VAYKRA

Posted on março 29, 2017

VAYKRA

A Oferta de Pecado

Vaykrá trata de sacrifícios e, embora essas leis tenham sido inoperantes por quase 2000 anos desde a destruição do Templo, os princípios morais que elas incorporam ainda são desafiadores.
Um conjunto de sacrifícios, expostos em detalhes na parashá desta semana, merece atenção especial: chatat, a “oferta de pecado”. São considerados quatro casos diferentes: o sacerdote ungido (= sumo sacerdote), a assembleia (= o Sinédrio), o Príncipe (= Rei) e um indivíduo comum. Como seus papéis na comunidade eram diferentes, também era a forma de sua expiação.

A oferta pelo pecado devia ser trazida somente para pecados maiores, aqueles que carregavam a penalidade do karet, ‘ser cortado’; e somente se eles tivessem sido cometidos de forma não intencional ou inadvertidamente (be-shogeg). Isso poderia acontecer de duas formas: [a] porque a pessoa em questão não conhecia a lei (por exemplo, que é proibido cozinhar no shabat) ou [b] não conhecia os fatos (por exemplo, que hoje é o shabat).

Os pecados não-intencionais ficam a meio caminho entre pecados intencionais (onde você sabia que o que estava fazendo era errado) e ação involuntária (aqueles em que você não estava agindo livremente: era uma ação reflexa, ou alguém estava apontando uma arma para sua cabeça). Os pecados intencionais não podem ser expiados pelo sacrifício. As ações involuntárias não precisam de expiação. Assim, a oferta pelo pecado está confinada a um intervalo médio de casos, onde você fez algo errado, mas você não sabia que estava fazendo algo errado.

A questão é óbvia: por que os pecados não-intencionais exigem expiação? Que culpa está envolvida? O pecador não queria pecar. A intenção necessária (mens rea) estava faltando. Se o ofensor tivesse conhecido os fatos e a lei na época, ele não teria feito o que fez. Por que então ele tem que passar por um processo de expiação? Para isso, os comentaristas deram uma variedade de respostas.

Samson Raphael Hirsch e R. David Zvi Hoffman dão a explicação mais direta. A ignorância – seja dos fatos ou da lei – é uma forma de negligência. Devemos conhecer a lei, especialmente nos casos mais graves. Devemos também exercer vigilância: devemos saber o que estamos fazendo. Trata-se de uma obrigação fundamental, especialmente em relação às áreas mais graves de conduta.

Abrabanel argumenta que a oferta pelo pecado era mais uma advertência solene contra o pecado no futuro, do que uma punição pelo que tinha sido feito. A apresentação de um sacrifício, que envolvia esforço e despesas consideráveis, era um vívido lembrete ao indivíduo para ser mais cuidadoso no futuro.

Nachmânides sugere que a oferta pelo pecado era trazida não por causa do que levou ao ato, mas sim por causa do que se seguiu a partir dele. O pecado, mesmo sem intenção, contamina. ‘A razão das oferendas para a alma errante é que todos os pecados (mesmo se cometidos sem intenção) produzem uma mancha na alma, e a alma só é digna de ser recebida pelo seu Criador quando ela é pura de todo pecado’.

O falecido Lubavitcher Rebe, seguindo a tradição midráshica, ofereceu uma quarta interpretação. Mesmo pecados inadvertidos testemunham algo errado por parte da pessoa em causa. Coisas ruins não acontecem através de pessoas boas. Os sábios disseram que D-s não permite que nem mesmo os animais dos justos façam mal; mais ainda, Ele protege os justos de erros e percalços (ver Yevamot 99b, Ketubot 28b). Portanto, deve ter havido algo errado com o indivíduo para o acidente ter ocorrido.

Esse ponto de vista – característico da abordagem do Chabad, com sua ênfase na psicologia da vida religiosa – compartilha mais do que uma mera semelhança passageira com a análise de Sigmund Freud do inconsciente que deu origem à frase “um ato falho freudiano”. Observações ou atos que parecem não intencionais muitas vezes revelam desejos ou motivos inconscientes. Com efeito, muitas vezes podemos vislumbrar o inconsciente mais prontamente em tais momentos do que quando a pessoa está agindo com pleno conhecimento e deliberação. Os pecados inadvertidos sugerem algo errado na alma do pecador. É esta falha, que pode estar debaixo do limiar da consciência, que é expiada pelo chatat.

Seja qual for a explicação que sigamos, o chatat representa uma ideia familiar na lei, mas extremamente estranha na ética ocidental. Nossos atos fazem a diferença para o mundo.

Sob a influência de Immanuel Kant, chegamos a pensar que tudo o que importa no que se refere à moralidade é a vontade. Se a nossa vontade é boa, então somos bons, independentemente do que realmente fazemos. Somos julgados por nossas intenções, não por nossas ações. O judaísmo reconhece a diferença entre a boa vontade e a má. É por isso que os pecados deliberados não podem ser expiados por um sacrifício, enquanto aqueles não intencionais podem.

No entanto, o próprio fato de que pecados não-intencionais requerem expiação nos diz que não podemos nos dissociar de nossas ações dizendo: “Eu não queria fazer isso”. O erro foi feito – e foi feito por nós. Portanto, devemos realizar um ato que sinalize nosso remorso. Não podemos simplesmente ir embora como se o ato não tivesse nada a ver conosco.

Muitos anos atrás, um romancista judeu secular me disse: “O judaísmo não está cheio de culpa?” Ao que eu respondi: “Sim, mas também está cheio de perdão”. Toda a instituição da oferta pelo pecado é sobre o perdão. No entanto, o judaísmo faz uma séria declaração moral quando se recusa a dividir a pessoa humana em duas entidades – corpo e alma, ato e intenção, objetiva e subjetiva, o mundo “lá fora” e o mundo “aqui”. Kant fez exatamente isso. Tudo o que importa moralmente, argumentou, é o que acontece “aqui”, na alma.

Será que é totalmente acidental que a cultura mais influenciada por Kant tenha sido também a que deu origem ao Holocausto? Eu não quero dizer – D-s me livre – que o sábio de Konigsberg foi de alguma forma responsável por essa tragédia. No entanto, continua a ser o caso onde muitas pessoas boas e decentes não fizeram nada para protestar contra o maior crime do homem contra o homem enquanto ele estava ocorrendo. Muitos deles certamente pensaram que não tinham nada a ver com eles. Se eles não tinham uma animosidade particular para com os judeus, por que eles deveriam se sentir culpados? No entanto, o resultado de sua ação ou inércia teve consequências reais no mundo físico. Uma cultura que confina a moralidade à mente é aquela que não possui uma defesa adequada contra comportamentos prejudiciais.

A oferta pelo pecado nos lembra que o mal que fazemos, ou deixamos acontecer, mesmo que não tenhamos a intenção, ainda requer expiação. Por mais antiquada que seja, uma moralidade que fala sobre ação, não apenas intenção – sobre o que acontece através de nós, mesmo que não tenhamos a intenção de fazê-lo – é mais convincente, mais fiel à situação humana, do que aquela que fala apenas de intenção..

 

Texto original: “THE SIN OFFERING” por Rabino Jonathan Sacks.
Tradução Rachel Klinger Azulay para a Sinagoga Edmond J. Safra – Ipanema

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