VAYGASH

Posted on janeiro 3, 2017

VAYGASH

Escolha e Mudança

Uma parceria da Sinagoga Edmond J. Safra – Ipanema com o escritório do Rabino Jonathan Sacks (The Office of Rabbi Sacks)

A sequência de Bereshit 37 a 50 é a mais longa narrativa ininterrupta na Torá, e não pode haver dúvida de quem é seu herói: José. A história começa e termina com ele. Nós o vemos como uma criança, amado – até mesmo mimado – por seu pai; como um sonhador adolescente, gerando ressentimento nos seus irmãos; como um escravo, e logo um prisioneiro, no Egito; depois, como a segunda figura mais poderosa no maior império do mundo antigo. Em cada estágio, a narrativa gira em torno dele e seu impacto sobre os outros. Ele domina o último terço de Bereshit, lançando sua sombra em tudo o mais. Desde o começo ele parece destinado à grandeza.

Mas a história não se revelou assim. Pelo contrário, é outro irmão que, na plenitude dos tempos, deixa sua marca no povo judeu. Na verdade, temos o seu nome. A família da aliança tem sido conhecida por vários nomes. Um deles é Ivri, “Hebreu”, que significa “estranho, nômade, aquele que vagueia de um lugar para outro”. Foi assim que Abraão e seus filhos ficaram conhecidos. O segundo é Israel, derivado do novo nome de Jacob depois que ele “lutou com D-s e com o homem e prevaleceu”. Contudo, depois da divisão do reino e da conquista do Norte pelos assírios, eles se tornaram conhecidos como Yehudim ou Judeus. Era a tribo de Judá que dominava o reino do Sul, e aqueles que sobreviveram ao exílio babilônico. Assim, não foi José, mas Judá quem conferiu sua identidade ao povo. Judá, que se tornou o antepassado do maior rei de Israel, David; Judá, de quem nascerá o Messias. Por que Judá e não José? A resposta, sem dúvida, encontra-se no início de Vaygash, com o confronto dos dois irmãos, e Judá pedindo a libertação de Benjamin.

Os indícios encontram-se muitos capítulos atrás, no começo da história de José. É naquele episódio que encontramos Judá propondo vender José como escravo ao invés de matá-lo:

Judá disse a seus irmãos: “O que ganharemos se matarmos nosso irmão e cobrirmos seu sangue? Vamos vendê-lo aos árabes e não causar-lhe danos ou ferimentos com nossas próprias mãos. Afinal – ele é nosso irmão, nossa própria carne e sangue”. Os irmãos concordaram (37:26-27).

Esse é um discurso de insensibilidade monstruosa. Não há nenhuma palavra sobre o mal do assassinato, meramente um cálculo pragmático (“O que vamos ganhar?”). No momento em que ele chama José de “nossa própria carne e sangue”, ele está propondo vendê-lo como um escravo. Judá não tem nada da trágica nobreza de Reuben que, dos irmãos, percebe que o que eles estão fazendo está errado, e faz uma tentativa de salvá-lo (e falha). Neste ponto, Judá é a última pessoa de quem esperamos coisas grandiosas.

No entanto, Judá – mais do que qualquer outro na Torá – muda. O homem que vemos todos estes anos, mais adiante no tempo, não é mais o que eraNa época ele estava preparado para ver seu irmão vendido como escravo. Agora ele está preparado para sofrer esse destino em vez de ver Benjamim como um escravo. Como ele diz a José:

“Agora, meu senhor, deixe-me permanecer no lugar do menino como escravo de sua senhoria, e deixe-o ir com seus irmãos. Como poderia voltar para o meu pai sem o menino? Eu não poderia suportar ver sua infelicidade” (44:33-34).

É uma grande e precisa transformação de caráter. A crueldade foi substituída por zelo. A indiferença ao destino de seu irmão se transformou em coragem em seu favor. Ele está disposto a sofrer o que ele infligiu uma vez a José para que o mesmo destino não ocorresse com Benjamin. Neste ponto, José revela sua identidade. Nós sabemos o porquê. Judá passou no teste que José cuidadosamente construiu para ele. José queria saber se Judá mudou. Sim, ele mudou.

Esse é um momento altamente significativo na história do espírito humano. Judá é o primeiro penitente / arrependido – o primeiro baal teshuvá – na Torá. De onde veio essa mudança no seu caráter? Para isso, temos de voltar ao capítulo 38 – a história de Tamar. Tamar, lembramo-nos, casou-se com os dois filhos mais velhos de Judá; ambos morreram, deixando-a viúva sem filhos. Judá, temendo que seu terceiro filho tivesse o mesmo destino, impediu essa união, deixando-a assim incapaz de se casar novamente e ter filhos. Logo que ela compreende sua situação, Tamar se disfarça como prostituta. Judá dorme com ela. Ela fica grávida. Judá, desconhecendo o disfarce, conclui que ela deve ter tido um relacionamento proibido e ordena que ela seja condenada à morte. Neste ponto, Tamar – que, enquanto disfarçada, tinha tomado o selo, o anel e o cajado de Judá como uma garantia – os envia para ele com uma mensagem: “O pai de meu filho é o homem a quem pertence essas coisas”. Judá entende agora toda a história. Não só colocou Tamar em uma situação difícil como viúva, e não só é o pai de seu filho, mas também percebe que ela se comportou com extraordinária discrição não revelando a verdade que iria envergonhá-lo (é a partir deste ato de Tamar que derivamos a regra de que “é melhor lançar-se em uma fornalha ardente do que envergonhar alguém em público”). Tamar é a heroína da história, mas tem uma consequência significativa. Judá admite que ele estava errado. “Ela foi mais justa do que eu”, diz ele. Esta é a primeira vez na Torá que alguém reconhece sua própria culpa. É também o ponto de mutação na vida de Judá. Aqui nasce a habilidade de reconhecer o próprio erro, sentir remorso e mudar – o complexo fenômeno conhecido como teshuvá – que mais tarde leva à grande cena em Vaygash, onde Judá é capaz de transformar seu comportamento anterior e fazer o oposto do que ele tinha feito anteriormente. Judá é ish teshuvá, o homem penitente.

Agora entendemos o significado de seu nome. O verbo lehodot significa duas coisas. Significa “agradecer”, que é o que Leah tem em mente quando dá a seu quarto filho, Judá, seu nome: “desta vez eu vou agradecer ao Senhor”. No entanto, também significa “admitir, reconhecer”. O termo bíblico vidui, “confissão” – até hoje parte do processo de teshuvá, e de acordo com Maimônides seu elemento-chave – vem da mesma raiz. Judá significa “aquele que reconheceu o seu pecado”.

Compreendemos também agora um dos axiomas fundamentais da teshuvá: “Rabi Abahu disse: No lugar onde os penitentes se encontram, nem mesmo um justo perfeito pode estar” (Berachot 34b). Sua prova está no versículo de Isaías (57:19): “Paz, paz ao que estava longe e ao que está perto”. O versículo coloca alguém que “estava longe” à frente de quem está “próximo”. O Talmud deixa claro, no entanto, que a leitura de Rabi Abahu não é de forma alguma controversa. Rabi Jochanan interpreta “longe” como “longe do pecado”, em vez de “longe de D-s”. A verdadeira prova é Judá. Judá é um penitente, o primeiro na Torá. José é consistentemente conhecido pela tradição como ha-tsadik, “o justo”. José tornou-se mishnê le-melech, “o segundo no reinado”. Judá, porém, tornou-se o pai dos reis de Israel. Onde o penitente Judá está, nem mesmo o perfeitamente justo José pode permanecer. Por maior que um indivíduo possa ter virtude de caráter natural, maior ainda é aquele que é capaz de crescimento e mudança. Esse é o poder da penitência, e começou com Judá.

 

Texto original: “CHOICE AND CHANGE” por Rabino Jonathan Sacks.
Tradução Rachel Klinger Azulay para a Sinagoga Edmond J. Safra – Ipanema

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