VAYETSÊ

Posted on novembro 14, 2018

VAYETSÊ

Quando o “Eu” é Silencioso

A parashá desta semana relata uma poderosa visão primal da oração: Jacó, sozinho e longe de casa, deita-se para a noite, com apenas pedras como travesseiro, e sonha com uma escada, com anjos subindo e descendo. Este é o encontro inicial com a “casa de D-s” que um dia se tornaria a sinagoga, o primeiro sonho de um “portão do céu” que permitiria o acesso a um D-s que está acima, nos informando finalmente que “D-s está verdadeiramente Neste lugar.”

Há, no entanto, uma nuance no texto que é perdido na tradução, e os mestres chassídicos precisaram nos lembrar disso. Os verbos hebraicos carregam com eles, em suas declinações, uma indicação de seu assunto. Assim, a palavra yadati significa “eu sabia”, e lo yadati, “eu não sabia”. Quando Jacó acorda de seu sono, porém, ele diz: “Certamente o Senhor está neste lugar ve’anokhi lo yadati”. Anokhi significa “Eu”, que nesta frase é supérfluo. Para traduzi-lo literalmente, teríamos que dizer: “E eu, eu não sabia”. Por que o duplo “eu”?

Para isso, o rabino Pinchas Horowitz (Panim Yafot) deu uma resposta magnífica. Como, ele pergunta, chegamos a saber que “D-s está neste lugar”? “Por ve’anokhi lo yadati – não conhecer o eu”. Conhecemos D-s quando nos esquecemos do ego. Sentimos o “tu” da Presença Divina quando nos movemos para além do “eu” do egocentrismo. Somente quando paramos de pensar em nós mesmos nos tornamos verdadeiramente abertos ao mundo e ao Criador. Neste insight, encontra-se uma resposta a algumas das grandes questões sobre a oração: Que diferença faz? Isso realmente muda D-s? Certamente D-s não muda. Além do que, a oração não contradiz o princípio mais fundamental da fé, que é que somos chamados a fazer a vontade de D-s em vez de pedir a D-s que faça a nossa? O que realmente acontece quando oramos?

A oração tem duas dimensões, uma misteriosa, a outra não. Há simplesmente muitos casos de orações sendo respondidas por nós para negar que isso faz diferença em nosso destino. Isso acontece. Eu ouvi uma vez a seguinte história. Um homem em um campo de concentração nazista perdeu a vontade de viver – e nos campos da morte, se você perdeu a vontade de viver, você morreu. Naquela noite, ele derramou seu coração em oração. Na manhã seguinte, ele foi transferido para trabalhar na cozinha do acampamento. Lá ele conseguiu, quando os guardas não estavam olhando, roubar algumas cascas de batata. Foram essas cascas que o mantiveram vivo. Eu ouvi essa história do filho dele.

Talvez cada um de nós tenha alguma dessas histórias. Em tempos de crise, clamamos das profundezas de nossa alma e algo acontece. Às vezes só nos damos conta depois, olhando para trás. A oração faz diferença para o mundo – mas como isso é misterioso.

Há, no entanto, uma segunda dimensão que não é misteriosa. Menos que a oração muda o mundo, ela nos muda. O verbo hebraico lehitpalel, que significa “orar”, é reflexivo, implicando uma ação feita a si mesmo. Literalmente, significa “julgar a si mesmo”. Significa escapar da prisão do eu e ver o mundo, inclusive a nós mesmos, do lado de fora. A oração é onde a primeira pessoa implacável singular, o “eu”, fica em silêncio por um momento e nos tornamos conscientes de que não somos o centro do universo. Existe uma realidade fora. Esse é um momento de transformação

Se pudéssemos apenas parar de fazer a pergunta “Como isso me afeta?”, veríamos que estamos cercados de milagres. Existe a quase infinita complexidade e beleza do mundo natural. Existe a palavra divina, nosso maior legado como judeus, a biblioteca de livros que chamamos de Bíblia. E há o drama inigualável, espalhando-se ao longo de quarenta séculos, das tragédias e triunfos que se abateram sobre o povo judeu. Respectivamente, estas representam as três dimensões do nosso conhecimento de D-s: criação (D-s na natureza), revelação (D-s em palavras santas) e redenção (D-s na história).

Às vezes é preciso uma grande crise para nos fazer perceber como somos egocêntricos. A única questão forte o suficiente para dotar a existência de significado não é: “O que eu preciso da vida?”, Mas “O que a vida precisa de mim?” Essa é a pergunta que ouvimos quando verdadeiramente oramos. Mais do que um ato de falar, a oração é um ato de ouvir – o que D-s quer de nós, aqui e agora. O que descobrimos – se somos capazes de criar esse silêncio na alma – é que não estamos sozinhos. Estamos aqui porque alguém, o Uno, queria que fôssemos, e Ele nos estabeleceu uma tarefa que só podemos fazer. Nós emergimos fortalecidos, transformados.

Mais do que a oração muda D-s, isso nos muda. Permite-nos ver, sentir, saber que “D-s está neste lugar”. Como alcançamos essa consciência? Movendo-nos além da primeira pessoa do singular, de modo que por um momento, como Jacó, podemos dizer: “Eu não conheço o eu”. No silêncio do “eu”, encontramos o “tu” de D-s.

Shabat Shalom

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