VAYAKEL-PEKUDEI

Posted on março 23, 2017

VAYAKEL-PEKUDEI

Acampamentos e Viagens

Logo no final do livro de Shemot há uma dificuldade textual tão sutil que é fácil não notar, ainda assim – como interpretado por Rashi – contém uma das grandes pistas sobre a natureza da identidade judaica: é um testemunho comovente do desafio único de ser judeu.

Primeiro, os antecedentes. O Tabernáculo está finalmente construído. Sua construção levou muitos capítulos para ser relatado. Nenhum outro evento nos anos do deserto foi descrito com tantos detalhes. Agora, no primeiro dia de Nissan, exatamente um ano depois de Moisés ter dito ao povo para começar seus preparativos para o êxodo, ele monta os feixes e as cortinas, e coloca os móveis e utensílios no lugar. Há um paralelismo inconfundível entre as palavras que a Torá usa para descrever a conclusão do trabalho por parte de Moisés e aquelas que ela usa acerca de D-s no sétimo dia da criação:

E Moisés terminou [vayechal] o trabalho [hamelachá].

E D-s terminou [vayechal] no sétimo dia o trabalho [melachtô] que Ele tinha feito.

O versículo seguinte diz o resultado:

Então a nuvem cobriu a Tenda da Reunião, e a glória do Senhor encheu o Tabernáculo.

O significado é claro e revolucionário. A criação do santuário pelos israelitas pretende representar um paralelo humano à criação Divina do universo. Ao criar o mundo, D-s criou um lar para a humanidade. Ao criar o Tabernáculo, a humanidade criou um lar para D-s.

De uma perspectiva humana, D-s enche o espaço que fazemos para Sua presença. Sua glória existe onde nós renunciamos à nossa. O imenso detalhamento da construção está ali para nos dizer que, por toda parte, os israelitas estavam obedecendo às instruções de D-s ao invés de improvisar as suas. O local específico chamado “o santo” é onde encontramos D-s em Seus termos, não nos nossos. Contudo, isso também é a maneira de D-s dotar dignidade à humanidade. Somos nós que edificamos Sua casa para que Ele possa preencher o que fizemos. Nas palavras de um famoso filme: “Se você construir, ele virá”.

Bereshit começa com D-s criando o cosmos. Shemot finaliza com os seres humanos fazendo um microcosmos, uma miniatura simbólica do universo. Assim toda a narrativa de Gênesis-Êxodo é um único vasto espaço que começa e termina com o esse conceito cheio de D-s, com esta diferença: que no início a obra é feita por D-s-o-Criador. No final, é feito por homem-e-mulher-criadores. Toda a história intricada tem sido uma história com um tema abrangente: a transferência do poder e da responsabilidade da criação do céu para a terra, de D-s para a imagem de D-s chamada humanidade.

Esse é o histórico. No entanto, os versículos finais do livro continuam a nos dizer sobre a relação entre a “nuvem da glória” e o Tabernáculo. O Tabernáculo, lembremo-nos, não era uma estrutura fixa. Ele foi feito para ser portátil. Ele poderia ser rapidamente desmontado e suas partes transportadas quando os israelitas faziam seu caminho para a próxima etapa de sua viagem. Quando chegava a hora dos israelitas prosseguirem, a nuvem movia-se de seu lugar de repouso na Tenda da Reunião para uma posição fora do campo, sinalizando a direção que deveriam então tomar. É assim que a Torá faz a descrição desse momento:

Quando a nuvem subia do alto do tabernáculo, os israelitas prosseguiam em todas as suas jornadas, mas se a nuvem não se elevava, eles não partiam até o dia em que a nuvem se levantava. Então a nuvem do Senhor estava sobre o tabernáculo de dia, e o fogo estava na nuvem à noite, à vista de toda a casa de Israel em todas as suas jornadas (1).

Há uma diferença pequena, mas significativa, entre os dois momentos onde aparece a frase bechol mas’ehem, “em todas as suas viagens”. No primeiro momento as palavras devem ser consideradas literalmente. Quando a nuvem se elevava e avançava, os israelitas sabiam que iam viajar. No entanto, no segundo momento, as palavras não podem ser tomadas literalmente. A nuvem não estava sobre o Tabernáculo em todas as suas jornadas. Pelo contrário: estava lá apenas quando paravam de viajar e acampavam. Durante as viagens, a nuvem seguia adiante.

Notando isso, Rashi faz o seguinte comentário:

Um lugar onde eles acampavam também é chamado massá, “uma viagem”… Porque a partir do local do acampamento sempre partiam novamente para uma nova viagem, portanto, são todas chamadas de “viagens”.

A questão é linguística, mas a mensagem é relevante. Rashi encapsulou em poucas palavras – “um lugar onde acampavam também é chamado de viagem” – a verdade existencial no coração da identidade judaica. Enquanto ainda não chegarmos ao nosso destino, até mesmo um lugar de descanso ainda é chamado de viagem – porque sabemos que não estaremos ali para sempre. Ainda há um caminho a percorrer. Nas palavras do poeta Robert Frost:

O bosque é adorável, escuro e profundo.

Mas eu tenho promessas para satisfazer,

E milhas para caminhar antes de dormir.

Ser judeu é viajar, e saber que aqui onde estamos é um mero lugar de repouso, ainda não um lar. É definido pelo fato não de estarmos aqui, mas pelo conhecimento de que ao final – depois de um dia, uma semana, um ano, um século, às vezes até um milênio – teremos que seguir em frente. Assim, o Tabernáculo portátil, ainda mais do que o Templo em Jerusalém, tornou-se o símbolo da vida judaica.

Por quê? Porque os deuses do mundo antigo eram deuses de um lugar: Samaria, Memphis, Moab, Edom. Eles tinham um domínio específico. A teologia estava ligada à geografia. Aqui, neste lugar santo, feito magnificamente por ‘zigurat’ ou Templo, os deuses da tribo ou do estado governavam e exerciam poder sobre a cidade ou o império. Quando o Faraó diz a Moisés: “Quem é o Senhor para quem eu devo obedecer e deixar Israel ir? Eu não conheço o Senhor e não deixarei Israel ir” (2). Ele quer dizer – aqui, eu sou o poder soberano. O Egito tem seus próprios deuses. Dentro de seus limites, somente eles governam, e eles me delegaram esse poder, seu representante terrestre. De fato, pode haver um D-s de Israel, mas o Seu poder e autoridade não se estendem ao Egito. A soberania divina é como a soberania política. Tem fronteiras. Tem localização espacial. É limitado por um lugar no mapa.

Com Israel uma velha-nova ideia (ela retorna, de acordo com a Torá, a Adão e Caim, Abraão e Jacob, todos que sofreram exílio) renasce: que D-s, estando em toda parte, pode ser encontrado em qualquer lugar. Ele é o que Morris Berman chama de “D-s errante”. Assim como no deserto Sua nuvem de glória acompanhou os israelitas em sua longa e sinuosa jornada, assim – disseram os rabinos – “quando Israel foi para o exílio, a Divina presença foi com eles”. D-s não pode ser confinado a um lugar específico. Mesmo em Israel, Sua presença no meio do povo dependia da obediência à Sua palavra. Portanto, não existe tal coisa como a segurança física, o certo conhecimento de que aqui-eu-estou-e-aqui-eu-fico. Como David disse no Salmo 30:

Quando me senti seguro, eu disse:

“Eu nunca serei abalado”.

… Mas quando Você escondeu Seu rosto,

Eu fiquei assustado.

A segurança não pertence ao lugar, mas à pessoa, não a um espaço físico na superfície da terra, mas a um espaço espiritual no coração humano.

Se alguma coisa é responsável pela força inigualável da identidade judaica durante os longos séculos em que eles foram espalhados pelo mundo, uma minoria em todos os lugares, é isso – o conceito ao qual judeus e o judaísmo deram o nome galut, o exílio. Único entre as nações do mundo antigo ou moderno, com poucas exceções eles não se converteram à fé dominante nem se assimilaram à cultura dominante. A única razão foi porque eles nunca confundiram um lugar particular com sua casa, um local temporário como destino final.  “Agora estamos aqui”, disseram eles no início do serviço do seder, “mas no ano que vem, na terra de Israel”.

Na lei judaica (Yorê Deá 286:22), quem aluga uma casa fora de Israel é obrigado a afixar uma mezuzá somente após trinta dias. Até então, ainda não é considerada como uma habitação. Somente após trinta dias se torna, de fato, uma casa. Em Israel, porém, quem aluga uma casa é imediatamente obrigado a mishum yishuv eretz Israel, “por causa do mandamento para se estabelecer em Israel”. Fora de Israel, a vida judaica é um caminho, uma rota. Mesmo um acampamento, um lugar de descanso, ainda é chamado de uma viagem.

Há uma cena maravilhosa no capítulo 19 do Primeiro Livro de Reis. Eliahu envelhecido encontra D-s na montanha, na “voz mansa” que segue o vento, o terremoto e o fogo. D-s lhe diz que ele deve nomear Elishá como seu sucessor. É o que ele faz:

Então Eliahu saiu de lá e encontrou Elishá, filho de Shaphat. Ele estava lavrando com doze bois, e ele mesmo estava dirigindo o décimo-segundo. Eliahu foi até ele e jogou seu manto em torno de Elishá. Elishá então deixou seus bois e correu atrás de Eliahu. “Deixe-me despedir-me de meu pai e minha mãe”, disse ele, “e então eu irei com você”.

“Volta”, respondeu Eliahu. “O que eu fiz para você?”

Então Elishá o deixou e voltou. Ele tomou seus bois e os matou. Ele queimou o equipamento de arar para cozinhar a carne e deu ao povo, e eles comeram. Então partiu para seguir Eliahu e tornou-se seu servo.

Elishá não esperava o chamado. No entanto, sem demora, ele abandona tudo para seguir Eliahu. Quase como se estivesse apavorado com a severidade da exigência que ele está fazendo para o homem mais novo, Eliahu parece mudar de ideia no último momento: “Volte. O que eu fiz para você?” (Há um eco aqui de uma passagem anterior em que Naomi tenta persuadir Ruth a não segui-la: “Voltem cada uma de vocês à casa de sua mãe… Voltem para casa, minhas filhas, por que vocês viriam comigo?” Em ambos os casos, Ruth e Elishá provam sua vocação negando-se a ser dissuadidos). No final de seu ensaio, O Solitário Homem de Fé, o rabino Joseph Soloveitchik dá uma análise profundamente comovente do encontro:

“Elishá era um representante típico da comunidade majestosa, filho de um próspero fazendeiro, um homem de propriedade, cujos interesses eram centrados em torno deste mundo, bens materiais, tais como colheitas, pecuária e preços de mercado… O que esse homem majestoso tem em comum com Eliahu, o solitário profeta da aliança, o campeão de D-s, o adversário dos Reis, que andou como um estranho através das cidades movimentadas de Shomron…?

Que laço poderia existir entre um fazendeiro complacente que apreciava sua propriedade e o homem vestido com peles que veio do nada e finalmente desapareceu sob um véu de mistério? [Ainda assim] despediu-se de pai e mãe e partiu de sua casa para sempre. Como seu mestre, ele se tornou um “sem teto”, desabrigado. Como seu antepassado Jacob, ele se tornou um “arameu desgarrado” que sofreu derrota e humilhação com caridade e gratidão… Elishá estava realmente solitário, mas em sua solidão encontrou O Solitário e descobriu o singular confronto da aliança do homem solitário e D-s que permanece nos recessos da solidão transcendental”.

Essa cena foi repetida várias vezes durante os anos 1948-51, quando uma após outra das comunidades judaicas em terras árabes – o Magrebe, o Iraque, o Iêmen – despediram-se das casas em que haviam vivido durante séculos e partiram para Israel. Em 1990, o Dalai Lama, que vivia no Tibete desde 1951, convidou um grupo de estudiosos judeus a visitá-lo no norte da Índia. Percebendo que ele e seus seguidores teriam que passar muitos anos antes de lhes ser permitido voltar, ele ponderou: “Como um modo de vida se sustenta longe de casa?” Ele percebeu que um grupo acima de todos os outros tinha enfrentado e resolvido esse problema: os judeus. Então ele se voltou para eles para se aconselhar (a história é contada no livro de Roger Kamenetz, O Judeu no Lótus).

Se a resposta judaica – que tem a ver com a fé no D-s da história – é aplicável ao budismo é um ponto discutível, mas o encontro, não obstante, foi fascinante porque mostrou que mesmo o Dalai Lama, líder de um grupo muito distante do judaísmo, reconheceu que há algo inigualável na capacidade judaica de permanecer fiel aos termos de sua existência apesar da dispersão; nunca perdendo a fé de que um dia os exilados retornariam à sua terra.

Como e por que isso aconteceu está contida nessas simples palavras de Rashi no final de Shemot. Mesmo quando em repouso, os judeus sabiam que um dia teriam de arrancar as suas tendas, desmantelar o Tabernáculo e seguir em frente. “Mesmo um acampamento é chamado de uma viagem”. Um povo que nunca para de viajar é aquele que nunca envelhece ou permanece complacente. Pode viver no aqui-e-agora, mas está sempre consciente do passado distante e do futuro ainda-por-vir. “Mas eu tenho promessas para satisfazer, e milhas para caminhar antes de dormir.”

NOTAS:
– Shemot 40:36-38
– Êxodo 5:2

 

Texto original: “ENCAMPMENTS AND JOURNEYS” por Rabino Jonathan Sacks.
Tradução Rachel Klinger Azulay para a Sinagoga Edmond J. Safra – Ipanema

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