VAYESHEV

Posted on dezembro 5, 2017

VAYESHEV

Términos Improváveis ​​e Derrota Do Desespero

Vivemos a vida olhando para frente, mas nós a entendemos somente quando olhamos para trás.

À medida que vivemos de um dia para o outro, nossa vida pode parecer uma sequência sem sentido de eventos aleatórios, uma série de acidentes e situações que não têm forma ou lógica em si. Um engarrafamento nos atrasa para uma reunião importante. Uma observação mal colocada ofende alguém de uma maneira que nunca pretendíamos. Por um fio de cabelo, não conseguimos o trabalho que procurávamos. A vida como a experimentamos pode às vezes parecer como a definição de história de Joseph Heller: “uma sacola de coincidências aleatórias abertas ao vento”.

No entanto, quando olhamos para trás começa a fazer sentido. A oportunidade que perdemos leva a algo ainda melhor. A vergonha que sentimos em nossa observação involuntariamente ofensiva nos faz mais cuidadosos no que dizemos no futuro. Nossos fracassos, vistos em retrospectiva, muitos anos depois, acabam por se tornar nossas mais profundas experiências de aprendizado. Nossa retrospectiva é sempre mais perceptiva do que a nossa previsão. Vivemos a vida de frente para o futuro, mas entendemos a vida somente quando se tornou nosso passado.

Em nenhum lugar isso é estabelecido com maior clareza do que na história de José na parashá desta semana. Começa com uma menção elogiosa: “Agora, Israel amava mais a José do que a todos os seus filhos, porque ele era um filho de sua idade avançada, e ele lhe fez uma túnica finamente bordada”. Mas com velocidade dramática, esse amor e esse presente tornam-se a destruição de José. Seus irmãos começaram a odiá-lo. Quando ele lhes contou o seu sonho, o odiaram ainda mais. Seu segundo sonho ofendeu até o pai. Mais tarde, quando ele foi ver seus irmãos cuidarem de seus rebanhos, eles primeiro conspiraram para matá-lo, e ao final o venderam como escravo.

No início, na casa de Potifar, ele parecia ter sido favorecido pela sorte. Mas a esposa do seu senhor tentou seduzi-lo e quando ele recusou seus avanços, ela o acusou de tentativa de estupro e ele foi enviado à prisão sem nenhuma chance de provar sua inocência. Ele parecia ter atingido o fundo do poço. Não havia como cair mais.

Então veio um inesperado raio de esperança. Interpretando o sonho de um companheiro prisioneiro, que já havia sido o copeiro do faraó, ele previu sua libertação e retorno ao seu antigo importante cargo. E assim aconteceu. José pediu apenas uma coisa em troca: “Lembre-se de mim quando estiver bem, e mostre-me bondade: mencione-me ao faraó e me tire para fora deste lugar. Pois fui levado à força da terra dos hebreus, e aqui também não fiz nada para merecer ser colocado neste poço”.

A última linha da parashá é um dos golpes mais cruéis do destino na Torá: “O chefe dos copeiros não lembrou de José; ele o esqueceu”. Aparentemente, sua única chance de escapar para a liberdade está agora perdida. José, o filho amado em sua magnífica túnica tornou-se José, o prisioneiro desprovido de esperança. Isso aproxima a Torá à tragédia grega. É um conto da arrogância de José que o leva, passo a passo, aos seus oponentes. Tudo o que acontece com ele acaba por ser apenas o prelúdio de um novo infortúnio imprevisto.

No entanto, apenas dois anos depois, no início da parashá da próxima semana, descobrimos que tudo isso levou à elevação suprema de José. O Faraó o nomeia vice rei no Egito, o maior império do mundo antigo. Ele lhe dá seu próprio anel de sinete, ele o vestiu com roupas reais e adereços de ouro, e o fez desfilar em uma carruagem para a aclamação das multidões. Com apenas trinta anos, tornou-se o segundo homem mais poderoso do mundo. Do ponto mais baixo, ele subiu para alturas vertiginosas. Ele passou de zero para herói do dia para a noite.

O que é deslumbrante sobre a maneira como essa história é contada na Torá é que ela é construída para nos guiar, como leitores, na direção errada. A parashá Vayeshev tem a forma de uma tragédia grega. Mikets então vem e nos mostra que a Torá encarna uma visão de mundo completamente diferente. O judaísmo não é Atenas. A Torá não é Sófocles. A condição humana não é inerentemente trágica. Heróis não estão destinados a cair.

A razão é fundamental. A antiga Israel e a Grécia da antiguidade – as duas grandes influências sobre a civilização ocidental – tinham entendimentos profundamente diferentes do tempo e das circunstâncias. Os gregos acreditavam em Moira ou Ananke, Destino cego. Eles pensavam que os deuses eram hostis ou, na melhor das hipóteses, indiferentes à humanidade; então não havia maneira de evitar a tragédia se fosse o que o destino havia decretado. Os judeus acreditavam, e ainda acreditam, que D-s está conosco ao longo das nossas jornadas. Às vezes, sentimos como se estivéssemos perdidos, mas depois descobrimos, como José, que Ele guiou nossos passos o tempo todo.

Inicialmente, José tinha falhas em seu caráter. Ele era orgulhoso sobre sua aparência (1); ele trouxe ao pai relatos ruins sobre seus irmãos (2); seu narcisismo o levou diretamente aos avanços da esposa de Potifar (3). Mas a história, da qual ele fazia parte, não era uma tragédia grega. Ao seu final – a morte de José no último capítulo de Gênesis – José se tornou um ser humano completamente diferente, que perdoou seus irmãos pelo crime que cometeram contra ele; o homem que salvou uma região inteira da fome e inanição, aquele cuja tradição judaica chama “o tzadik” (4).

Não pense que você entende a história da sua vida na metade do tempo. Essa é a lição de José. Com a idade de vinte e nove anos, ele estaria justificado em pensar na sua vida como um fracasso miserável: odiado por seus irmãos, criticado por seu pai, vendido como um escravo, preso por uma acusação falsa e com a única chance de liberdade perdida.

A segunda metade da história nos mostra que a vida de José não foi nada assim. Ele se tornou uma história de sucesso sem precedentes, não só política e materialmente, mas também moral e espiritualmente. Ele se tornou a primeira pessoa que se tem registro a perdoar. Ao salvar a região da fome, ele se tornou o primeiro para quem a promessa feita por D-s a Abraão se tornou realidade: “Por você, todas as famílias da terra serão abençoadas” (Gen. 12:3). Não havia como prever como a história terminaria com base nos eventos narrados na parashá Vayeshev. O ponto de mudança em sua vida foi um evento altamente improvável que não poderia ter sido previsto, mas que mudou o resto, não apenas para ele, mas para um grande número de pessoas e para o futuro curso da história judaica. A mão de D-s estava trabalhando, mesmo quando José se sentiu abandonado por todo ser humano que ele encontrou.

Vivemos a vida para a frente, mas somente vemos o papel da Providência em nossas vidas quando olhamos para trás. Esse é o significado das palavras de D-s para Moisés: “Você verá as Minhas costas” (Ex. 33:23), o que significa: “Você somente vai Me ver quando olhar para trás”.

A história de José é uma inversão precisa da estrutura narrativa do Édipo de Sófocles. Tudo o que Laio e seu filho Édipo fazem para evitar o destino trágico anunciado pelo oráculo, na verdade o aproxima do cumprimento, enquanto que na história de José, cada episódio que parece estar levando à tragédia, revela, em retrospectiva, ser um passo necessário para salvar vidas e para o cumprimento dos sonhos de José.

O judaísmo é o oposto da tragédia. Ele nos diz que todo o destino ruim pode ser evitado (daí a nossa oração nos Dias Sagrados que “a penitência, a oração e a caridade evitam o mal decreto”) – enquanto que todas as promessas positivas feitas por D-s nunca serão desfeitas (5).

Daí a ideia que muda a vida: O desespero nunca se justifica. Mesmo que sua vida tenha sido marcada pelo infortúnio, lacerada pela dor, e suas chances de felicidade parecem ter desaparecido para sempre, ainda há esperança. O próximo capítulo de sua vida pode ser cheio de bênçãos. Você pode ser, na adorável frase de Wordsworth, “surpreendido pela alegria”.

Cada coisa ruim que aconteceu com você até agora pode ter sido o prelúdio necessário para as coisas boas que estão por acontecer, porque você foi fortalecido pelo sofrimento e adquiriu coragem por sua capacidade de sobreviver. Isso é o que aprendemos com os heróis da resistência desde José até os sobreviventes do Holocausto de hoje, que seguiram em frente, tiveram fé, recusaram-se a ficar desesperados e tiveram o privilégio de escrever um novo e diferente capítulo no livro de suas vidas.

Visto através do olho da fé, a maldição de hoje pode ser o início da benção de amanhã. Esse é um pensamento que pode mudar a vida.

 

NOTAS:
1) Bereshit Rabá 84:7; veja Rashi para Gen. 37:2.
2) 37:2, e veja Bereshit Rabá 84:7.
3) Tanhumá, Vayeshev, 8.
4) Yomá 35b.
5) Shabat 55a.

Texto original: “IMPROBABLE ENDINGS AND THE DEFEAT OF DESPAIR” por Rabino Jonathan Sacks
Tradução Rachel Klinger Azulay para a Sinagoga Edmond J. Safra – Ipanema

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