TOLEDOT

Posted on novembro 16, 2017

TOLEDOT

Por que Isaac? Por que Jacob?

Por que Isaac e não Ismael? Por que Jacob e não Esaú? Essas estão entre as questões mais abrasadoras em todo o judaísmo.

É impossível ler Gênesis 21 – com a descrição de como Hagar e seu filho foram enviados para o deserto, como sua água acabou, como Hagar colocou Ismael sob uma arvore e sentou-se a uma distância para não vê-lo morrer – sem sentir intensa compaixão por ambos, mãe e filho. Ambos estão chorando. A Torá nos diz que D-s ouviu o choro de Ismael e enviou um anjo para confortar Hagar, mostrar-lhe um poço de água e assegurar-lhe que D-s faria de seu filho “uma grande nação” (Gen. 21:18) – a promessa que Ele mesmo fez ao próprio Abraão no início de sua missão (Gen. 12:2).

Da mesma forma, no caso de Esaú. O clímax emocional da parashá ocorre no capítulo 27, no ponto em que Jacob deixa a presença de Isaac, o qual pensou que ele era Esaú. Então, Esaú entra, e lentamente tanto o pai quanto o filho percebem o que aconteceu. É o que lemos:

Então Isaac estremeceu com um tremor muito grande e disse: “Quem então trouxe o alimento para mim e eu comi antes que você viesse e eu o abençoei? E ele será abençoado”. Quando Esaú ouviu o pai dizer essas palavras, ele gritou um grito intenso e amargo, e disse para seu pai, “Abençoe-me, a mim também, meu pai!” (Gen. 27:33-34).

Essas estão entre as descrições mais poderosas de emoção em toda a Torá, e são exatamente o oposto do que poderíamos esperar. Esperaríamos que a Torá invocasse nossas simpatias para os escolhidos: Isaac e Jacob. Em vez disso, quase nos obriga a simpatizar com os não escolhidos: Hagar, Ismael e Esaú. Sentimos sua dor e sensação de perda.

Então, por que Isaac e não Ismael? Por que Jacob e não Esaú? Para isso, existem dois tipos de respostas. A primeira é dada pelo midrash. Nessa leitura, Isaac e Jacob eram homens justos. Ismael e Esaú não eram.

Ismael adorou ídolos (1). Ele violou mulheres casadas (2). Ele tentou matar Isaac com seu arco e flecha fazendo parecer que era um acidente (3). Esaú foi atraído, mesmo no útero, para santuários idólatras (4). Ele trapaceou não apenas outros, mas também a seu pai, Isaac, fingindo ser piedoso quando não era (5). D-s reduziu a vida de Abraão em cinco anos para que ele não vivesse para ver seu neto violar uma mulher noiva, cometer assassinato, negar D-s, negar a ressurreição dos mortos e desprezar o direito da primogenitura (6). Assim é a descrição do midrash. Isso nos ajuda a ver Isaac e Jacob como perfeitamente bons; Ismael e Esaú como perigosamente ruins. Essa é uma parte importante da nossa tradição.

Mas não é a descrição da própria Torá escrita, ao menos quando buscamos o que o Rashbam chamou de omek peshutô shel mikrá, o “sentido simples da Escritura” (7). A Torá não retrata Ismael e Esaú como perversos. O pior que tem a dizer sobre Ismael é que Sarah o viu metzachek (Gen. 21:9), uma palavra com muitos significados, a maioria delas não negativas. Literalmente, significa que “ele estava rindo”. Mas Abraão e Sarah também riram (8). O mesmo aconteceu com Isaac (9). De fato, o nome de Isaac, escolhido pelo próprio D-s (10), significa: “Ele vai rir”. Não há nada na própria palavra que implique uma conduta imprópria (11).

No caso de Esaú, o versículo mais mencionado é aquele em que ele concorda ceder seu direito de primogenitura em troca de uma tigela de sopa (Gen. 25:34). Em uma série destacada de cinco verbos consecutivos, a Torá diz que ele “comeu, bebeu, levantou, foi e desprezou” seu direito de nascença. No entanto, isso nos diz que ele era impetuoso; nada mais grave do que isso.

Se buscarmos o “sentido simples”, devemos confiar no testemunho explícito da própria Torá – e o que nos diz é fascinante. Ismael será, um anjo disse a Hagar antes de ele nascer, “um homem selvagem, e a mão dele estará contra todos e a mão de todos contra ele” (Gen. 16:12). Ele se tornou um especialista em arco e flecha (Gen. 21:20). Esaú, de cabelos ruivos, fisicamente maduro em uma idade jovem, era “um caçador hábil, um homem do campo” (Gen. 25:27). Ismael e Esaú estavam confortáveis na natureza. Eles eram fortes, habilidosos, sem medo da natureza. Em qualquer outra cultura, eles poderiam ter emergido como heróis.

E esse é o ponto. Só entenderemos a Torá se nos lembrarmos de que todas as outras religiões do mundo antigo adoravam a natureza. Foi nela que elas encontraram D-s, ou mais precisamente, os deuses: no sol, na lua, nas estrelas, na tempestade, na chuva que alimentava a terra e na terra que dava comida.

Curiosamente, no século XXI, os ateus, os agnósticos e os devotos da Nova Era ainda “adoram” a natureza. Isso, para eles, é a realidade final. Nós compartilhamos 98% de nossos genes com os chimpanzés. A seleção natural envolveu certos instintos e reflexos em nosso cérebro. A arte humana é como as penas do pavão: uma forma de atrair fêmeas para que possamos transmitir nossos genes para a próxima geração.

Nós somos inteiramente produtos da natureza. Nós somos seres físicos: nada mais porque não há mais nada. Não há alma; não há liberdade real; A vida humana não é sagrada, nem somos diferenciados em espécie de outros animais. Tudo o que há é a natureza. Isso, grosso modo, era a visão de Spinoza (D-s é a natureza vista sob o aspecto da eternidade). Era a visão de Lucrecio na Roma antiga e Epicuro na Grécia pré-cristã, e é hoje a filosofia secular predominante.

O D-s de Abraão estava além da natureza, porque criou a natureza. E somos à imagem de D-s porque, apesar de sermos pó da terra, também temos dentro de nós o sopro de D-s. Podemos conceber possíveis mundos que ainda não existiram e agir para trazê-los a existência. É o que nos dá liberdade e nos torna únicos. Podemos distinguir entre o que é e o que deveria ser. Podemos fazer a pergunta “Por quê?”

Após o dilúvio, D-s se reconciliou com a natureza humana e prometeu nunca mais destruir o mundo (Gen. 8-9). No entanto, ele queria que a humanidade soubesse que existe algo além da natureza. É por isso que ele escolheu Abraão e seus descendentes como Suas “testemunhas” (12).

Não por acaso foram Abraão-e-Sarah, Isaac-e-Rebeca, e Jacob-e-Rachel, incapazes de ter filhos por meios naturais. Também não por acaso D-s prometeu a terra santa a um povo sem terra. Ele escolheu Moisés, o homem que disse sobre si mesmo que não era homem de palavras, para ser o portador de Sua palavra. Moisés pensou que isso o desqualificava para ser o porta-voz de D-s. Na verdade, foi precisamente isso que o qualificou. Quando ele falou as palavras de D-s, as pessoas sabiam que as palavras não eram suas. Outros povos consideram ter filhos e terra – o imperativo darwiniano e o imperativo territorial – como natural. Os judeus não o fazem e não podem. Como David Ben-Gurion disse: “Em Israel, para ser um realista você tem que acreditar nos milagres”.

Isaac e Jacob não eram homens da natureza, do campo, da caça, do jogo de gladiadores, predadores e presas. Eles não eram Ismael e Esaú, pessoas que poderiam sobreviver por sua própria força e habilidade. Eles eram homens que precisavam do espírito de D-s para sobreviver. Israel é o povo que em si testemunha algo além de si. Os judeus demonstraram consistentemente que você pode contribuir para a humanidade de forma desproporcional em relação ao seu número e que uma pequena nação pode sobreviver a todo império que buscou sua destruição. Eles mostraram que uma nação é forte quando se importa com os fracos, é rica quando se importa com os pobres. Os judeus são as pessoas, através das quais D-s mostrou que o espírito humano pode se elevar acima da natureza, testemunhando que existe algo real que transcende a natureza.

Essa é uma ideia que muda a vida. Somos tão grandes quanto nossos ideais. Se realmente acreditamos em algo além de nós mesmos, alcançaremos conquistas além de nós mesmos.

 

 

NOTAS:
1- Bereshit Rabá 53:11.
2- Shemot Rabá 1:1.
3- Bereshit Rabá 53:11.
4- Bereshit Rabá 63:6.
5- Tanhumá, Toledot 8.
6- Baba Batrá 16b.
7- Rashbam to Gen. 37:2, 28; Ex. 3:14, 13:9.
8- 17:17; 18:12.
9- 26:8.
10- 17:19.
11- Robert Alter faz a sugestão engenhosa que significa que Ismael era “Isaac-ing”, imitando seu irmão mais novo (Robert Alter, The Five Books of Moses: uma tradução com comentários, Norton, 2004, 103).
12- Isaias 43:10-12; 44:8.

 

Texto original “WHY ISAAC? WHY JACOB?” por Rabin Jonathan Sacks
Tradução Rachel Klinger Azulay para a Sinagoga Edmond J. Safra – Ipanema

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