YTRÔ

Posted on fevereiro 16, 2017

YTRÔ

Justiça ou Paz?

Uma parceria da Sinagoga Edmond J. Safra – Ipanema com o escritório do Rabino Jonathan Sacks (The Office of Rabbi Sacks)

A parashá de Yitró, que contém o relato da maior revelação Divina na história, no Monte Sinai, começa com uma nota que é humana, muito humana. Yitró, sacerdote de Midian, veio ver como seu genro Moises e o povo que ele lidera estão se saindo. Ela começa por nos contar o que Yitró ouviu (os detalhes do êxodo e seus milagres). Continua descrevendo o que Yitró viu, e isso lhe deu motivo de preocupação.

Ele viu Moisés liderando o povo sozinho. O resultado era ruim para Moisés e ruim para o povo. Isto é o que Yitró disse:

O sogro de Moisés disse: “O que você está fazendo não é bom. Você e esse povo que vêm a você se desgastarão. O trabalho é muito pesado para você; você não pode aguentar sozinho. Ouça-me agora e eu vou lhe dar conselhos, e que D-s esteja com você. Você deve ser o representante do povo diante de D-s e trazer seus litígios a Ele. Ensine-lhes os decretos e as leis, e mostre-lhes o caminho para viver e os deveres que devem desempenhar. Mas escolha de todo o povo homens capazes – homens que temem a D-s, homens de confiança que odeiam ganho desonesto – e os nomeie como oficiais por milhares, centenas e dezenas. Peça-lhes que sirvam como juízes para o povo em todos os momentos, mas que eles tragam todos os casos difíceis para você; os casos simples eles podem decidir. Isso fará sua carga mais leve, porque eles vão dividi-la com você. Se você fizer isso e D-s assim ordenar, você será capaz de suportar a tensão, e assim também todo esse povo chegará ao seu lugar em paz” (Ex. 18:17-23).

Moisés precisou aprender a delegar e compartilhar o fardo da liderança. Curiosamente, a frase “O que você está fazendo não é bom (lo tov)” é um dos dois únicos lugares na Torá onde a frase “não é bom” aparece. O outro (Gen. 2:18) é “Não é bom para o homem estar sozinho”. Nós não podemos liderar sozinhos; não podemos viver sozinhos. Esse é um dos axiomas da antropologia bíblica. A palavra hebraica para vida – chayim – é no plural, como se significasse que a vida é essencialmente compartilhada. Dean Inge definiu a religião como “o que um indivíduo faz com sua própria solidão”. Isso não é um pensamento judaico. No entanto, foi o grande erudito do século XIX, o Netziv (R. Naftali Zvi Yehudah Berlim), que fez uma observação inesperada, mesmo contra intuitiva sobre essa passagem. Ele começa levantando a seguinte pergunta. É fácil entender como o conselho de Yitró ajudou Moisés. O trabalho era demais. Ele estava ficando exausto. Ele precisava de ajuda. O que é menos fácil de entender é seu último comentário: se, com a permissão de D-s, você delegar, “assim também todo esse povo chegará ao seu lugar em paz”. O povo não estava exausto; Moisés estava. Como então ganhariam com um sistema de delegação? Seus casos ainda seriam ouvidos – mas não por Moisés. Como isso seria vantajoso para eles? (Harchev Davar para Êxodo 18:23).

O Netziv começa citando o Talmud, Sanhedrin 6a. A passagem é sobre o que os sábios chamaram de bitzua, ou o que mais tarde se tornou conhecido como peshará, conciliação. É uma decisão por parte de um juiz em um processo civil para buscar uma solução baseada na equidade, em vez da aplicação estrita da lei. Não é totalmente diferente da mediação, na qual as partes concordam com uma resolução que ambos considerem justa, independentemente de estar ou não baseada em estatuto ou precedente. De uma perspectiva diferente, é um modo de resolução de conflitos em que ambos os lados ganham, em vez da pura administração da justiça, em que um lado ganha, o outro perde. O Talmud quer saber: isso é bom ou ruim? Deve ser adotado ou evitado? Isso faz parte do debate:

Rabi Eliezer, filho de R. José o Galileu, disse: é proibido mediar… Em vez disso, deixe a lei perfurar a montanha [um ditado semelhante a: “Deixe as fichas caírem onde podem”]. E assim o lema de Moisés era: Que a lei perfure a montanha. Aarão, no entanto, amava a paz e buscava a paz e fazia a paz entre as pessoas… R. Judá ben Korcha disse: “É bom mediar, pois está escrito (Zacarias 8:16): “Executai o juízo da verdade e da paz nas vossas portas”. Certamente onde há justiça estrita, não há paz, e onde há paz, não há justiça estrita! Qual é então a justiça que coexiste com a paz? Temos de dizer: mediação.

A lei segue o R. Judah ben Korcha. É admissível, mesmo preferível, mediar – com uma condição, que o juiz ainda não saiba quem está certo e quem está errado. É precisamente essa incerteza nos estágios iniciais de uma audiência que permite que uma resolução equitativa seja favorecida sobre uma estrita legalidade. Se o juiz já tiver chegado a um veredicto claro, seria uma supressão da justiça de sua parte favorecer uma solução de conciliação.

Aplicando engenhosamente esse princípio aos israelitas nos dias de Moisés, Netziv aponta que – como diz o Talmud – Moisés preferiu justiça estrita à paz. Ele não era um homem para conciliar ou mediar. Além disso, como o maior dos profetas, ele sabia quase que instantaneamente qual das partes era inocente e qual era culpada; quem tinha o direito do seu lado e quem não tinha. Era impossível mediar, pois isso só é permitido antes do juiz ter chegado a um veredicto, que no caso de Moisés era quase imediatamente.

Daí a surpreendente conclusão do Netziv. Ao delegar a função jurídica para baixo na hierarquia, Moisés trouxe pessoas comuns – sem nenhum dom profético ou legal especiais – para os assentos do julgamento. Precisamente porque não tinham o conhecimento intuitivo de Moisés sobre a lei e justiça, podiam propor soluções equitativas e uma solução equitativa é aquela em que ambos os lados sentem-se ouvidos; ambos ganham; ambos acreditam que o resultado é justo. Esse, como diz o Talmud, é o único tipo de justiça que ao mesmo tempo cria a paz. É por isso que a delegação de julgamento não só ajudaria Moisés a evitar o esgotamento total; também ajudaria “todo esse povo” a “chegar ao seu lugar em paz”.

Como é profunda essa ideia. Moisés era o Ish ha-Elokim (Salmo 90:1), o homem supremo de D-s. Havia, no entanto, como coloca o Netziv, uma coisa que ele não podia fazer; o que outros – menores em todos os outros aspectos – poderiam conseguir. Eles poderiam trazer a paz entre as partes em disputa. Poderiam criar formas não violentas e não coercitivas de resolução de conflitos. Não conhecendo a lei com a mesma profundidade que Moisés, não tendo seu senso intuitivo de verdade, eles tiveram que exercitar paciência. Eles tinham que ouvir os dois lados. Eles tinham que chegar a um veredicto equitativo que ambas as partes pudessem ver como justo. Um mediador tem dons diferentes de um profeta, um libertador, um legislador – talvez mais modesto, mas às vezes não menos necessário.

Não é que um tipo de caráter seja preferível a outro. Ninguém – e certamente não o Netziv – considerava Moisés nada menos do que o maior líder e profeta que Israel jamais teve. É que nenhum indivíduo pode encarnar todas as virtudes necessárias para sustentar um povo. Um sacerdote não é um profeta (embora alguns, como Samuel e Ezequiel, eram ambos). Um rei precisa de virtudes diferentes de um santo. Um líder militar não é (embora, mais tarde, ele possa se tornar) um homem de paz.

O que emerge no final da linha de pensamento que o Netziv põe em movimento é o profundo significado da ideia de que não podemos nem viver nem liderar sozinhos. O judaísmo não é tanto uma fé que transaciona na privacidade da alma do crente. É uma fé social. Trata-se de redes de relacionamentos. Trata-se de famílias, comunidades e, finalmente, uma nação, na qual cada um de nós, grande ou pequeno, tem um papel a desempenhar. “Não despreze ninguém e não despreze nada”, disse Ben Azzai (Avot 4:3), “pois não há quem não tenha sua hora e nada que não tenha o seu lugar”. Havia alguma coisa que pessoas comuns (chefes de milhares, centenas, dezenas) conseguiriam que mesmo Moisés, em toda a sua glória, não conseguiria alcançar. É por isso que uma nação é maior do que qualquer indivíduo, e porque cada um tem algo para dar.

 

Texto original: “JUSTICE OR PEACE” por Rabino Jonathan Sacks.
Tradução Rachel Klinger Azulay para a Sinagoga Edmond J. Safra – Ipanema

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