NOACH

Posted on outubro 18, 2017

NOACH

O Traço de D-s

A história dos primeiros oito capítulos de Bereshit é trágica, mas simples: criação, seguida de destruição, seguida de recriação. D-s cria ordem. Os seres humanos, então, destroem essa ordem, até o ponto em que “o mundo estava cheio de violência”, e “toda a carne havia corrompido o caminho na Terra”. D-s traz um dilúvio que limpa toda a vida, até que – com exceção de Noé, sua família e outros animais – a terra voltou ao estado em que estava no início da Torá, quando “a terra estava sem forma e vazia, a escuridão estava sobre a superfície do abismo e o espírito de D-s estava pairando sobre as águas”.

Prometendo nunca mais destruir toda a vida – embora não garanta que a humanidade não o faça por conta própria – D-s começa novamente, desta vez com Noé no lugar de Adão, pai de um novo começo para a história humana. Gênesis 9 é, portanto, paralelo ao Gênesis 1. Mas há duas diferenças significativas.

Em ambos há uma palavra-chave, repetida sete vezes, mas é uma palavra diferente. Em Gênesis 1, a palavra é tov, “bom”. Em Gênesis 9, a palavra é brit, “aliança”. Essa é a primeira diferença.

A segunda diferença é que ambos afirmam que D-s criou a pessoa humana à Sua imagem, mas eles o fazem de formas marcadamente diferentes. Em Gênesis 1, lemos:

E D-s disse: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança, e que governem sobre os peixes do mar, e sobre os pássaros do céu, e sobre o gado, e sobre toda a terra e sobre todas as coisas que se movem sobre a terra.

Então, D-s criou o homem à Sua imagem,
À imagem de D-s, ele o criou,
Macho e fêmea, ele os criou” (Gênesis 1:26-27).

E é assim que é dito em Gênesis 9:

“Quem derramar o sangue do homem, pelo homem o seu sangue será derramado;
Pois à imagem de D-s, Ele fez homem” (Gênesis 9:6).

A diferença aqui é fundamental. Gênesis 1 me diz que eu sou à imagem de D-s. Gênesis 9 me diz que a outra pessoa é à imagem de D-s. Gênesis 1 fala sobre o domínio do Homo sapiens sobre o resto da criação. Gênesis 9 fala sobre a santidade da vida e a proibição do assassinato. O primeiro capítulo nos fala sobre o poder potencial dos seres humanos, enquanto o nono capítulo nos fala sobre os limites morais desse poder. Não podemos usá-lo para privar outra pessoa da vida.

Isso também explica por que a palavra-chave, repetida sete vezes, muda de “bom” para “aliança”. Quando chamamos algo de bom, estamos falando sobre como é em si mesmo. Mas quando falamos de aliança, estamos falando de relacionamentos. Um pacto é um vínculo moral entre pessoas.

O que diferencia o mundo após o dilúvio do mundo anterior é que os termos da condição humana mudaram. D-s já não espera que as pessoas sejam boas porque é de sua natureza ser assim. Pelo contrário, D-s agora sabe que “toda inclinação do coração humano é má desde a infância” (Gênesis 8:21) – e isso apesar do fato de que fomos criados à imagem de D-s.

A diferença é que existe apenas um D-s. Se houvesse apenas um ser humano, ele ou ela poderia viver em paz com o mundo. Mas sabemos que isso não poderia ser o caso porque “não é bom para o homem estar sozinho”. Somos animais sociais. E quando um ser humano pensa que ele ou ela tem poderes divinos vis-à-vis outro ser humano, o resultado é violência. Portanto, pensar em si com deus, se você é humano, totalmente humano, é realmente muito perigoso.

É por isso que, com um simples movimento, D-s transformou os termos da equação. Após o dilúvio, ensinou a Noé – e através dele toda a humanidade – que devemos pensar, não sobre nós mesmos, mas sobre o outro humano, como à imagem de D-s. Essa é a única maneira de nos salvar da violência e da autodestruição.

Isso realmente é uma ideia que muda a vida. Isso significa que o maior desafio religioso é: posso ver a imagem de D-s em alguém que não é à minha imagem – cuja cor, classe, cultura ou credo é diferente do meu?

As pessoas temem pessoas que não são como elas. Isso tem sido uma fonte de violência desde que tem havido vida humana na Terra. O estranho, o estrangeiro, o forasteiro, quase sempre é visto como uma ameaça. Mas e se o contrário for o caso? E se as pessoas que não são como nós ampliem, ao invés de pôr em perigo o nosso mundo?

Há uma bênção estranha que dizemos depois de comer ou beber algo sobre o qual fazemos a bênção shehakol. Eis: borê nefashot rabot vechesronam. D-s “cria muitas almas e suas deficiências”. Entendido literalmente é quase incompreensível. Por que devemos louvar a D-s por criar deficiências?

Uma bela resposta (1) é que, se não tivéssemos deficiências, e portanto não tendo falta de coisa alguma, nunca precisaríamos de mais ninguém. Seríamos solitários e não sociais. O fato de sermos todos diferentes, e todos termos deficiências, significa que precisamos uns dos outros. O que falta em você, eu posso ter, e o que eu não tenho, você pode ter. É juntando-nos que podemos dar ao outro algo que ele ou ela não tem. São nossas deficiências e diferenças que nos reúnem em ganho mútuo, em um cenário ganha-ganha (2). É a nossa diversidade que nos torna animais sociais.

Essa é a visão expressa na famosa declaração rabínica: “Quando um ser humano faz muitas moedas na mesma fábrica, todas saem iguais. D-s nos faz todos na mesma fábrica, na mesma imagem, Sua imagem, e todos nós saímos diferentes” (3). Essa é a base do que eu chamo – foi o título de um dos meus livros – a dignidade da diferença.

Essa é uma ideia que muda a vida. Na próxima vez que nos encontrarmos com alguém radicalmente diferente de nós, devemos tentar ver a diferença não como uma ameaça, mas como um presente para aumentar a criação de possibilidades. Após o dilúvio e para evitar um mundo “cheio de violência” que levou ao dilúvio, D-s nos pede para ver Sua imagem em alguém que não é minha imagem. Adão sabia que ele era à imagem e semelhança de D-s. Noé e seus descendentes são obrigados a lembrar que a outra pessoa é à imagem e semelhança de D-s.

O grande desafio religioso é: posso ver um traço de D-s na face de um estranho?

 

NOTAS:
(1) Agradeço ao Sr. Joshua Rowe, de Manchester, de quem ouvi essa adorável ideia pela primeira vez.
(2) Foi o que levou os pensadores como Montesquieu no século XVIII a conceituar o comércio como uma alternativa à guerra. Quando duas tribos diferentes se encontram, elas podem negociar ou lutar. Se elas lutam, uma pelo menos irá perder e a outra, também, sofrerá perdas. Se elas negociarem, ambas ganharão. Essa é uma das contribuições mais importantes da economia de mercado para a paz, a tolerância e a capacidade de ver a diferença como uma benção, não uma maldição. Veja Albert O. Hirschman, As paixões e os interesses: argumentos políticos para o capitalismo antes de seu triunfo, Princeton: Princeton University Press, 2013.
(3) Mishná, Sanhedrin 4:5.

 

Texto original “THE TRACE OF GOD” por Rabino Jonathan Sacks
Tradução Rachel Klinger Azulay para a Sinagoga Edmond J. Safra – Ipanema

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