YOM KIPUR

Posted on setembro 26, 2017

YOM KIPUR

O Desafio do Arrependimento Judaico

Os Dez Dias de Arrependimento são os sagrados dos sagrados do tempo judaico. Eles começaram na quarta-feira 20 de setembro à noite com Rosh Hashaná, o Ano Novo judaico, e culminam 10 dias depois com o Yom Kipur, nosso Dia de Arrependimento. Em nenhum outro momento eu me sinto tão perto de D-s, e suspeito que o mesmo é verdade para a maioria dos judeus.

Esses dias constituem um acontecimento como nenhum outro. O juiz é o próprio D-s, e nós estamos em julgamento por nossas vidas. Começa em Rosh Hashaná, com o toque do shofar, o chifre de carneiro, anunciando que o tribunal está em sessão. O Livro da Vida, no qual nosso destino será inscrito, está agora aberto. Como dizemos na oração: “Em Rosh Hashaná é inscrito, e em Yom Kipur é selado, quem viverá e quem morrerá”. Em casa, nós comemos uma maçã mergulhada em mel como símbolo de nossa esperança de um ano novo e doce.

Em Yom Kipur, a atmosfera atinge um pico de intensidade em um dia de jejum e oração. Repetidamente confessamos nossos pecados, o alfabeto inteiro deles, incluindo os que provavelmente não tivemos tempo nem imaginação para cometer. Nós nos lançamos à mercê da corte, isto é, do próprio D-s. Inscreva-nos, dizemos, no Livro da Vida.

E, ao final de um dia longo e pesado emocionalmente, terminamos como começamos 10 dias antes, com o som do chifre do carneiro – desta vez não com lágrimas e medos, mas com uma esperança cautelosa e confiante. Nós admitimos o pior sobre nós mesmos e sobrevivemos.

Sob a superfície desse longo ritual religioso encontra-se uma das histórias mais transformadoras do espírito humano. O sociólogo Philip Rieff apontou que o movimento do paganismo para o monoteísmo foi uma transição do destino para a fé. Nisso ele quis dizer que, no mundo do mito, as pessoas confrontavam-se com forças poderosas e caprichosas, personificadas como deuses que eram, na melhor das hipóteses, indiferentes; na pior das hipóteses, hostis à humanidade. Tudo o que você poderia fazer era tentar apaziguar, combater ou enganá-los. Essa era uma cultura de caráter e destino, e sua expressão mais nobre era a literatura da tragédia grega.

Os judeus vieram para ver o mundo de uma maneira completamente diferente. O livro de Gênesis abre com D-s fazendo os humanos “à sua imagem e semelhança”. Essa frase tornou-se tão familiar para nós que nos esquecemos do quão paradoxal ela é, já que, para a Bíblia hebraica, D-s não tem imagem ou semelhança. Como a narrativa rapidamente deixa claro, o que os humanos têm em comum com D-s é a liberdade e a responsabilidade moral.

O drama judaico é menos sobre o caráter e destino do que sobre vontade e escolha. Para a mente monoteísta, as batalhas reais não estão “lá fora”, contra forças externas da escuridão, mas “aqui dentro”, entre os anjos maus e bons da nossa natureza. Como o escritor de religião Jack Miles já apontou, você pode ver a diferença no contraste entre Sófocles e Shakespeare. Para Sófocles, Édipo deve lutar contra o destino cego e inexorável. Para Shakespeare, escrevendo, em uma época monoteísta, o drama de “Hamlet” encontra-se dentro, entre “o matiz nativo da resolução” e “o elenco pálido do pensamento”.

O problema é, claro, que diante da escolha, muitas vezes cometemos erros. Dada uma segunda chance, Adão e Eva provavelmente não tocariam na fruta. Caim poderia ter trabalhado um pouco mais no controle de sua raiva. E há uma linha direta desses episódios bíblicos para a destruição deixada pelo Homo sapiens: guerra, assassinato, devastação humana e destruição ambiental.

Esse ainda é nosso mundo de hoje. O fato-chave sobre nós, de acordo com a Bíblia, é que, exclusivamente em um universo diferente governado por leis, somos capazes de quebrar a lei – um poder que muitas vezes apreciamos exercer.

Isso levanta um dilema teológico agudo. Como reconciliar as altas esperanças de D-s com a humanidade com nosso histórico moral gasto e degradado? A resposta curta é o perdão.

D-s escreveu o perdão no roteiro. Ele sempre nos dá uma segunda chance, e mais. Tudo o que temos que fazer é reconhecer nossos erros, pedir desculpas, reparar e resolver se comportar melhor, e D-s perdoa. Isso nos permite abarcar simultaneamente as mais altas aspirações morais, enquanto admitimos honestamente nossas falhas morais mais profundas. Esse é o drama dos dias sagrados judaicos.

No coração dessa visão está o que o escritor pós-Holocausto Viktor Frankl chamou de nossa “busca de significado”. As grandes instituições da modernidade não foram construídas para fornecer significado. A ciência nos diz como o mundo veio a ser, mas não por quê. A tecnologia nos dá poder, mas não pode nos dizer como usá-lo. O mercado nos oferece escolhas, mas nenhuma orientação sobre quais escolhas devemos fazer. As democracias modernas nos dão um máximo de liberdade pessoal, mas um mínimo de moral compartilhada. Você pode reconhecer a beleza de todas essas instituições, mas a maioria de nós procura algo mais.

O significado não vem dos sistemas de pensamento, mas das histórias, e a história judaica está entre as mais incomuns de todas. Ela nos conta que D-s buscou nos transformar Seus parceiros na obra da criação, mas nós repetidamente O desapontamos. Ainda assim Ele nunca desiste. Ele nos perdoa uma e outra vez. O verdadeiro mistério religioso para o judaísmo não é nossa fé em D-s, mas a fé de D-s em nós.

Isso não é, como eventualmente afirmam ateus e céticos, uma ficção reconfortante, mas justamente o contrário. O judaísmo é o chamado de D-s para a responsabilidade humana, para criar um mundo que seja uma casa digna de Sua presença. É por isso que os judeus são tão frequentemente médicos que combatem doenças, economistas que lutam contra a pobreza, advogados que lutam contra a injustiça, professores que lutam contra a ignorância e terapeutas que lutam contra a depressão e o desespero.

O judaísmo é uma fé supremamente ativista, para a qual o maior desafio religioso é curar algumas das feridas de nosso mundo profundamente fraturado. Como Frankl colocou: a verdadeira questão não é o que queremos da vida, mas o que a vida quer de nós.

Essa é a pergunta que nos é feita em Rosh Hashaná e Yom Kipur. Ao pedir a D-s que nos inscreva no Livro da Vida, Ele nos pergunta, o que você fez com sua vida até agora? Você pensou nos outros ou apenas em você? Você trouxe cura para um lugar onde havia dor humana? Ou trouxe esperança onde você encontrou desespero? Você pode ter sido um sucesso, mas você também foi uma benção? Você inscreveu outras pessoas no Livro da Vida?

Para fazer essas perguntas, uma vez por ano, na companhia de outros publicamente dispostos a confessar suas faltas, elevadas pelas palavras e músicas de orações antigas – sabendo que D-s perdoa todas as falhas que reconhecemos como falhas, e que Ele tem fé em nós quando perdemos a fé em nós mesmos – pode ser uma experiência de mudança de vida. É quando descobrimos que, mesmo em uma era secular, D-s ainda está lá, aberto para nós sempre que desejarmos nos abrir para Ele.

 

 

Texto original: “THE CHALLENGE OF JEWISH REPENTANCE” por Rabino Jonathan Sacks.
Esse artigo foi publicado no The Wall Street Journal em 16 de setembro de 2017.

 

Tradução Rachel Klinger Azulay para a Sinagoga Edmond J. Safra – Ipanema

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