VAYETSÊ

Posted on dezembro 6, 2016

VAYETSÊ

O Nascimento do Ódio Mais Antigo do Mundo

Uma parceria da Sinagoga Edmond J. Safra – Ipanema com o escritório do Rabino Jonathan Sacks (The Office of Rabbi Sacks)

“Vá e aprende o que Labão, o arameu, quis fazer a nosso pai Jacob. O faraó fez seu decreto apenas sobre os machos, enquanto Labão procurou destruir todos”. Essa passagem da Hagadá de Pessach – evidentemente baseada na parashá desta semana – é extraordinariamente difícil de entender.

Primeiro, é um comentário sobre a frase em Deuteronômio, Arami oved avi. Como a maioria esmagadora dos comentaristas apontam, o significado dessa frase é “meu pai era um Arameu errante”, uma referência a Jacob, que escapou de Aram [= Síria, uma referência a Haran onde Labão viveu], ou a Abraão, que deixou Aram em consequência do chamado de D-s para viajar para a terra de Canaã. Isso não significa que “um arameu [= Labão] tentou destruir meu pai”. Alguns comentaristas leram dessa forma, mas quase certamente eles só o fizeram por causa dessa passagem na Hagadá.

Em segundo lugar, em parte alguma na parashá encontramos que Labão realmente tentou destruir Jacob. Ele o enganou, tentou explorá-lo e o perseguiu quando ele fugiu. Quando estava prestes a alcançar Jacob, D-s lhe apareceu num sonho à noite e disse: “Tenha muito cuidado para não dizer nada, bom ou mal, a Jacob” (Gen. 31:22). Quando Labão se queixa do fato de que Jacob estava tentando escapar, Jacob responde: “Vinte anos trabalhei para você em sua propriedade – quatorze anos por suas duas filhas, e seis anos para parte de seus rebanhos. Você mudou meu salário dez vezes!” (31:41). Tudo isso sugere que Labão se comportou escandalosamente contra Jacob, tratando-o como um trabalhador não remunerado, quase um escravo, mas não que ele tentou “destruí-lo” – para matá-lo como o Faraó tentou matar todos os filhos israelitas machos.

Terceiro, a Hagadá e o serviço do seder no qual surge o texto, é sobre como os egípcios escravizaram e praticaram genocídio lento contra os israelitas e como D-s os salvou da escravidão e da morte. Por que procurar diminuir toda essa narrativa dizendo que, na verdade, o decreto do Faraó não era tão ruim, já que o de Labão era pior? Isso parece não fazer sentido, nem em termos do tema central da Hagadá, nem em relação aos fatos reais registrados no texto bíblico.

Como, então, devemos compreendê-lo?

Talvez a resposta seja essa. O comportamento de Labão é o paradigma dos antissemitas através dos tempos. Não foi tanto ao que Labão fez que a Hagadá está se referindo, mas ao que seu comportamento deu origem, século após século. Como assim?

Labão começa parecendo um amigo. Ele oferece refúgio a Jacob quando está fugindo de Esaú, que jurou matá-lo. No entanto, verifica-se que seu comportamento é menos generoso do que interessado e calculista. Jacob trabalha para ele sete anos por Rachel. Então, na noite de núpcias, Labão substitui Rachel por Leah, de modo que, para casar com Rachel, Jacob teve que trabalhar mais sete anos. Quando José nasceu de Rachel, Jacob tenta partir. Labão protesta. Jacob trabalha mais seis anos, e então percebe que a situação é insustentável. Os filhos de Labão estão acusando-o de ficar rico às expensas de Labão. Jacob percebe que o próprio Labão está se tornando hostil. Rachel e Leah concordam, dizendo: “Ele nos trata como estranhas! Ele nos vendeu e gastou o dinheiro!” (31:14-15).

Jacob percebe que não há nada que ele possa fazer ou dizer que persuadirá Labão a deixá-lo partir. Ele não tem escolha a não ser fugir. Labão então o persegue e, se não fosse o aviso de D-s na noite anterior à sua chegada, não há dúvida de que ele teria forçado Jacob a voltar e viver o resto de sua vida como seu empregado não remunerado. Como ele diz a Jacob no dia seguinte: “As filhas são minhas filhas! Os filhos são meus filhos! Os rebanhos são meus rebanhos! Tudo o que você vê é meu!” (31:43). Acontece que tudo o que ele aparentemente tinha dado a Jacob, em sua própria mente, ele não tinha dado de fato.

Labão trata Jacob como sua propriedade, seu escravo. Ele é uma não-pessoa. Em seus olhos, Jacob não tem direitos, não há existência independente. Ele deu a Jacob suas filhas em casamento, mas ainda afirma que elas e seus filhos pertencem a ele, não a Jacob. Ele deu a Jacob um acordo quanto aos animais que seriam seus como seu salário, mas ele ainda insiste que “Os rebanhos são os meus rebanhos”.

O que desperta sua raiva é que Jacob mantém sua dignidade e independência. Diante de uma existência impossível como escravo de seu sogro, Jacob sempre encontra uma maneira de continuar. Sim, ele foi enganado por sua amada Rachel, mas ele trabalha para que ele possa se casar com ela também. Sim, ele foi forçado a trabalhar por nada, mas ele usa seu conhecimento superior na criação de animais para propor um acordo que lhe permitirá construir rebanhos próprios, os quais lhe permitiriam manter o que é agora uma grande família. Jacob se recusa a ser derrotado. Envolvido por todos os lados, ele encontra uma saída. Essa é a grandeza de Jacob. Seus métodos não são aqueles que ele teria escolhido em outras circunstâncias. Ele tem que superar um adversário extremamente esperto. Mas Jacob se recusa a ser derrotado, ou esmagado e desmoralizado. Em uma situação aparentemente impossível, Jacob mantém sua dignidade, independência e liberdade. Jacob não é escravo do homem.

Labão é, de fato, o primeiro antissemita. Depois de anos e anos os judeus procuraram refúgio daqueles que, como Esaú, procuraram matá-los. As nações que lhes deram refúgio pareciam, a princípio, benfeitoras. Mas elas exigiram um preço. Elas viram nos judeus pessoas que as tornariam ricas. Onde quer que os judeus fossem, trouxeram prosperidade aos seus anfitriões. No entanto, eles se recusaram a ser meros bens móveis. Eles se recusaram a ser detidos. Eles tinham sua própria identidade e estilo de vida. Eles insistiram no direito humano básico de ser livre. As sociedades de acolhimento então se voltaram contra eles. Alegaram que os judeus as estavam explorando, em vez do que era de fato, que elas estavam explorando os judeus. E quando os judeus conseguiram, as acusaram de roubo: “Os rebanhos são meus rebanhos! Tudo o que você vê é meu!” Elas esqueceram que os judeus haviam contribuído maciçamente para a prosperidade nacional. O fato dos judeus terem salvado algum respeito próprio, alguma independência, que eles também haviam prosperado, não as tornou apenas invejosas, mas irritadas. Foi quando se tornou perigoso ser judeu.

Labão foi o primeiro a mostrar essa síndrome, mas não o último. Aconteceu novamente no Egito depois da morte de José. Aconteceu sob os gregos e romanos, os impérios cristãos e muçulmanos da Idade Média, as nações europeias do século XIX e início do século XX e depois da Revolução Russa.

Em seu fascinante livro World on Fire, Amy Chua argumenta que o ódio étnico sempre será dirigido pela sociedade de acolhimento contra qualquer minoria conspícua e bem-sucedida. Todas as três condições devem estar presentes: [1] O grupo odiado deve ser uma minoria ou as pessoas terão medo de atacá-lo; [2] Deve ser bem sucedido ou as pessoas não vão invejá-lo, apenas sentir desprezo por ele; [3] Deve ser notável ou as pessoas não o notarão. Os judeus tendiam a se encaixar em todos os três. É por isso que eles foram odiados.

E começou com Jacob durante sua estada com Labão. Ele era uma minoria, superada em número pela família de Labão. Ele foi bem sucedido, e foi notável: você podia vê-lo olhando para seus rebanhos.

O que os sábios estão dizendo na Hagadá agora se torna claro. O faraó era um inimigo único dos judeus, mas Labão existe, de uma forma ou de outra, época após época. A síndrome ainda existe hoje. Como observa Amy Chua, Israel no contexto do Oriente Médio é uma minoria conspícua e bem-sucedida. É um país pequeno, uma minoria; É bem sucedido e o é de maneira evidente. De alguma forma, em um pequeno país com poucos recursos naturais, excede seus vizinhos. O resultado é inveja que se torna raiva que se torna ódio. Onde começou? Com Labão.

Dito isso, começamos a ver Jacob sob uma nova luz. Jacob representa minorias e pequenas nações em todos os lugares. Jacob é a recusa de deixar grandes potências esmagar os poucos, os fracos, os refugiados. Jacob recusa-se a definir-se como um escravo, propriedade de outra pessoa. Ele mantém sua dignidade e liberdade interior. Ele contribui para a prosperidade de outras pessoas, mas ele derrota todas as tentativas de ser explorado. Jacob é a voz que diz: Eu também sou humano. Eu também tenho direitos. Eu também sou livre.

Se Labão é o eterno paradigma do ódio às minorias conspícuas, Jacob é o paradigma eterno da capacidade humana de sobreviver ao ódio dos outros. Desse modo estranho, Jacob se torna a voz da esperança na conversa da humanidade, a prova viva de que o ódio nunca ganha a vitória final; a liberdade sim.

 

Texto original: “THE BIRTH OF THE WORLD’S OLDEST HATE” por Rabino Jonathan Sacks.
Tradução Rachel Klinger Azulay para a Sinagoga Edmond J. Safra – Ipanema

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