes eles vão para Gerar. Uma vez Abraão vai para o Egito. Em todas as três ocasiões o marido teme ser morto para que o governante local possa levar sua esposa para o seu harém. Todas as três vezes eles apresentaram a história de que sua esposa é na verdade sua irmã. Na pior das hipóteses isso é uma mentira; na melhor, uma meia-verdade. Em todos os três casos, o governante local (Faraó, Avimelech) protesta contra seu comportamento quando a verdade se torna conhecida. Claramente o medo da morte era real ou os patriarcas não os teriam enganado.

No quarto caso, Lot em Sodoma (Gen. 19), as pessoas se aglomeraram em torno da casa de Lot, exigindo que ele trouxesse seus dois visitantes para que pudessem ser estuprados. Lot lhes oferece suas filhas virgens. Somente pela ação rápida dos visitantes – anjos – que ferem as pessoas com cegueira, Lot e sua família são salvos da violência.

No quinto caso (Gen. 34), Shechem, um príncipe local, raptou e estuprou Diná quando ela “saiu para visitar algumas das moças locais”. Ele a mantém como sua refém, fazendo com que Simão e Levi enganem e derramem sangue para resgatá-la.

Então ocorre um caso marginal (Gen. 38), a história de Judá e Tamar, mais complexa do que as outras e não parte do padrão geral. Finalmente, há o sexto episódio, na parashá desta semana, quando a esposa de Potifar tenta seduzir José. Falhando, ela o acusa de estupro, o que levou a seu aprisionamento.

Em outras palavras, há um tema contínuo em Gênesis 12-50, um contraste entre o povo da aliança de Abraão e seus vizinhos, mas não é sobre idolatria, mas sim sobre adultério, promiscuidade, liberdade sexual, sedução, estupro e violência sexual motivada.

A narrativa patriarcal é surpreendentemente próxima da visão de Freud, de que eros é um dos dois impulsos primitivos (o outro é thanatos, o instinto de morte) que governam o comportamento humano; e a visão de pelo menos um psicólogo evolucionista (David Buss, em seu livro The Evolution of Desire e The Murderer Next Door) que o sexo é a principal causa de violência entre os seres humanos.

Isso nos dá uma maneira inteiramente nova de pensar sobre a fé abraâmica. Emuná, a palavra hebraica normalmente traduzida como fé, não significa como é descrita nos dicionários: um corpo de dogmas, um conjunto de princípios ou um conjunto de crenças frequentemente mantidas em bases não-racionais. Emuná significa fidelidade, lealdade, honrar compromissos, fazer o que você disse que faria e agir de modo a inspirar confiança. Tem a ver com relacionamentos, principalmente com o casamento.

O sexo pertence, para a Torá, ao contexto do casamento, e é o casamento que mais se aproxima das profundas ressonâncias da ideia bíblica da aliança. Uma aliança é um ato mútuo de compromisso em que duas pessoas, honrando suas diferenças, respeitando a dignidade do outro, se unem em um laço de amor para unir seus destinos e traçar um futuro juntos. Quando os profetas querem falar da relação da aliança entre D-s e Seu povo, eles constantemente usam a metáfora do casamento.

O D-s de Abraão é o D-s do amor e da confiança que não impõe sua vontade pela força ou violência, mas fala suavemente a nós, convidando para uma resposta de amor e confiança. O argumento de Gênesis contra a idolatria – tanto mais impressionante por ser contada obliquamente, através de uma série de histórias e vinhetas – é que ele leva a um mundo no qual a combinação de desejo sexual não controlado, a ausência de um código de autocontrole e a adoração do poder, leva finalmente à violência e ao abuso.

A violência doméstica e os abusos ainda existem hoje, mesmo entre os judeus religiosos, sendo uma desgraça e uma fonte de vergonha. Contra isso está o testemunho de Gênesis de que a fidelidade a D-s significa e exige fidelidade aos nossos parceiros de casamento. A fé – entre nós e D-s ou entre nós e nossos semelhantes humanos – significa amor, lealdade e a circuncisão do desejo.

O que as histórias dos patriarcas e matriarcas nos dizem é que a fé não é proto – ou pseudociência, uma explicação de por que o universo natural é como é. É a linguagem do relacionamento e a coreografia do amor. Trata-se da importância do vínculo moral, em particular porque afeta nossas relações mais íntimas. A sexualidade é importante para o judaísmo, não por puritanismo, mas porque representa o amor que traz uma nova vida ao mundo.

Quando uma sociedade perde a fé, eventualmente perde a própria ideia de uma ética sexual, e o resultado, a longo prazo, é a violência e a exploração dos impotentes pelos poderosos. As mulheres sofrem. As crianças sofrem. Há uma divisão da confiança onde mais importa. Assim foi nos dias dos patriarcas. Infelizmente, assim é hoje. O judaísmo, por outro lado, é a santificação da relação, o amor entre marido e mulher, que é o mais próximo que poderemos jamais chegar no entendimento do amor de D-s por nós.

 

Texto original: “WHAT IS THE THEME OF THE STORIES OF GENESIS?” por Rabino Jonathan Sacks.
Tradução Rachel Klinger Azulay para a Sinagoga Edmond J. Safra – Ipanema

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