BEHALOTCHA

Posted on junho 8, 2017

BEHALOTCHA

Liderança Além Do Desespero

O Tanach, a Bíblia hebraica, é notável pelo extremo realismo com o qual retrata o caráter humano. Seus heróis não são sobre-humanos. Os não heróis não são vilões arquetípicos. O melhor tem falhas; o pior, muitas vezes tem virtudes de salvação. Não conheço nenhuma outra literatura religiosa como esta.

Isso torna muito difícil usar a narrativa bíblica para ensinar uma abordagem simples e clara de ética. É por isso – argumentou R. Zvi Hirsch Chajes (Mevo ha-Agadot) – que o midrash rabínico muitas vezes re-interpreta sistematicamente a narrativa para que o bem se torne todo-bem e o mal todo-mal. Por motivos educacionais sólidos, o Midrash pinta a vida moral em termos claros.

No entanto, o sentido literal permanece (“Uma passagem bíblica nunca perde sua interpretação simples”, Shabat 63a), e é importante que não o tornemos invisível. É como se o monoteísmo fosse criado ao mesmo tempo que um humanismo profundo. D-s na Bíblia hebraica não tem nada a ver com os deuses da mitologia. Eles eram meio humanos, meio divinos. O resultado foi que, na literatura épica das culturas pagãs, os heróis humanos eram vistos quase como deuses: semidivinos.

Em grande contraste, o monoteísmo cria uma distinção total entre D-s e a humanidade. Se D-s é totalmente D-s, então os seres humanos podem ser vistos como totalmente humanos – perspicazes, uma complexa mistura de forças e fraquezas. Nós nos identificamos com os heróis da Bíblia porque, apesar de sua grandeza, eles nunca deixam de ser humanos, nem aspiram a ser outra coisa. Daí o fenômeno que a parashá de Behaalotechá fornece como exemplo devastador: a vulnerabilidade de alguns dos maiores líderes religiosos de todos os tempos, a depressão e o desespero.

O contexto é bastante familiar. Os israelitas estão reclamando da comida: A multidão entre eles começou a desejar outros alimentos, e novamente os israelitas começaram a lamentar e disseram: “Se nós tivéssemos carne para comer! Lembramo-nos dos peixes que comemos no Egito, sem custos, também os pepinos, melões, alho-poró, cebolas e alho. Mas agora perdemos o apetite; Nunca vemos nada além desse maná!” (Números 11:4-6).

Essa não é uma nova história. Já a ouvimos antes (veja, por exemplo, Êxodo 16). Ainda assim, nesta ocasião, Moisés experimenta o que só se pode chamar de colapso:

Ele perguntou ao Senhor: “Por que você trouxe esse problema ao seu servo? O que eu fiz para desagradar você de modo que o fardo de todas essas pessoas recaia sobre mim? Eu concebi todas essas pessoas? Eu as trouxe à vida? … Eu não posso liderar todas essas pessoas sozinho; o fardo é muito pesado para mim. Se é assim que você vai me tratar, mate-me agora mesmo – se eu encontro graça aos Seus olhos – não me deixe enfrentar a minha própria ruína” (Números 11:11-15).

Moisés reza por morte! Ele não é a única pessoa no Tanach a fazê-lo. Há pelo menos três outros. Há Eliahu, quando, após o seu exitoso confronto com os profetas de Baal no Monte Carmel, teve um mandado para ser morto pela rainha Jezebel.

Eliahu estava com medo e lutou por sua vida. Quando ele chegou a Beersheba em Judá, ele deixou seu criado lá, enquanto ele mesmo foi em um dia de viagem ao deserto. Ele chegou a uma árvore, sentou-se debaixo dela e rezou para morrer. “Eu já tive o suficiente, Senhor”, disse ele. “Pegue minha vida; Não sou melhor do que os meus antepassados” (I Reis 19:3-4).

Há Jonas, depois que D-s perdoou os habitantes de Nínive:

Jonas estava muito descontente e ficou bravo. Ele orou ao Senhor, “Senhor, isso não é o que eu disse quando ainda estava em casa? É por isso que eu fui tão rápido para Tarsis. Eu sabia que você é um D-s gracioso e compassivo, lento para a ira e abundante no amor, um D-s que cede para não enviar calamidades. Agora, ó Senhor, tire minha vida, pois é melhor morrer do que viver” (Jonas 4:1-3).

E há Jeremias, depois que o povo não prestou atenção à sua mensagem e o humilhou publicamente.

“Ó Senhor, você me atraiu e fui seduzido; Você me dominou e prevaleceu. Eu sou ridicularizado durante todo o dia; Todos se burlam de mim… A palavra do Senhor me provocou insulto e opróbrio durante todo o dia… Maldito seja o dia em que nasci! Que o dia que minha mãe me deu a luz não seja abençoado! Maldito seja o homem que trouxe ao meu pai a notícia, o fez muito feliz, dizendo: “Uma criança nasceu para você – um filho!” … Por que eu saí do ventre para ver problemas e tristezas e encerrar meus dias com vergonha?” (Jeremias 20:7-18).

Lehavdil elef havdalot: nenhuma comparação se faz entre os heróis religiosos do Tanach e os heróis políticos do mundo moderno. Eles são diferentes, vivendo em diferentes épocas, funcionando em diferentes esferas. Ainda assim, encontramos um fenômeno semelhante em uma das grandes figuras do século XX, Winston Churchill. Durante a maior parte de sua vida, ele foi propenso a períodos de depressão aguda. Ele chamou esses períodos de “o cachorro preto”. Ele disse à sua filha: “Eu consegui muito para não conseguir nada no final”. Ele disse à um amigo que “ele reza todos os dias pela morte”. Em 1944, ele disse a seu médico, Lord Moran, que se ele evitava ficar perto de uma plataforma de trem ou na borda de um navio porque ele poderia ser tentado a se suicidar: “O desespero de um segundo acabaria com tudo” (essas citações foram pegas de Churchill’s Black Dog por Anthony Storr).

Por que os maiores são muitas vezes perseguidos por uma sensação de fracasso? Storr, no livro mencionado acima, oferece algumas ideias psicológicas convincentes. Mas, no nível mais simples, vemos certos traços comuns, pelo menos entre os profetas bíblicos: um impulso apaixonado para mudar o mundo, combinado com uma profunda sensação de inadequação pessoal. Moisés diz: “Quem sou eu? … Para que eu lidere os israelitas para fora do Egito?” (Êxodo 3:11). Jeremias diz: “Não posso falar: sou apenas uma criança” (Jeremias 1: 6). Jonas tenta fugir de sua missão. O próprio senso de responsabilidade que leva um profeta a atender o chamado de D-s pode levá-lo a se culpar quando as pessoas ao seu redor não atendem o mesmo chamado.

Ainda assim, é essa mesma voz interior que, em última análise, possui a cura. O profeta não acredita em si mesmo: ele acredita em D-s. Ele não aceita liderar porque se vê como um líder, mas porque ele vê uma tarefa a ser feita e ninguém mais disposto a fazê-la. Sua grandeza não está dentro de si mesmo, mas além de si mesmo: no seu senso de ser convocado para uma tarefa que deve ser feita, por mais insuficiente que ele se considere.

O desespero pode ser parte da própria liderança. Pois, quando o profeta se vê injuriado, repreendido, criticado; quando suas palavras caem em descrédito, quando ele vê as pessoas ouvindo o que querem ouvir, não o que precisam ouvir – então é quando as últimas camadas do seu ego são queimadas, restando apenas a tarefa, a missão, o chamado. Quando isso acontece, nasce uma nova grandeza. Agora não importa mais que o profeta seja impopular e ignorado. Tudo o que importa é o trabalho e Aquele que o convocou para ele. É quando o profeta chega à verdade declarada por Rabi Tarfon: “Pode ser que voce não complete a tarefa, mas também você não é livre para se afastar dela” (Avot 2:16).

Novamente, sem procurar equiparar o sagrado e o secular, termino com algumas palavras faladas por Theodore Roosevelt (em um discurso para alunos da Sorbonne, Paris, 23 de abril de 1910), que resumem tanto o desafio e o consolo da liderança em cadências de eloqüência atemporal:

Não é o crítico que conta, nem o homem que aponta como o homem forte tropeça, ou onde o autor de ações poderia realmente ter feito melhor. O crédito pertence ao homem que está realmente na arena, cujo rosto está coberto por poeira, suor e sangue; que se esforça valentemente, que erra e volta uma e outra vez. Porque não há esforço sem erros e defeitos; mas quem realmente se esforça para realizar os feitos, quem possui grande entusiasmo, grande devoção, quem se desgasta em uma causa digna, quem, no melhor dos casos, sabe no final o triunfo de uma grande conquista, e quem, no pior dos casos, se ele falha, pelo menos falha enquanto ousa muito; então seu lugar nunca estará com aquelas almas frias e tímidas que nem conhecem a vitória nem a derrota.

A liderança em uma causa nobre pode trazer desespero. Mas também é a cura.

 

Texto original: “LEADERSHIP BEYOND DESPAIR” por Rabino Jonathan Sacks.
Tradução Rachel Klinger Azulay para a Sinagoga Edmond J. Safra – Ipanema

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