BERESHIT

Posted on outubro 9, 2017

BERESHIT

A Fé de D-s

Em uma prosa majestosa, a Torá, em seu capítulo inicial, descreve o desdobramento do universo, a criação sem esforço de uma única Força criativa. Repetidamente, lemos: “E D-s disse: Que haja… e houve… e D-s viu que era bom” – até que chegamos à criação da humanidade. De repente, todo o tom da narrativa muda:

E D-s disse: “Façamos o homem à nossa imagem, à nossa semelhança, e deixem-nos governar sobre os peixes do mar, e sobre os pássaros do céu, e sobre o gado, e sobre toda a terra e sobre toda coisa que se move sobre a terra”.

Então, D-s criou o homem à Sua imagem,

À imagem de D-s, Ele o criou,

Masculino e feminino, Ele os criou (Gênesis 1:26-27).

Os problemas são óbvios. Primeiro, por que o prefácio, “Façamos…”? Em nenhum outro caso, D-s reflete verbalmente sobre o que Ele está prestes a criar antes que Ele o crie. Em segundo lugar, quem é o “nós”? Naquele momento, não havia “nós”. Havia apenas D-s.

Há muitas respostas, mas aqui eu quero me concentrar apenas em uma dada pelo Talmud. É extraordinário. O “nós” refere-se aos anjos a quem D-s consultou. Ele fez isso porque Ele enfrentou um dilema fatídico. Ao criar o Homo sapiens, D-s criou o ser que não Ele próprio, capaz de destruir a vida na Terra. Leia Jared Diamond em seu Guns, Germs and Steel ou em Collapse e você descobrirá como os humanos têm sido destrutivos onde quer que eles tenham colocado os pés, criando danos ambientais e devastação humana em grande escala. Ainda estamos fazendo isso. É assim que o Talmud descreve o que aconteceu antes de D-s criar a humanidade:

Quando o Santo, abençoado seja Ele, veio para criar o homem, Ele criou um grupo de anjos ministeriais e perguntou: “Vocês concordam que devemos fazer o homem à nossa imagem?” Eles responderam: “Soberano do Universo, quais serão seus atos?”

D-s mostrou-lhes a história da humanidade. Os anjos responderam: “O que é o homem para Você estar pensando nele?” [Em outras palavras, que o homem não seja criado].

D-s destruiu os anjos.

Ele criou um segundo grupo e lhes fez a mesma pergunta, e eles deram a mesma resposta. D-s os destruiu.

Ele criou um terceiro grupo de anjos, e eles responderam: “Soberano do Universo, o primeiro e o segundo grupo de anjos Lhe disseram para não criar o homem e Você não os aprovou. Você não ouviu. O que então podemos dizer além disso: o universo é Seu. Faça com ele como Você desejar”.

Então D-s criou o homem.

Quando chegou a geração do Dilúvio, e depois a geração dos construtores de Babel, os anjos disseram a D-s: “Não estavam certos os primeiros anjos? Veja quão grande é a corrupção da humanidade”.

Então D-s respondeu (Isaías 46: 4): “Até a velhice Eu não vou mudar, e até os cabelos grisalhos, Eu ainda serei paciente” (Sanhedrin 38b).

Isso vai ao núcleo do dilema, que mesmo D-s não conseguiu escapar. Se ele não criasse a humanidade, não haveria ninguém no universo capaz de entender que ele ou ela foi criado e que D-s existe. Somente com o nascimento da humanidade, o universo tornou-se auto-consciente. Sem nós, seria como se D-s tivesse criado bilhões de robôs fazendo, sem pensar, o que eles estavam programados para fazer, por toda a eternidade. Então, mesmo que criando seres humanos D-s estava colocando todo o futuro da criação em risco, D-s avançou e fez a humanidade.

Essa é, de fato, a teologia radical. O Talmud está nos dizendo que a existência da humanidade só pode ser explicada pelo fato de D-s ter fé no homem. Como o Sifrê explica a frase na canção de Moisés, “o D-s da fé”, ela significa, “o D-s que teve fé no universo e o criou” (1). O verdadeiro mistério religioso, de acordo com o judaísmo, não é nossa fé em D-s. É a fé de D-s em nós.

Essa é a idéia extraordinária que brilha ao longo de todo o Tanach. D-s investe suas esperanças para o universo nessa criatura estranha, refratária, mal humorada, ingrata, e às vezes degenerada, chamada Homo sapiens, parte pó da terra, parte sopro de D-s, cujo comportamento O desaponta e às vezes O afasta. Ainda assim, ele nunca desiste.

Ele tenta com Adão, Noé, Abraão, Isaac, Jacob, Moisés, Josué, uma série de juízes e reis. Ele tenta com mulheres também, e aqui tem muito mais sucesso. Elas são mais fiéis, menos violentas, menos obcecadas com o poder. Mas Ele se recusa a desistir dos homens. Ele tem Seu relacionamento mais fervoroso com os profetas. Eles O entendem e se tornam portadores de Sua palavra. Contudo, a maioria dos profetas acaba tão desapontada com o povo quanto D-s.

O verdadeiro assunto da Torá não é nossa fé em D-s, que muitas vezes é vacilante, mas Sua fé infalível em nós. A Torá não é o livro do homem sobre D-s. É o livro de D-s sobre o homem. Ele dispende meros 34 versículos para descrever Sua própria criação do universo, mas mais de 500 versículos descrevendo a criação dos israelitas de uma pequena, temporária e portátil construção chamada Mishkan, o Santuário. D-s nunca deixa de acreditar em nós, amar-nos e esperar o melhor de nós. Há momentos em que Ele quase se desespera. Nossa parashá diz isso.

O Senhor viu como a perversidade da raça humana se tornou grande na terra, e que toda inclinação dos pensamentos do coração humano era apenas má todo o tempo. O Senhor lamentou ter feito seres humanos na terra, e Ele se afligiu na sua própria essência.

Mas Noé, bom, inocente, correto, consolou-O. Por causa de um bom homem, D-s estava preparado para começar de novo.

Claro, tudo isso é uma questão de fé – como é toda crença nos pensamentos e sentimentos de outras pessoas além de mim. Eu realmente sei se os mais próximos de mim – meu marido ou esposa, meus filhos, meus companheiros, meus amigos – me amam ou têm fé em mim, ou isso é apenas um desejo da minha parte? Os ateus às vezes pensam que a crença em D-s é irracional, enquanto a crença em outras pessoas é racional. Isso simplesmente não é assim. A prova é o fracasso do homem que, no início do Iluminismo, procurou colocar a filosofia de forma racional: René Descartes. Descartes disse a famosa frase: Cogito ergo sum, “Eu penso, logo existo”. Tudo o que ele tinha certeza era de sua própria existência. Para qualquer outra coisa – a existência de objetos físicos, sem falar em outras mentes – mesmo ele teve que invocar D-s.

Eu não tenho fé suficiente para ser um ateu (2). Para ser um ateu, você tem que ter fé, seja na humanidade como um todo, ou em você mesmo. Como alguém pode ter fé na humanidade após o Holocausto desafiar toda razão. O crime mais calculado e prolongado do homem contra o homem não aconteceu em algum país ignorante do terceiro mundo, mas no coração de uma Europa que deu à luz Kant e Hegel, Bach e Beethoven, Goethe e Schiller. A civilização falhou completamente de ser civilizada. O humanismo não tornou os homens humanos.

Quando visitei Auschwitz-Birkenau pela primeira vez, a pergunta que me assombrou não foi: “Onde estava D-s?” D-s estava no mandamento: “Não matarás”. D-s estava nas palavras: “Você não oprimirá o estrangeiro”. D-s estava dizendo à humanidade: “O sangue do seu irmão está chorando para mim desde a terra”. D-s não deteve os primeiros seres humanos de comer a fruta proibida. Ele não impediu Caim de cometer assassinato. Ele não impediu os egípcios de escravizar os israelitas. D-s não nos salva de nós mesmos. Isso, de acordo com o Talmud, é o porquê criar o homem era um tamanho risco que os anjos desaconselharam. A questão que me assombra após o Holocausto, como acontece hoje nesta nova era de caos, é “Onde está o homem?”

Quanto a acreditar apenas em você mesmo, isso é a arrogância. Todo pensador sério, desde o alvorecer da história, soube que isso acaba em ruína.

Existem apenas duas possibilidades sérias para serem consideradas por mentes sérias. Seja a proposta apresentada pela Torá de que estamos aqui porque uma Força maior do que o universo quis que estivéssemos, seja a alternativa que o universo existe por causa de uma flutuação aleatória no campo quântico, e estamos aqui por causa de uma sequência irracional de mutações genéticas filtradas cegamente pela seleção natural. Existe ou não existe significado à condição humana. A primeira possibilidade é produzida por Isaías, a segunda, por Sófocles, Aeschylus e a tragédia grega. A Grécia da antiguidade morreu. Israel de Abraão e Moisés ainda vive.

Respeito aqueles que escolhem a tragédia grega ao invés da esperança judaica. Mas aqueles que escolheram o judaísmo deram espaço em suas mentes para a maior ideia que muda a vida: tenhamos ou não fé em D-s, D-s tem fé em nós.

Pode haver momentos em nossas vidas – certamente houve na minha – quando o sol desaparece e entramos na nuvem negra de desespero. O rei David conhecia bem esses sentimentos. Eles são temas de vários salmos. As pessoas podem ser brutais entre si. Há aqueles que, tendo sofrido dor, encontram alívio ao infligir dor aos outros. Você pode perder a fé na humanidade, em você ou em ambos. Nesses momentos, o conhecimento de que D-s tem fé em nós é transformador, redentor. Como David disse no Salmo 27: Mesmo que meu pai ou minha mãe me abandonassem, O Senhor ainda me receberia (Salmo 27:10).

Podemos perder a coragem; D-s nunca perderá. Podemos nos desesperar; D-s nos dará esperança. D-s acredita em nós mesmo se nós não acreditarmos em nós mesmos. Podemos pecar e nos desiludir e ficar destituídos uma e outra vez, mas D-s nunca deixa de nos perdoar quando falhamos e nos levanta quando caímos.

Tenha fé na fé de D-s em nós e você encontrará o caminho da escuridão para a luz.

 

NOTAS:
1] Sifrê, Ha’azinu, 307.
2] É claro que um ateu pode dizer – Sigmund Freud chegou perto de dizer isso – que a fé é simplesmente uma ilusão reconfortante. Isso realmente não é assim. Exige muito mais esforço acreditar que D-s nos convoca à responsabilidade, que Ele nos pede para lutar pela justiça, igualdade e dignidade humana, e que Ele nos responsabiliza pelo que fazemos; do que acreditar que não há significado para a existência humana, além das que inventamos para nós mesmos, sem a verdade derradeira, sem padrões morais absolutos, e ninguém a quem deveremos dar conta de nossas vidas. Cinquenta anos de reflexão sobre essa questão me levaram a concluir que é o ateísmo, moralmente e existencialmente, a opção fácil – e eu digo isso tendo conhecido e estudado com alguns dos maiores ateus do nosso tempo. Isso não quer dizer que seja um crítico dos ateus. Pelo contrário, em uma época secular, é a opção padrão. É por isso que agora, mais do que em qualquer outro momento nos últimos dois mil anos, é preciso coragem para ter fé e viver pela fé religiosa.

 

Texto original: “THE FAITH OF GOD”- por Rabino Jonathan Sacks
Tradução Rachel Klinger Azulay para a Sinagoga Edmond J. Safra – Ipanema

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