TAZRIA – METSORÁ

Posted on abril 25, 2017

TAZRIA – METSORÁ

EXISTE LASHON TOV?

Os sábios entenderam tsara’at, o tema da parashá desta semana, não como uma doença, mas como uma milagrosa exposição pública do pecado de lashon hará, falar mal das pessoas. O judaísmo é uma reflexão sustentada sobre o poder das palavras para curar ou prejudicar, consertar ou destruir. Assim como D-s criou o mundo com palavras, assim criamos e podemos destruir relacionamentos com palavras.

Os rabinos disseram muito sobre lashon hará, mas praticamente nada sobre o corolário, lashon tov, “boa fala”. A frase não aparece nem no Talmud da Babilônia nem no Talmud Yerushalmi. Ele figura apenas em duas passagens midráshicas onde se refere a louvar a D-s. Mas lashon hará não significa falar mal de D-s. Significa falar mal dos seres humanos. Se é pecado falar mal sobre as pessoas, é uma mitsvá falar bem sobre elas? Aqui meu argumento será que sim, e para mostrar isso, vamos fazer uma jornada pelas fontes.

Em Mishná Avot, Ética dos Pais (2:10-11), lemos o seguinte:

Raban Yochanan ben Zakai tinha cinco (proeminentes) discípulos, Rabi Eliezer ben Hyrcanus, Rabi Joshua ben Chananya, Rabi Yose, o Sacerdote, Rabi Shimon ben Netanel e Rabi Elazar ben Arach.

Ele costumava repetir seus elogios: Eliezer ben Hyrcanus: um poço que nunca perde uma gota. Joshua ben Chananya: feliz aquele que lhe deu nascimento. Yose o Sacerdote: um homem piedoso. Shimon ben Netanel: um homem que teme o pecado. Elazar ben Arach: uma fonte sempre fluente.

No entanto, a prática de Raban Yochanan em louvar seus discípulos parece estar em contradição com um princípio talmúdico:

Rav Dimi, irmão de Rav Safra disse: Que ninguém nunca fale em louvor ao seu vizinho, porque o elogio levará à crítica (Arachin 16a).

Rashi dá duas explicações dessa afirmação. Tendo feito o elogio exagerado [yoter midai], o próprio orador virá qualificar suas observações admitindo, por causa do equilíbrio, que a pessoa de quem fala também tem falhas. Alternativamente, outros vão apontar suas falhas. Para Rashi, a consideração crucial é: o louvor é prudente, exato, verdadeiro ou exagerado? Se é verdadeiro, é permitido; se é exagerado, é proibido. Evidentemente, Raban Yochanan tinha o cuidado de não exagerar.

Rambam, no entanto, vê as coisas de forma diferente. Ele escreve: “Quem fala bem do seu próximo na presença de seus inimigos é culpado de uma forma secundária de falar mal [avak lashon hará], pois ele os provocará a falar mal sobre a pessoa” (Hilchot Deot 7:4). De acordo com o Rambam a questão não é se o elogio é moderado ou excessivo, mas o contexto em que é feito. Se for feito na presença dos amigos da pessoa sobre quem você está falando, é permitido. É proibido somente quando você está entre seus inimigos e detratores. O louvor então se torna uma provocação com consequências ruins.

São apenas duas opiniões ou há algo mais profundo em questão? Há uma passagem famosa no Talmud que discute como uma pessoa deve entoar elogios à uma noiva em seu casamento:

Nossos Rabinos ensinaram: como você deve dançar diante da noiva [i.e. O que deveria entoar]?

Os discípulos de Hillel afirmam que, em um casamento, você deve entoar que a noiva é linda, quer ela seja ou não. Os discípulos de Shammai discordam. Seja qual for a ocasião, não diga uma mentira. “Você chama isso de mentira?”, responderam os seguidores de Hillel. “No mínimo aos olhos do noivo, a noiva é linda”.

O que está realmente em questão aqui não é apenas o temperamento – os puritanos seguidores de Shammai versus os bondosos seguidores de Hillel, mas duas visões sobre a natureza da linguagem. Os seguidores de Shammai entendem a língua como uma maneira de fazer declarações, quer sejam verdadeiras ou falsas. Os seguidores de Hillel entendem que a linguagem é mais do que fazer declarações. Podemos usar a linguagem para encorajar, simpatizar, motivar e inspirar. Ou podemos usá-la para desencorajar, depreciar, criticar e deprimir. A linguagem faz mais do que transmitir informações. Transmite emoção. Ela cria ou perturba um humor. O uso sensível da fala envolve inteligência social e emocional. A linguagem, no famoso relato de J. L. Austin, pode ser performativa e informativa.

O debate entre Hillel e Shammai é semelhante ao debate entre Rambam e Rashi. Para Rashi, como para Shammai, a questão-chave sobre o louvor é: é verdade ou é excessivo? Para Rambam e Hillel a questão é: qual é o contexto? Está sendo dito entre inimigos ou amigos? Será que vai criar afeto e estima ou inveja e ressentimento?

Podemos ir mais longe, pois o desacordo entre Rashi e Rambam sobre o louvor pode estar relacionado a um desacordo mais fundamental sobre a natureza do mandamento: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Levítico 19:18). Rashi interpreta o mandamento significando: não faça ao seu próximo o que você não gostaria que ele fizesse com você (Rashi para Sanhedrin 84a). Rambam, no entanto, diz que o mandamento inclui o dever de “falar sobre seu louvor” (Hilchot Deot 6:3). Rashi evidentemente vê o elogio ao próximo como opcional, enquanto Rambam o vê como incluído no mandamento de amar.

Podemos agora responder a uma pergunta que deveríamos ter feito desde o início sobre a Mishná em Avot que fala dos discípulos de Yochanan ben Zakai. Avot é sobre ética, não sobre história ou biografia. Por que então nos diz que Raban Yochanan tinha discípulos? Isso com certeza é um fato, não um valor, uma informação e não um guia de como viver.

No entanto, podemos agora ver que a Mishná está de fato nos dizendo algo profundo. A primeira declaração em Avot inclui o princípio: “Crie muitos discípulos”. Mas como você cria discípulos? Como você inspira as pessoas a se tornarem o que elas poderiam se tornar, para atingir o máximo do seu potencial? Resposta: Agindo como fez Raban Yochanan ben Zakai quando ele elogiou seus alunos, mostrando-lhes as suas forças específicas.

Ele não os lisonjeou. Ele os guiou para ver seus distintos talentos. Eliezer ben Hyrcanus, o “poço que nunca perde uma gota”, não era criativo, mas tinha uma memória notável – importante nos dias anteriores à Torá Oral ter sido escrita em livros. Elazar ben Arach, a “fonte eterna”, era criativo, mas precisava ser alimentado pelas águas da montanha (anos depois se separou de seus colegas e se esqueceu de tudo o que tinha aprendido).

Raban Yochanan ben Zakai assumiu a opinião Hillel-Rambam de louvor. Ele não louvou tanto para descrever, mas para motivar. E isso é lashon tov. O mau discurso nos diminui, o bom discurso nos ajuda a crescer. O mau discurso coloca as pessoas para baixo, o bom discurso as levanta. O elogio focalizado e direcionado, informado pelo julgamento considerado das forças do indivíduo, e sustentado pela fé nas pessoas e na sua potencialidade, é o que torna os professores grandes e seus discípulos maiores do que de outra forma teriam sido. Isso é o que aprendemos com Raban Yochanan ben Zakai.

Portanto, existe lashon tov. De acordo com Rambam cai dentro do comando de “Amar o seu próximo como a si mesmo”. De acordo com Avot é uma maneira de “levantar muitos discípulos”. É tão criativo quanto lashon hará é destrutivo.

Ver o bem nas pessoas e dizer-lhes é uma forma de ajudar a tornar isso realidade, transformando-se num facilitador para o seu crescimento pessoal. Em sendo assim, então não somente devemos louvar a D-s. Devemos louvar e elogiar as pessoas também.

 

Texto original: “IS THERE SUCH A THING AS LASHON TOV?” por Rabino Jonathan Sacks.
Tradução Rachel Klinger Azulay para a Sinagoga Edmond J. Safra – Ipanema

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