NASSÔ

Posted on maio 30, 2017

NASSÔ

A Busca da Paz

A parashá de Nassô parece, à primeira vista, ser uma coletânea heterogênea de itens completamente desvinculados. Primeiro há o relato das famílias levitas de Guershon e Merarí e suas tarefas de levar partes do Tabernáculo quando os israelitas viajavam. Então, depois de duas breves leis sobre a remoção de pessoas impuras do campo e sobre a restituição, chega a estranha provação da Sotá – a mulher suspeita, por seu marido, de adultério.

Em seguida vem a lei do nazireu, a pessoa que voluntariamente – e geralmente por um período fixo – assumia restrições especiais de santidade, entre elas a renúncia ao vinho e produtos de uva, aos cortes de cabelo e à contaminação por contato com um cadáver.

Isso é seguido, nova e aparentemente sem conexão, por uma das orações mais antigas do mundo ainda em uso contínuo: as bênçãos sacerdotais.

Após isso, com inexplicável repetição, vem o relato dos presentes trazidos pelos príncipes de cada tribo na consagração do Tabernáculo – uma série de parágrafos longos repetidos não menos que doze vezes – já que cada príncipe trouxe uma oferta idêntica a outra.

Por que a Torá gasta tanto tempo descrevendo um evento que poderia ter sido afirmado muito mais brevemente nomeando os príncipes e, em seguida, simplesmente descrevendo genericamente que cada um trouxe um prato de prata, uma bacia de prata e assim por diante? No entanto, a questão que ofusca todas os outras é: qual é a lógica dessa série aparentemente desconectada?

A resposta está na última palavra da bênção sacerdotal: shalom, paz. Numa longa análise, o comentarista judeu espanhol do século 15, Rabino Isaac Arama, explica que shalom não significa meramente a ausência de guerra ou conflito. Significa completude, perfeição, o trabalho harmonioso de um sistema complexo, diversidade integrada, um estado em que tudo está em seu devido lugar e tudo está em sintonia com as leis físicas e éticas que governam o universo.

“A paz é o fio da graça que emana d’Ele, que Ele seja exaltado, unindo todos os seres, superiores, intermediários e inferiores. Ele fundamenta e sustenta a realidade e a existência única de cada um” (Akedat Yitzhak, capítulo 74). Da mesma forma, Isaac Abrabanel escreve: “É por isso que D-s é chamado paz, porque é Ele que liga o mundo e ordena todas as coisas de acordo com seu caráter e postura particular. Pois quando as coisas estão na sua ordem, a paz reinará” (Abrabanel, comentário para Avot 2:12).

Esse é um conceito de paz fortemente dependente da visão de Gênesis 1, em que D-s traz a ordem a partir de tohu va-vohu, caos, criando um mundo no qual cada objeto e forma de vida tem seu lugar. A paz existe onde cada elemento do sistema é avaliado como uma parte vital do sistema como um todo e onde não há discórdia entre eles. As várias disposições da parashá Nassô são todas sobre trazer a paz neste sentido.

O caso mais óbvio é o da Sotá, a mulher suspeita de adultério por seu marido. O que impactou com mais força os sábios sobre o ritual da Sotá é o fato de que isso implicava apagar o nome de D-s, algo estritamente proibido sob outras circunstâncias. O sacerdote oficiante recitava uma maldição incluindo o nome de D-s, escrevia-o em um rolo de pergaminho e depois dissolvia a escrita em uma água especialmente preparada. Os sábios deduziram disso que D-s estava disposto a renunciar à Sua própria honra, permitindo que Seu nome fosse apagado “para fazer a paz entre marido e mulher”, limpando uma mulher inocente de suspeita. Embora essa provação tenha sido abolida por Raban Yohanan ben Zakai após a destruição do Segundo Templo, a lei serviu como um lembrete de como a paz doméstica é importante na escala judaica de valores.

A passagem relativa às famílias levitas de Guershon e Merarí sinaliza que eles receberam um papel de honra no transporte de itens do Tabernáculo durante as viagens do povo através do deserto. Evidentemente, eles ficaram satisfeitos com essa honra, ao contrário da família de Kehat, detalhada no final da parashá da semana passada, onde um deles, Korach, acabou instigando uma rebelião contra Moisés e Aarão.

Da mesma forma, o longo relato das oferendas dos príncipes das doze tribos é uma forma dramática de indicar que cada um foi considerado suficientemente importante para merecer sua própria passagem na Torá. As pessoas farão coisas destrutivas se se sentirem desprezados, e não lhes ser dado o devido papel e reconhecimento. Novamente o caso de Korach e seus aliados é a prova disso. Ao dar às famílias levitas e aos príncipes das tribos a sua parte de honra e atenção, a Torá nos diz como é importante preservar a harmonia da nação honrando a todos.

O caso do nazireu é, de certa forma, o mais interessante. Há um conflito interno no interior do judaísmo entre, por um lado, uma forte ênfase na dignidade igual de todos aos olhos de D-s, e a existência de uma elite religiosa na forma da tribo de Levi, em geral, e dos cohanim, os sacerdotes, em particular. Parece que a lei do nazireu foi uma forma de abrir a possibilidade aos não Cohanim de uma santidade especial próxima, embora não precisamente idêntica, à dos próprios Cohanim. Isso também foi uma maneira de evitar os ressentimentos prejudiciais que podem ocorrer quando as pessoas se encontram excluídas pelo nascimento de certas formas de status dentro da comunidade.

Se essa análise é correta, então um único tema liga as leis e a narrativa dessa parashá: o tema de fazer esforços especiais para preservar ou restaurar a paz entre as pessoas. A paz é facilmente danificada e difícil de reparar. Grande parte do restante do livro de Bamidbar é um conjunto de variações sobre o tema da dissensão interna e da discórdia. Assim como a história judaica tem sido como um todo.

Nassô nos diz que temos de ir uma milha extra para trazer a paz entre marido e mulher, entre os líderes da comunidade, e entre os leigos que aspiram a um estado de santidade maior do que o usual.

Portanto, não é por acaso que as bênçãos sacerdotais terminam – como fazem a grande maioria das orações judaicas – com uma oração pela paz. A paz, disseram os rabinos, é um dos nomes do próprio D-s, e Maimônides escreve que toda a Torá foi dada para fazer a paz no mundo (Leis de Hanuká 4:14). Nassô é uma série de lições práticas sobre como assegurar, na medida do possível, que todos se sintam reconhecidos e respeitados, e que a suspeita seja desarmada e dissolvida. Temos de trabalhar pela paz e orar por ela.

 

Texto original: “THE PURSUIT OF PEACE” por Rabino Jonathan Sacks.
Tradução Rachel Klinger Azulay para a Sinagoga Edmond J. Safra – Ipanema

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