PINCHAS

Posted on julho 9, 2017

PINCHAS

Influência e Poder

Sabendo que estava próximo da morte, Moisés volta-se para D-s e pede que Ele aponte um sucessor. Moisés disse ao Senhor, “Possa o Senhor, D-s dos espíritos de toda humanidade, apontar um homem para essa comunidade que saia e venha diante deles, alguém que vai liderá-los para ir e vir, de maneira que o povo do Senhor não seja como carneiro sem um pastor” (Números 27-15:17).

É um gesto altruísta e visionário. Conforme Rashi comenta: “Isso é para contar o louvor do homem correto – que quando eles estão prestes a deixar esse mundo, eles colocam de lado suas próprias necessidades e se preocupam com as necessidades da comunidade”. Grandes líderes pensam sobre o futuro a longo prazo. Eles estão preocupados com sucessão e continuidade. Assim foi com Moisés. D-s diz a Moisés para designar Josué, ‘um homem em quem há espírito’. Ele lhe dá instruções precisas sobre como organizar a sucessão:

Pegue Josué, filho de Nun, um homem em quem está o espírito, e coloque sua mão sobre ele. Faça-o ficar diante de Eleazar o sacerdote e de toda a assembleia e indique-o na presença deles. Dê-lhe parte da sua autoridade para que toda a comunidade israelita lhe obedeça… Sob o comando dele, ele e toda a comunidade dos israelitas sairão, e sob seu comando entrarão” (Números 27:18-21).

Há três ações envolvidas aqui: [1] Moisés deveria colocar a mão sobre Josué; [2] Fazê-lo ficar diante do sacerdote Eleazar e de toda a assembleia e; [3] dar-lhe “parte da sua autoridade [me-hodecha]”. Qual é o significado desse processo em três partes? O que nos diz sobre a natureza da liderança no judaísmo?

Há também um midrash fascinante sobre o primeiro e o terceiro desses gestos:

E coloque sua mão sobre ele – isso é como acender uma vela com outra. Dê-lhe parte da sua autoridade – isso é como esvaziar um utensilio jorrando sobre o outro (Bamidbar Rabá 21:15).

Sob essas palavras enigmáticas está uma verdade fundamental sobre a liderança.

In L’esprit Des Lois (1748), Montesquieu, um dos grandes filósofos políticos do Iluminismo, estabeleceu sua teoria da “separação dos poderes” em três ramos: o legislativo, o executivo e o judiciário. Por trás disso havia uma preocupação com o futuro da liberdade, caso o poder se concentrasse em uma única fonte:

A liberdade não prospera porque os homens têm direitos naturais, ou porque eles se revoltam se seus líderes os colocam muito de lado. Ela floresce porque o poder é tão distribuído e tão organizado que, quem quer que seja tentado a abusar dele, encontra restrições legais em seu caminho.

A fonte de Montesquieu não foi a Bíblia – mas há, em um verso em Isaías, uma ideia surpreendentemente semelhante:

Pois o Senhor é nosso juiz; O Senhor é nosso legislador; O Senhor é nosso rei; Ele nos salvará (Isaías 33:22).

Essa divisão tripartite também pode ser encontrada em Devarim / Deuteronômio 17-18 na passagem que trata dos vários papéis de liderança na Israel antiga: o rei, o sacerdote e o profeta. Os sábios falaram mais tarde sobre “três coroas” – as coroas da Torá, do sacerdócio e da realeza. Stuart Cohen, que escreveu um elegante livro sobre o assunto, The Three Crowns, observa que “o que emerge dos textos [bíblicos] não é democracia em todo o sistema político, mas uma noção distinta de compartilhamento de poder em seus níveis mais altos. Nem a Escritura nem os escritos rabínicos mais recentes expressam qualquer simpatia com um sistema de governo, no qual um único organismo de todo o grupo possui o monopólio da autoridade política”.

O processo em três partes, através do qual Josué deveria ser inserido no cargo tinha a ver com os três tipos de liderança. Especificamente o segundo estágio – “Faça-o ficar diante de Eleazar o sacerdote e de toda a assembleia e indique-o na presença deles” – teve a ver com o fato que Moisés não era sacerdote. Seu sucessor teve que ser formalmente reconhecido pelo representante do sacerdócio, Eleazar o sumo sacerdote.

Poder e influência são muitas vezes entendidos como sendo o mesmo tipo de coisa: aqueles que têm poder têm influência e vice-versa. Na verdade eles são bem diferentes. Se eu tenho poder total e depois decido compartilhar com outros nove, eu agora tenho apenas um décimo do poder que eu tinha antes. Se eu tenho uma certa medida de influência e depois a compartilho com outras nove, eu não tenho menos. Eu tenho mais. Ao invés de uma pessoa irradiando essa influência, há agora dez. O poder funciona por divisão, a influência pela multiplicação.

Moisés ocupou dois papéis. Ele era o equivalente funcional de um rei. Ele tomou as principais decisões relativas ao povo: como eles deveriam ser organizados, a rota que deveriam seguir em sua jornada, quando e com quem eles deveriam guerrear. Mas ele também era o maior dos profetas. Ele falava a palavra de D-s.

Um rei tinha poder. Ele governou. Ele tomou decisões militares, econômicas e políticas. Aqueles que o desobedeciam enfrentavam a possível pena de morte. Um profeta não tinha qualquer poder. Ele não comandava batalhões. Ele não tinha como fazer suas visões serem cumpridas. Mas ele tinha uma enorme influência. Nós hoje mal lembramos os nomes da maioria dos reis de Israel e de Judá. Mas as palavras dos profetas continuam a inspirar pela força absoluta de sua visão e ideais. Como Kierkegaard disse uma vez: Quando um rei morre, seu poder termina; Quando um profeta morre, sua influência começa.

Moisés deveria conferir ambos os papéis para Josué como seu sucessor. “Coloque sua mão sobre ele” significa, dê-lhe seu papel como profeta, o intermediário através de quem a palavra de D-s é transmitida ao povo. Até hoje usamos a mesma palavra, semichá (colocando as mãos), para descrever o processo através do qual um rabino ordena seus discípulos. “Dê-lhe parte da sua autoridade [me-hodecha]” refere-se ao segundo papel. Significa, investe-o com o poder que você possui como um rei.

Agora entendemos o midrash. Influência é como acender uma vela com outra. Compartilhar sua influência com outra pessoa não significa que você tenha menos; você tem mais. Quando usamos a chama de uma vela para acender outra vela, a primeira não é diminuída. Agora há, simplesmente, mais luz.

Transferir poder, no entanto, é como esvaziar um utensilio jorrando sobre o outro. Quanto mais poder você dá, menos você tem. O poder de Moisés acabou com sua morte. Sua influência, no entanto, permanece até hoje.

O judaísmo tem uma atitude ambivalente em relação ao poder. É necessário. Sem ele, nas palavras de Rabi Hanina, sumo sacerdote substituto, “as pessoas iriam se comer umas às outras vivas” (Avot 3:2). Mas o judaísmo há muito reconheceu que (citando Lord Acton), o poder tende a corromper e o poder absoluto corrompe absolutamente. Influência – a relação do profeta com o povo, do professor com o discípulo – é completamente diferente. É um jogo de soma não-zero. Através dele, ambos professores e discípulos crescem. Ambos são aprimorados.

Moisés deu a Josué seu poder e sua influência. O primeiro foi essencial para as futuras tarefas políticas e militares. Mas foi a segunda que fez de Josué uma das grandes figuras da nossa tradição. A influência é simplesmente mais duradoura do que o poder.

 

Texto original: “INFLUENCE AND POWER” por Rabino Jonathan Sacks
Tradução Rachel Klinger Azulay para a Sinagoga Edmond J. Safra – Ipanema

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