VAYGASH

Posted on dezembro 21, 2017

VAYGASH

O Primeiro Psicoterapeuta

A frase “pensador judeu” pode significar duas coisas muito diferentes. Pode significar um pensador que simplesmente é judeu por nascimento ou descendência – um físico judeu, por exemplo – ou pode se referir a alguém que tenha contribuído especificamente para o pensamento judaico: como Judah Halevi ou Maimônides.

A questão interessante é: existe um terceiro tipo de pensador judeu, aquele que contribui para o universo do conhecimento, mas o faz de maneira reconhecidamente judaica? A resposta a isso nunca é direta, mas nós instintivamente sentimos que existe tal coisa. Para trazer uma analogia: muitas vezes há algo caracteristicamente judaico em um certo tipo de humor. Ruth Wisse tem coisas interessantes para dizer sobre isso em seu livro, No Joke (1). Assim como Peter Berger em seu Redeeming Laughter (2). O humor é universal, mas fala em diferentes sotaques, em diferentes culturas.

Eu acredito que algo semelhante se aplica à psicanálise e à psicoterapia. Foram tantos judeus dentre os primeiros praticantes da psicanálise, com a distinguível exceção de Jung, que esta se tornou conhecida na Alemanha nazista como a “ciência judaica”. Eu argumentei – embora meus pontos de vista sobre isso tenham sido desafiados – pelo contrário, que ao tomar o mito grego de Édipo como um dos seus modelos-chave, Freud desenvolveu uma visão trágica da condição humana que é mais helenista do que judaica (3).

Em contraste, três dos psicoterapeutas mais importantes do pós-guerra não eram meramente judeus por nascimento, mas profundamente judeus em sua abordagem à alma humana. Viktor Frankl, um sobrevivente de Auschwitz, desenvolveu, com base em suas experiências no campo, uma abordagem que ele chamou de Logoterapia, baseada na “busca do homem pelo significado” (4). Ainda que os nazistas tenham tirado quase todos os vestígios de humanidade daqueles que consignaram às fábricas da morte, Frankl argumentou que havia uma coisa que eles nunca poderiam tirar de seus prisioneiros: a liberdade de decidir como responder.

Aaron T. Beck foi um dos fundadores do que é amplamente visto como a forma mais eficaz de psicoterapia: Terapia comportamental cognitiva (5). Entre pacientes que sofriam de depressão, ele descobriu que seus sentimentos estavam muitas vezes ligados a pensamentos altamente negativos sobre si mesmos, o mundo e o futuro. Ao fazê-los pensar de forma mais realista, ele descobriu que seu humor tendia a melhorar.

Martin Seligman é o fundador da Psicologia Positiva, que visa não apenas tratar a depressão, mas promover ativamente o que ele chama de “felicidade autêntica” e “otimismo aprendido” (6). A depressão, afirmou Seligman, está frequentemente ligada ao pessimismo, que vem da interpretação de eventos de um jeito particular que ele chama de “desamparo aprendido”. Os pessimistas tendem a ver o infortúnio como permanente (“É sempre assim”), pessoal (“É minha culpa”) e dominante (“Eu sempre faço as coisas de forma errada”). Isso os faz sentir que o mal que sofrem é inevitável e fora de seu controle. Os otimistas observam as coisas de maneira diferente. Para eles, os eventos negativos são temporários, resultado de fatores externos e exceções em vez da regra. Então, dentro de limites (7), você pode desaprender o pessimismo, e o resultado é maior felicidade, saúde e sucesso.

O que conecta todos os três pensadores é a sua crença que: (a) há sempre mais de uma possível interpretação do que nos acontece; (b) podemos escolher entre diferentes interpretações e; (c) a forma como pensamos molda a forma como sentimos. Isso dá aos três uma marcante semelhança com um tipo particular de pensamento judaico, a saber, Chabad Chassidut, desenvolvido pelo primeiro Rebe de Lubavitch, Rabi Shneur Zalman de Liadi (1745-1812). A palavra Chabad representa as letras iniciais das três virtudes intelectuais, chochmá, biná e da’at, “sabedoria, compreensão e conhecimento”, que influenciam os atributos mais emocionais de chessed, guevurá e tiferet, “bondade, autocontrole e beleza ou equilíbrio emocional”. Diferentemente dos outros movimentos chassídicos, que enfatizaram a vida emocional, os chassidism do Chabad focaram no poder do intelecto para moldar a emoção. Foi, a seu modo, uma antecipação da terapia comportamental cognitiva.

Sua origem, no entanto, é muito anterior. Na semana passada, eu argumentei que José foi o primeiro economista. Esta semana eu quero sugerir que ele foi o primeiro terapeuta cognitivo. Ele foi o primeiro a entender o conceito de reenquadramento, isto é, ver os eventos negativos de sua vida de uma nova maneira, assim libertando-se da depressão e do “desamparo aprendido”.

O momento em que ele faz isso acontece quando, movido pelo apelo fervoroso de Judá para deixar Benjamin voltar para casa para seu pai Jacob, ele finalmente se revela a seus irmãos:

“Eu sou José, o irmão de vocês, aquele que vocês venderam para o Egito. E agora, não fiquem chateados e não fiquem com raiva de si mesmos por terem me vendido para cá, porque foi para salvar vidas que D-s me enviou adiante de vocês. Há dois anos tem havido fome na terra, e nos próximos cinco anos não haverá arado nem colheita. Mas D-s me enviou adiante de vocês para preservar para vocês um pedaço de terra e para salvar as suas vidas com uma grande salvação. Então, não foram vocês que me enviaram para cá, mas D-s”.

Observe o que José está fazendo aqui. Ele está reformulando os acontecimentos para que os irmãos não tenham que viver sob um fardo insuportável de culpa por terem vendido José como escravo e enganado seu pai, causando-lhe anos de tristeza profunda. Mas ele só é capaz de fazer isso por eles porque ele já tinha o feito o mesmo para si próprio. Quando aconteceu, não podemos ter certeza. José estava ciente, durante todo o tempo, que os muitos golpes de infortúnio que ele sofria faziam parte de um plano Divino, ou ele só percebeu isso quando foi levado da prisão para interpretar os sonhos do faraó, e então tornou-se o vice-rei do Egito?

O texto é silencioso sobre esse ponto, mas é sugestivo. Mais do que qualquer outro personagem na Torá, José atribui todas as suas conquistas a D-s. Isso o permite fazer o que, em termos seculares, Frankl, Beck e Seligman, todos o teriam aconselhado a fazer se ele tivesse sido um de seus pacientes: pense em uma missão que ele estava sendo chamado a cumprir (Frankl), reinterprete o infortúnio como possibilidade (Beck) e, veja os elementos positivos de sua situação (Seligman). José não foi libertado somente de uma prisão física; Ele libertou-se de uma prisão emocional, qual seja, o ressentimento em relação a seus irmãos. Ele agora enxergava sua vida não como um drama familiar de rivalidade entre irmãos, mas como parte de um movimento maior da história conforme moldado pela providência Divina.

Isso é o que me faz pensar que o trabalho de Frankl, Beck e Seligman é judaico de uma maneira que a psicanálise freudiana não é. No coração do judaísmo há a ideia da liberdade humana. Não somos prisioneiros dos eventos, mas ativos formadores deles. É fato que podemos ser influenciados por movimentos inconscientes, como pensou Freud, mas podemos nos elevar acima deles por “hábitos do coração” que aprimoram e refinam a nossa personalidade.

A vida de José demonstra que podemos derrotar a tragédia através da nossa habilidade de enxergar nossa vida não apenas como uma sequência de eventos injustos infligidos a nós por outros, mas também como uma série de movimentos Divinos intencionais, cada um deles nos trazendo mais próximo de uma situação, através da qual podemos fazer o que D-s quer que façamos.

Não podemos todos ser José, mas graças ao Rabi Shneur Zalman de Liadi em termos espirituais, e a Frankl, Beck e Seligman in termos seculares, podemos aprender o que é mudar a forma como sentimos ao mudar a forma como pensamos; e a melhor forma de fazer isso é perguntando: “O que essa experiência ruim me permite fazer agora que eu não poderia fazer caso ela não tivesse acontecido?” Isso pode ser transformador na vida.
NOTAS:
1- Ruth Wisse, No Joke: Making Jewish Humor, Princeton University Press, 2013.
2- Peter Berger, Redeeming Laughter: the comic dimension of human experience, Boston, de Gruyter, 2014.
3- Haviam indiscutíveis elementos judaicos na obra de Freud, mais notadamente o fato que, mesmo que ele próprio chamava a psicanalise de “cura do falar”, é na verdade a “cura do ouvir”, e ouvir é uma característica-chave da espiritualidade Judaica.
4- Frankl escreveu muitos livros, mas o mais famoso é Man’s Search for Meaning, uma das obras de maior influência do século 20.
5- Veja Aaron T. Beck, Cognitive therapy and the emotional disorders, Penguin, 1989. Veja também seu importante Prisoners of Hate: the cognitive basis of anger, hostility and violence, HarperCollins, 1999.
6- Martin Seligman, Authentic Happiness, Free Press, 2002; Learned Optimism, Basic Books, 2008.
7- Seligman admite que há coisas em nós que não podemos mudar, mas há muito sobre nós que podemos sim mudar. Veja Martin Seligman, What you can change and what you can’t, London, Nicolas Brealey, 2007.

 

Texto original “THE FIRST PSYCHOTHERAPIST” Por Rabino Jonathan Sacks
Tradução Rachel Klinger Azulay para a Sinagoga Edmond J. Safra – Ipanema

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