VAYSHLACH

Posted on novembro 29, 2017

VAYSHLACH

A Luta da Fé

Há Mozarts e há Beethovens. Qual deles é você?
Eu tenho apenas um conhecimento amador de música, mas a impressão que Mozart passa é que a música fluía dele. Percebe-se algo sem esforço e efervescente nas suas composições. Elas não são “ceifadas pela tendência pálida do pensamento”. Ele escrevia velozmente. Ele levava de forma leve as preocupações do mundo.

Não era assim com Beethoven, para quem às vezes levava anos para que uma ideia se cristalizasse em sua forma final, com inúmeros rascunhos, riscos e revisões. Esse era um homem que podia estar com raiva de si mesmo e do mundo, para quem a criatividade era uma luta da qual ele emergia triunfante com um trabalho que quase sempre era vigoroso e cheio de conflito, até sua solução final majestosa. A qualidade etérea, mística e quase de outro mundo de suas últimas composições, as sublimes sonatas de piano e quartetos de cordas, são a criação de alguém que finalmente encontrou a paz depois de uma vida de luta com seus próprios anjos e demônios.

Tudo isso é, para mim, uma maneira de entender Jacob, o homem que se tornou Israel, nosso pai na fé. Jacob não é a escolha mais óbvia do herói religioso. Ele não aparece – pelo menos na superfície do texto bíblico – como um homem de coragem ou bondade como a de Abraão, a fidelidade e autocontrole de Isaac, o vigor e a paixão de Moisés, a política e a poesia de David, ou o lirismo e a esperança de Isaías.

Ele era um homem cercado de conflito: com seu irmão Esaú, seu sogro Labão, suas esposas, Léa e Rachel, e seus filhos, cuja rivalidade entre irmãos acabou trazendo toda a família ao exílio no Egito. Sua vida parece ter sido um campo de tensões.

Além disso, tiveram suas transações: a maneira como ele comprou o direito de primogenitura de Esaú, tomou sua benção e finalmente superou seu astuto sogro Labão. Em cada caso, ele parece ter ganho, mas então sua situação se deteriora. O episódio em que, a pedido de Rebeca, vestiu-se como Esaú e enganou seu pai cego, forçou-o a sair de casa e – como vemos na parashá desta semana – deixou-o traumatizado de medo com a perspectiva de encontrar novamente Esaú. Quase a mesma enganação que ele praticou com Isaac, ele sofreu na mão de Labão. Mesmo sua fuga de Labão poderia ter acabado em tragédia, caso D-s não o tivesse alertado para não prejudicar Jacob (Daí a passagem na Hagadá: “Vá e aprenda o que Labão, o arameu, procurou fazer ao nosso pai Jacob”). Sua vida como retratada na Torá parece ser uma série constante de fugas de um problema para o próximo.

Então, quem e o que era Jacob?

Para isso, existem duas respostas radicalmente diferentes. Há o Jacob do midrash que, mesmo no útero, desejava uma sinagoga (1), que passava seus anos como um jovem estudando no bet midrash (2), que parecia com Abraão (3) e cujos braços eram como pilares de mármore (4). Seus motivos eram sempre puros. Ele comprou o direito de primogenitura de Esaú porque não podia suportar ver Esaú oferecendo sacrifícios (o privilégio do primogênito) aos ídolos (5). Quanto à bênção de seu pai, justamente a razão pela qual Isaac tornou-se cego na velhice era para que isso pudesse ser possível (6). Esaú era o oposto. Um personagem violento e mercurial que levava seu pai a pensar que ele era ultra piedoso (7), mas que, no dia em que chegou “cansado” do campo, tinha cometido toda uma série de crimes, incluindo assassinato (8).

Esse é um retrato extremo, mas não sem base nas escrituras. Jacob é chamado de ish tam, que transmite o sentido de simplicidade, integridade e obstinação. O sentido simples do oráculo que Rebeca recebeu antes que os gêmeos nascessem era que “o mais velho servirá ao mais novo” (9). Ela sabia que Jacob era o filho destinado a prevalecer. Além disso, como o Maharatz Chajes diz em sua Introdução à Literatura Agádica (10), o midrash pinta os personagens bíblicos moralmente em preto e branco, de forma clara, por óbvias razões morais e educacionais. É difícil ensinar as crianças a se comportar se tudo o que você tem a oferecer é uma série de estudos com ambiguidades, complexidades e nebulosos.

O outro Jacob, no entanto, é aquele que lemos no sentido simples do texto. A questão óbvia é: por que a Torá escolheu retratar o terceiro dos patriarcas dessa maneira? A Torá é altamente seletiva nos detalhes que escolhe relatar. Por que não pintar Jacob em cores mais atraentes?

Parece-me que a Torá está transmitindo, aqui como em outros lugares, uma mensagem extraordinária: que, se pudermos realmente nos relacionar com D-s como D-s, em toda Sua transcendência e majestade, então podemos nos relacionar com humanos como humanos, em toda sua falibilidade. Em todas as outras literaturas religiosas que eu conheço, os heróis são idealizados até que eles não pareçam mais humanos. São divinos ou semidivinos, perfeitos e infalíveis. Não existe ninguém assim em todo o Tanach. Mesmo Noé (justo, perfeito) é visto bêbado e desgrenhado. Mesmo Job (irrepreensível, reto) ao final amaldiçoa seu destino. O homem que, mais do que qualquer outro, simboliza falibilidade é Jacob.

E talvez esse seja o ponto. Jacob era um Beethoven, não um Mozart. Sua vida foi uma série de lutas. Nada veio de forma fácil para ele. Ele, único entre os patriarcas, foi um homem que escolheu ser escolhido. Abraão foi chamado por D-s. Isaac foi escolhido antes de seu nascimento. Moisés, Josué, Samuel, David, Isaías, Jeremias: todos foram designados por D-s para suas missões. Não Jacob. Foi ele quem comprou o direito da primogenitura e tomou a benção; aquele que escolheu levar o destino de Abraão para o futuro.

D-s somente apareceu a ele após ele estar fugindo de casa. Somente anos mais tarde, sozinho, à noite, aterrorizado com a perspectiva de encontrar Esaú, D-s ou um anjo lutou com ele. Somente ele recebeu, de D-s ou do anjo, um nome completamente novo, não um aprimoramento de seu antigo, mas uma identidade completamente nova: “Israel”. Ainda mais surpreendentemente, apesar do fato de lhe dizerem “Seu nome não deve mais ser chamado Jacob” (11), a Torá continua a chamá-lo de Jacob, sugerindo que sua luta era para toda a vida – como, muitas vezes, é a nossa.

Se eu tivesse que escolher uma trilha sonora para o Jacob que eu vim a conhecer, seria a Sonata Hammerklavier de Beethoven ou sua Grosse Fugue, música de uma tensão tão esmagadora que parece estar à beira de estourar toda a forma e estrutura. No entanto, foi através dessas lutas épicas que Beethoven finalmente alcançou sua própria versão de serenidade, e foi através da luta prolongada de Jacob com o destino que ele finalmente alcançou o que nem Abraão nem Isaac conquistaram: todos os seus filhos ficaram dentro da fé. “De acordo com a dor é a recompensa”, disseram os sábios (12). Esse é Jacob.

Há pessoas santas para quem a espiritualidade vem tão facilmente quanto a música para Mozart. Mas D-s não se aproxima apenas dos santos. Ele nos alcança a todos nós. É por isso que Ele nos deu Abraão para aqueles que amam, Isaac para aqueles que temem, e Jacob / Israel para aqueles que lutam.

Daí a ideia que muda a vida desta semana: se você encontra a si mesmo lutando com a fé, você está na companhia de Jacob-que-se-tornou-Israel, o pai em fé de todos nós.

 

NOTAS:

  1. Bereshit Rabá 63:6.
  2. Bereshit Rabá 63:10.
  3. Midrash Lekach Tov, Bereshit 47:18.
  4. Bereshit Rabá 65:17.
  5. Bereshit Rabá 63:13.
  6. Bereshit Rabá 65:8.
  7. Veja Rashi para Gen. 25:27.
  8. Baba Batrá 16b.
  9. Em outro lugar eu levantei que esse texto está carregado de ambiguidades.
  10. Zvi Hirsch Chajes, Mavo ha-Agadot (impresso no início das edições-padrão de Ein Yaakov).
  11. Isso lhe foi dito duas vezes, primeiro pelo anjo, e depois pelo próprio D-s: Gen. 32:29; 35:10.
  12. Mishná, Avot 5:23.

 

Título original: “THE STRUGGLE OF FAITH” por Rabbi Jonathan Sacks
Tradução Rachel Klinger Azulay para a Sinagoga Edmond J. Safra – Ipanema

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